CARNIFICINA*

ou
“UMA HISTÓRIA MACABRA DE MENTALISMO, NECROLEPSIA E LOUCURA”

If I shall die before I wake,
I pray the Lord my soul to take.
Oração tradicional infantil norte-americana

1. INTRODUÇÃO

A história é recheada de artistas que morreram no palco apresentando-se. Algumas dessas mortes se deram em função do próprio show. A morte de Chung Ling Soo é talvez o exemplo mais cabal: ele morreu no palco, ao executar o número de pegar a bala. Outros artistas, no entanto, simplesmente passaram mal no palco e momentos depois vieram a falecer. Não pense porém, caro leitor, que isso torna as circunstâncias de suas mortes menos misteriosas ou menos curiosas. O caso do mentalista norte- americano Washington Irving Bishop é um desses casos.

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2. WALTER IRVING BISHOP

01. W. I. Bishop
Walter Irving Bishop

Bishop foi um proeminente mágico mentalista que começou sua carreira no começo dos anos 1870. Nascido em 1856 em um lar espiritualista (sua mãe se considerava uma médium) ele iniciou a sua carreira como ajudante e gerente da médium Anna Eva Fay. Alguns anos mais tarde, por motivos não bem esclarecidos, Bishop virou-se contra sua própria história e foi à público desmascarar Anna. O fato de ter sido derrotado em um processo por John Nevil Maskelyne que o acusou de charlatanismo pode ter contribuído para a guinada na carreira. Fosse o que fosse, o fato é que a partir de 1876 Bishop dedicou-se a apresentar-se como um mentalista cujo foco do show era a revelação dos métodos dos falsos médiuns, antecipando Houdini em alguns anos. Em 1880 Bishop escreveu um livreto com pouco mais de 70 páginas intitulado “Second Sight Explaned” no qual revelava os principais métodos de clarividência dos médiuns. Bishop também era expert em “muscle reading”, fato que, como veremos mais adiante, contribui para a sua morte.

Como mentalista Bishop foi bastante profícuo: em 1881 criou a técnica do “non-contact mind reading”. Em 1885 inovou novamente criando o truque de dirigir vendado. Irving Bishop tinha tudo para entrar gravar o seu nome na história da mágica mundial. Porém sua carreira teria um fim abrupto e inesperado.

02. Folheto show de WIB
Folheto anunciando o show de Bishop

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3. A ESTRANHA MORTE DE BISHOP

Em 12 de maio de 1889 enquanto se apresentava no “Lambs Club” (uma espécie de clube de artistas profissionais de Nova York) Bishop simplesmente desmaiou logo no começo de seu ato. Socorrido, ele logo voltou a si e tornou a apresentar-se de onde havia parado. Alguns momentos depois, novo desmaio, só que dessa vez Irving não voltou à consciência. Às 15:45 do dia seguinte seu corpo era autopsiado pelas autoridades locais. E é aí que ganha vários detalhes estranhos e macabros.

Conforme dito anteriormente, Irving Bishop era especialista em “muscle reading” e sua performance era exagerada e repleta de maneirismos. Relatos da época dizem que para adicionar drama ao ato, ele executava a leitura de forma frenética, quase epilética. Acredita-se que esse esforço exagerado na apresentação acabou desencadeando uma crise de catalepsia em Bishop, que já sofria dessa síndrome.

Catalepsia é uma doença neurológica em que a pessoa “apaga”, seus sinais vitais caem; ela permanece rija, como se estivesse morta. No passado muitos doentes de catalepsia acabaram sendo enterrados vivos. Esse era o grande medo Bishop, tanto que ele mantinha um bilhete em um de seus bolsos onde contava de seu estado catatônico e que não deveria ser confundido com morte e, principalmente, que NÃO deveriam autopsiar o seu corpo, a não ser após passadas 48 horas.

Após desmaiar pela segunda vez, Bishop foi atendido ainda no “Lambs” por seu médico particular. Ele tentou reanimar o mentalista com os procedimentos padrões. O médico lutou até às 4:00 da manhã, mas não obteve sucesso. Na manhã seguinte Gus Thomas um amigo de Bishop contou que ao dirigir-se ao “Lambs” para saber do amigou encontrou-o comatoso, deitado em uma cama de ferro, com dois eletrodos ligados ao seu corpo – um no coração e outro em sua mão – e uma bateria que zumbia passando eletricidade pelo seu corpo. Na sala ao lado, dois médicos exaustos após uma longa vigília, fumavam seus cigarros.

Gus Thomas observava seu amigo, o qual apresentava todos os sinais de estar morto, quando, aproximadamente às 12:10, o rosto de Bishop tornou-se profundamente solene. Os médicos então declaram que Bishop acabara de falecer e imediatamente levaram o corpo do mentalista para a autópsia.

O fato da autópsia em Bishop ter sido feita poucas horas após a sua morte, alimentou a teoria de que na verdade, Bishop acabou sendo autopsiado ainda vivo. A esposa de Bishop, ao deparar-se com o cadáver do marido com o crânio serrado, gritou para os dois médicos: “Vocês mataram meu marido!”

03. Eleanor
Eleanor Bishop no velório de seu filho. Repare na cicatriz na testa de Bishop

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4. AÍ QUE A HISTÓRIA FICA VERDADEIRAMENTE BIZARRA

A polêmica foi tanta que em 28 de maio uma nova autópsia foi feita em Irving Bishop. O novo legista, ao abrir o corpo, encontrou o cérebro de Bishop “guardado” em seu peito. Ele relatou ainda que “todo o corpo parecia saudável” e “aparentemente não havia nada que pudesse ter causado a sua morte”. Por fim um detalhe bizarro: ainda segundo o novo relatório, “algumas partes do cérebro bem como alguns órgãos haviam desaparecido”.

O procedimento relâmpago rendeu um litígio judicial. Encampado pela mãe de Bishop, Eleanor Fletcher Bishop, os três médicos que executaram a primeira autópsia foram processados. Em sua defesa eles alegaram que não havia nenhum bilhete no bolso de Bishop. E de fato, tal bilhete nunca foi encontrado. Em 1893 finalmente a sentença: os médicos foram inocentados e puderam continuar suas carreiras sem problemas. Eleanor, por sua vez, seguiu em sua cruzada por quase três décadas contra os médicos. Ela chegou a escrever um livro em 1889 dramaticamente intitulado: “A Mother’s Life Dedicated and an Appeal for Justice to All Brother Masons and the Generous Public — A Synopsis of the Butchery of the Late Sir Washington Irving Bishop (Kamilimilianalani) A Most Worthy Mason of the Thirty-Second Degree, the Mind Reader, and Philanthropist By Eleanor Fletcher Bishop, His Broken-Hearted Mother.” (A vida de uma mãe dedicada e o apelo à justiça para todos irmãos maçons e ao generoso público – Uma sinopse da carnificina do falecido Sir Washington Irving Bishop (Kamilimilianalani) o mais digno maçom de trigésimo segundo grau, o leitor de mentes e filantropista por Eleanor Fletcher Bishop, sua mãe de coração partido”).

livro eleanor
 Capa do livro de Eleanor Bishop

No atestado de óbito de Bishop a causa mortis consta como: “histero-catalepsia” (ataque de histerismo complicado por problemas de catalepsia). Bishop sempre disse que seus poderes vinham de seu cérebro único. Talvez isso explique a pressa dos médicos em realizarem a autópsia. Para a decepção dos legistas seu cérebro era normal, apenas um pouco mais pesado e escuro do que a média, mas nada de anormal.

Anos antes de sua morte, Bishop disse ao amigo Henry Byatt, um novelista inglês, que enquanto estava cataléptico ele podia ouvir tudo, sentir tudo e que estava plenamente ciente dos acontecimentos ao seu redor. Ele apenas não conseguia se mover ou se comunicar.

Na lápide de Bishop ele recebeu o título de “mártir”. Foi considerado assim, pois morreu pela sua arte: mesmo sabendo de seu problema de catalepsia, não abriu mão de uma interpretação forte e convincente, dignas do grande mentalista que foi.

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5. CONCLUSÃO

As perguntas do caso de Bishop nunca serão plenamente respondidas. Quando Washington Irving Bishop morreu? No palco, na cama de ferro ou na mesa de autópsia? Ele sentiu cada uma das 8 horas de eletro-choques? Ele foi autopsiado vivo? Sentiu alguma dor enquanto seu cérebro era removido de seu crânio? Jamais saberemos. A única coisa que sabemos é que após a morte do filho, Eleanor recebeu a ajuda de Harry Houdini, que comprou a memorabilia de Bishop para ajudar financeiramente a enlutada mãe. Ela agradecida citou Harry como seu herdeiro, que recebeu, quando da morte de Eleanor, uma mansão imaginária avaliada em 30 milhões de dólares.

Onde está seu deus agora, Stephen King?

* OBS: Carnificina (Butchery) é o título de uma peça de teatro que conta a história de Eleanor Bishop.

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