BATALHA DOS MÁGICOS

POST PUBLICADO ORIGINALMENTE EM:
“A GUILHOTINA” Nº 00 – JUNHO DE 2015

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1. INTRODUÇÃO

Quem assistiu ao filme “O Grande Truque” viu a que ponto pode chegar a rivalidade entre dois mágicos. No mundo real, rivalidades também aconteceram, e muitas delas entraram para a história.

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2. Alexander Herrmann x Carl Herrmann – Irmãos dividindo o mundo

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(Arte: Henri Sardou)

Seria um exagero dizer que Carl e Alexander eram rivais. Carl e Alexander eram irmãos e Carl (cujo nome verdadeiro era Compars) servia de inspiração ao irmão mais novo. Carl largou os estudos em medicina e resolveu dedicar-se integralmente à mágica. Sendo um grande fã do irmão mais velho, Alexander começou a copiar o irmão e a demonstrar interesse na mágica. Precisando de ajuda e percebendo o interesse do irmão mais novo Carl “sequestrou” o seu irmão – que à época tinha apenas oito anos – e o levou para uma turnê pelo Leste Europeu.

Alexander servia ao irmão como assistente de palco. Ele levitava no palco apoiado em bastão e atuava como médium vendado. Alexander ainda tomava lições de manipulação, para a qual demonstrou grande afinidade. Após a turnê, Carl “devolveu” o irmão aos seus pais. Alexander mostrou ao seu pai, Samuel (o qual já era um renomado físico – ou seja, um mago cientista) o que havia aprendido com o irmão. Samuel viu o potencial do garoto e permitiu anos mais tarde que Alexander acompanhasse o irmão. Aos 11 anos Alexander mudou-se de Paris para Viena para trabalhar ao lado do irmão.

A cada ano a habilidade de Alexander aumentava e ele se tornava parte maior do show. Aos 17 anos, Alexander e Carl vieram para a América. Já era patente que a habilidade de Alexander rivalizava com a do irmão. Isso deixou Carl ciumento, porém, ele continuava sendo a estrela do show e Alexander continuava sendo o médium vendado. Os irmãos fizeram seu tour pela América e logo decidiram se separar. Enquanto Alexander permaneceu na América, tornando-se “O” Herrmann, Carl voltou para a Europa e por lá excursionava.

Assim o mundo ficou dividido entre dois Hermmanns: Carl ficou com a Europa e Alexander com a América. A rivalidade entre os irmãos não era declarada, mas é fato que ambos competiam para ver quem levaria o nome Herrmann mais longe.

E, embora rivais, eles ainda eram irmãos. Quando Carl faleceu em 1887, Alexander ficou profundamente triste e para um jornal declarou que tudo o que ele era, devia ao irmão.

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3. Chung Ling Soo x Ching Ling Foo – A batalha pelo original

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(Arte: Henri Sardou)

O original não se desoriginaliza, fato! Mas e quando a cópia sobrepuja o original? Essa é a história de Chung Ling Soo e Ching Ling Foo.

Ching Ling Foo (nascido Zhu Liankui) era um mágico chinês, nascido em Pequim, versado nas artes ilusionistas orientais. Tendo alcançado grande prestígio na China, resolveu tentar a sorte no Ocidente, empreitada essa que foi bem sucedida; Foo foi o primeiro mago oriental a fazer sucesso no ocidente. Dentre seus truques estavam a produção de uma enorme tigela cheia d’água e a decapitação de um garoto (coisa que nem Dedi fez, mas divago…).

Num ato de publicidade, Ching desafiou qualquer pessoa a reproduzir o seu número da tigela de água. A recompensa era de US$ 1.000,00 (aproximadamente R$ 30.000,00 em valores atuais). Foi então que um mágico do Brooklyn chamado William Robinson arriscou reproduzir o truque. Foo repeliu o desafiante, recusando-se até mesmo à assistir à tentativa de Will. Ficou claro, então, para Will que Foo não daria o prêmio a ninguém, independentemente da realização do truque.

A vingança de William foi única. Aproveitando uma oportunidade de trabalho que requeria um ilusionista chinês, William emulou praticamente todo o show de Ching. O próprio nome artístico foi uma cópia quase fiel do rival. Assim, em 1900, nascia Chung Ling Soo. O toque de gênio foi o slogan criado por ele: “O conjurador chinês original”. De acordo com a biografia fictícia de Chung, ele era filho de um missionário americano e mãe cantonesa. Ficou órfão de pai e mãe aos 13 anos e foi então adotado por Arr Hee, um mágico chinês versado também nos truques “europeus”.  Após a morte de seu mestre, Soo partiu pelo mundo em carreira solo e chegou à América.

Robinson manteve-se no papel de forma plena e integral. Raramente falava inglês no palco e quando falava era um inglês fortemente carregado de sotaque. Entrevistas, só com o suporte de intérpretes. Logo, Soo (Robinson) se tornou o mágico oriental mais popular do ocidente, sobrepujando inclusive o próprio Foo (Liankui). Não tardou para que Liankui desafiasse seu simulacro.

Em 1905 os dois mágicos estavam em Londres, Foo (Liankui) se apresentando no Empire Theatre e Soo no Hipódromo. À essa altura Foo já sabia da verdadeira identidade de Soo e que ele havia emulado o seu show. Como um golpe publicitário, Foo (Liankui) foi à público e anunciou que Soo (Robinson) era uma fraude e se propôs a replicar, pelo menos, metade do show de Soo, provando assim que ele era o verdadeiro ilusionista chinês. Sem se abalar Soo aceitou o desafio e concordou em se encontrar com Foo no escritório da “The Weekly Dispatch”, um jornal londrino da época.

O problema para Foo é que a imprensa estava mais interessada na disputa entre números de mágica do que na real identidade de Soo, o que foi um baque para Liankui. Dessa forma, Liankui se recusou a aparecer na conferência de imprensa e retirou o desafio. O episódio causou um embaraçamento público para Foo a ponto de seu show no Empire Theatre ter durado apenas quatro semanas, enquanto o show de rival ficou em cartaz por cerca de três meses.

Em 1918 Soo (Robinson) morreu tragicamente durante um show enquanto executava o truque de pegar a bala. Sua morte causou dupla comoção: pelo modo como aconteceu, e por finalmente fazer a verdade sobre sua identidade vir à tona. Já a morte de Foo, 4 anos depois, permanece ainda hoje um mistério.

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4. Horace Goldin x P.T. Selbit – O número da discórdia

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(Arte: Henri Sardou)

Goldin era um mágico polonês que migrou para a América ainda adolescente. Seu sucesso veio em 1921 ao apresentar e patentear o número da mulher serrada ao meio. O problema é que este truque foi criado por PT Selbit, um mágico inglês, o qual foi assistido por Goldin meses antes de ele dar entrada na patente do número da mulher serrada ao meio.

Selbit apresentou seu número oficialmente em janeiro de 1921, meses antes, portanto, de Goldin. Há registros que já em dezembro de 1920 Selbit havia feio pequenas exibições privadas para alguns donos de teatro a fim de avaliar a qualidade do seu número.

Havia pequenas diferenças entre os números: no de Selbit a caixa ficava na vertical e a assistente ficava com braços e pernas abertos. Era amarrada com cordas pelos pés e mãos por voluntários da plateia. A seguir eram inseridas duas placas de vidro na caixa, na altura do torso da assistente e, em seguida, serrada ao meio com um serrote. As seções eram separadas e o torso da assistente mostrado. Na versão de Goldin, a caixa ficava na horizontal e a assistente entrava dentro da caixa. Seus pés, mãos e cabeça eram postos para fora por aberturas feita na caixa e a assistente presa por grilhões. A caixa então era serrada ao meio e em seguida eram inseridas folhas de metal nas bordas cortadas e as metades separadas.

A primeira apresentação de Goldin não foi das mais exitosas. Seu número apresentou inúmeras deficiências que não trouxeram o assombro esperado. Ainda mais em se considerando que foi apresentado para os membros da Sociedade Americana de Mágicos. Mas um dos espectadores viu o potencial do truque e se prontificou em ajudar Goldin a desenvolvê-lo. Howard Thurston então indicou Harry Janses, seu engenheiro de equipamentos que refinou o número.

Nesse ponto, Goldin acabou registrando e patenteando o número, o que impediu que outros mágicos pudessem executar esse número. Assim, por 17 anos, Goldin teve o monopólio do número, tanto que, até hoje, algumas pessoas creditam a ele a invenção desta ilusão. Goldin ainda enfrentou alguns processos judiciais por conta do segredo do número e de sua revelação. Quanto à Selbit, ele voltou para a Inglaterra onde continuou trabalhando e tentando criar números tão bons quanto o da mulher serrada ao meio. Muitos de seus números fizeram muito sucesso como o “The Million Dollar Mystery” apresentado, entre outros, por Carter, o Grande; Mas nenhum deles atingiu o mesmo grau de sucesso da mulher serrada ao meio.

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5. Houdini x Thurston – O Ying-Yang da mágica

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(Arte: Henri Sardou)

Dois grandes mágicos que não poderiam ser mais contrastantes. Não se odiavam, mas também não se amavam. Não obstante, Jim Steinmeyer dedicou um livro inteiro para contar a história de rivalidade entre Harry Houdini e Howard Thurston.

Thurston foi vice-presidente da Sociedade de Mágicos Americanos; Houdini foi o presidente. Thurston era um ex-golpista que revisou a sua biografia para vender a imagem de um homem religioso e de intenções nobres; Houdini era filho de um rabi judeu e forjou uma identidade falsa na qual havia se associado à criminosos. Aliás, Thurston era reconhecidamente um polido gentleman, enquanto Houdini era visto como arrogante e cheio de si. Apesar de famoso pelas suas grandes ilusões, a grande virada de Thurston veio quando aprendeu o “backhand palm” com T. Nelson Downs; Houdini, apesar de se proclamar o “O rei das cartas” era pífio na cartomagia e o causo onde foi enganado por Dai Vernon tronou-se uma lenda no meio mágico.

O grande número de Thurston foi “A Levitação da Princesa Karnac”, número que herdou de Harry Kellar; o grande número de Houdini foi criado por ele mesmo, mas não envolvia mágica, mas sim escapismo (“The Water Torture Cell”). Aliás, Thurston foi o sucessor natural de Harry Kellar, o maior ilusionista nativo americano até então. Houdini era muito amigo de Kellar, praticamente um discípulo, mas não o seu sucessor natural.

O show de Thurston fazia jus ao título de “O Show mais Maravilhoso do Universo”: dançarinas, um automóvel que desaparecia no palco, transformações, truques com água, cartas, patos, coelhos… O show de Houdini incluía, além de algum ato de mágica, escapismo e uma lição sobre os falsos médiuns.

Steinmeyer definiu a rivalidade entre os dois de forma absoluta e brilhante: “Enquanto Thurston buscava se tornar o melhor mágico do mundo, Houdini lutava para se tornar uma lenda”. No fim das contas, cada um obteve o seu quinhão.

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David Copperfield x Herbert Becker – Batalha nos tribunais

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(Arte: Henri Sardou)

David Copperfield já se envolveu em inúmeros processos, a grande maioria de natureza trabalhista. Mas um caso em especial entrou para o hall de causos curiosos da arte.

Em 1993 Herbert Becker estava escrevendo um livro sobre a vida de grandes mágicos e revelando alguns de seus truques mais famosos, quando David Copperfield se aproximou de Becker e pediu para ser incluído no livro. Os dois trabalharam juntos e Becker incluiu em seu livro, além de fatos sobre a vida de Copperfield, a revelação de alguns de seus truques.

Mais tarde Copperfield moveu um processo contra Becker com o intuito de parar a publicação do livro sob pretexto de que “Becker estaria revelando os truques de Copperfield”. David perdeu o processo, mas quando o livro foi publicado em 1995 este saiu da gráfica SEM o capítulo sobre David Copperfield. Um capítulo inteiro simplesmente desapareceu do livro. Becker buscou tomar satisfações da editora mas estes se recusaram a comentar sobre o ocorrido.

Em 1997 Becker processou a editora e David Copperfield alegando um conluio entre eles que culminou em uma quebra de contrato da Editora com Becker. Becker saiu vencedor deste processo.

Poucas semanas depois de ser processado por Becker, Copperfield entrou com um processo contra a revista Paris Match por difamação. Segundo a revista, o encontro de David Copperfield e Claudia Schiffer teria sido armado e o seu casamento um mero arranjo de interesses, e que ela sequer gostava de David. David alegou que Becker era a fonte por trás da história e o acusou de ser um mágico fracassado e invejoso. Becker negou a acusação e disse que Copperfield era realmente terrível com as mulheres e que só queria fama e atenção.

Independentemente se Becker era ou não a fonte por trás da notícias, o fato é que David e Becker resolveram as suas diferenças e Becker, antes citado no processo por Copperfield, acabou testemunhando em defesa do outrora rival. E o testemunho de Becker foi decisivo para que em 1999 David Copperfield saísse vencedor do processo contra a revista francesa, a qual, além de pagar a indenização, se retratou publicamente.

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4. E hoje?

Atualmente a rivalidade entre artistas é menos patente, embora ainda exista. Porém, ao invés de resolver o problema nos palcos, eles tem sido decidido nos tribunais.

Em 2012 Teller moveu um processo contra o mágico holandês Gerard Bakardy por suposta quebra de direitos autorais. Bakardy assistiu a uma apresentação de Penn & Teller em Las Vegas e quando viu o número “Shadows” de Teller, no qual Teller projetava a sombra de uma rosa em um fundo branco e, ao cortar a sombra da rosa com uma faca, a rosa caia no palco. Bakardy então criou o seu próprio método para o efeito e o colocou à venda por US$ 3.000.

O problema é que esse truque havia sido patenteado por Teller em 1983. Teller ainda tentou um acordo com Bakardy para comprar a sua versão, mas não houve acordo. O caso foi parar nos tribunais e em 2014 Teller saiu vitorioso. O caso tornou-se emblemático pois abriu a discussão sobre a aplicação da lei de direitos autorais para números de mágica como um todo, e não apenas para o aparato.

Hoje os mágicos convivem com uma nova realidade: as redes sociais que permitem críticas mais mordazes e o nascimento de inimizades entre artistas mágicos, muitas vezes ainda antes da fama. Parafraseando um rabino do século I d.C. “(…) é inevitável que hajam escândalos; mas ai daquele homem por quem o escândalo vem.

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