MÁGICA EM TEMPOS DE GUERRA – A MÁGICA COMO ARMA POLÍTICA

1. Introdução

No post anterior escrevi sobre o livro, baseado na história real de Robert-Houdin. Hoje, veremos como sucedeu, de fato, este belo episódio da história da mágica, em que Robert-Houdin evitou uma guerra usando seus truques.

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2. O contexto histórico

O ano era 1856 e a França, enquanto império expansionista, buscava firmar seu domínio sobre suas colônias africanas, em especial sobre a Argélia, cuja capital, Argel, tinha uma importância estratégica. A colonização que havia começado em 1830, chegava agora ao seu ponto de tensão máximo. A França controlava quase todo o país, exceto as regiões Saarianas. Especialmente a região de Cabila era a mais problemática.

Charge da cavalaria francesa contra insurgentes Argelinos. 1843
Charge da cavalaria francesa contra insurgentes Argelinos. 1843

Com uma população de maioria árabe, Argel vivia sob jugo islâmico, religião que era tolerada pelo Império Francês. Levadas à cabo por líderes espirituais islâmicos locais, os chamados marabus, muitas insurreições populares eclodiam no país. Eram revoltas pequenas, sempre controladas pelo Império Francês. Porém, pairava no ar o temor de que uma dessas insurreições finalmente conseguisse unir as diferentes tribos e uma revolta nacional eclodisse.

Em 1854 o Coronel De Neveu, chefe do Bureau Político de Assuntos Árabes, e um quase conterrâneo de Robert-Houdin, fez o primeiro convite para que o mágico apresentasse a sua arte na Argélia. Não se sabe ao certo se a decisão de De Neveu contava com o apoio de seus superiores, embora suspeite-se que o Imperador Napoleão estivesse à par do assunto. O que se sabe é que De Neveu era casado com uma Argelina e era de seu desejo que as duas comunidades – França e Argélia – coexistissem pacificamente, sem o derramamento de sangue.

Robert-Houdin declinou o convite, segundo ele porque acabara de chegar de uma turnê e estava feliz em estar de volta em sua casa. Em 1855, novo contato do Coronel e nova recusa de Robert-Houdin. A desculpa agora era que ele estava se preparando para uma cerimônia onde seria premiado. O Coronel manteve essa desculpa na mente e pouco tempo após a premiação um terceiro convite veio do coronel. Robert-Houdin agora não tinha mais desculpas para recusar o convite.

Capa de revista "Tourbillon" de 28 de dezembro de 1946, contando a história de Robert Houdin na Argélia.
Capa de revista “Tourbillon” de 28 de dezembro de 1946, contando a história de Robert Houdin na Argélia.

O convite estendeu-se única e exclusivamente a Robert-Houdin. Até onde se sabe, nenhum outro mágico francês foi convocado para esta tarefa. A estratégia era, conforme apontada no post anterior, usar as armas dos marabus contra eles mesmos. Se eram seus sinais miraculosos que lhe davam o poder de falar em nome de Alá, então um profeta mais poderoso teria ainda mais autoridade para falar em nome do Profeta. Foi aí que o nome de Jean Eugène Robert-Houdin veio à tona.

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3. A preparação

Segundo o relato de oficiais franceses, um homem chamado Mahamed Abdallah que trazia grande semelhança com Bou Maza, um antigo líder insurgente.  Esse marabu dizia que aqueles que os seguissem se tornariam imunes às armas dos franceses e usava de truques para convencer o povo de que era o escolhido de Alá. O próprio Robert-Houdin em seu livro: “Memórias”:

Um deles solicitou uma arma, que foi carregada e disparada contra ele de uma distância muito curta, mas foi em vão que o gatilho foi apertado. O marabu pronunciou algumas palavras cabalísticas e a arma não disparou. O mistério era simples: a arma não disparou porque o marabu habilmente cobriu a entrada de ar. Coronel De Neveu me explicou a importância de desacreditar este milagre com uma manipulação que fosse superior a esta. E eu sabia como.

Robert-Houdin passou a maior parte do verão de 1856 preparando-se para a sua viagem. Em 10 de setembro partiu para Marselha e de lá, para Argel. Sua viagem foi anunciada pelos jornais marselheses e sua chegada na Argélia, idem. Ao chegar na Argélia, Houdin descobriu que o governador local não estava na capital. Havia se deslocado para Cabila a fim de conter uma insurreição. Isso adiou os planos em um mês. Nesse tempo, lhe foi permitido que usasse o teatro da cidade para suas apresentações. Sem custos para o mágico.

Fotografia colorizada da chegada de um barco à vapor na Argélia. 1899
Fotografia colorizada da chegada de um barco à vapor na Argélia. 1899

Nesses quase 30 dias de apresentações, Robert-Houdin apresentou o melhor de seu repertório, exceto, é claro, os truques especialmente designados para conter os marabus. Esses truques seriam apresentados em uma gala especial dedicada ao líderes (marabus) árabes nos dias 28 e 29 de outubro.

Capa do livro de Robert-Houdin em que ele conta sua história na África. Entre 1870-1890
Capa do livro de Robert-Houdin em que ele conta sua história na África. Entre 1870-1890

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4. A mágica de Robert-Houdin

Robert-Houdin relatou essas performances como memoráveis, tanto pela apresentação, como pela adaptação de seus números para o contexto pretendido. um dos números apresentados foi o “Caixa Leve e Pesada”. Por exemplo, ao invés do tradicional texto sobre ser impossível roubar os segredos de Robert-Houdin, ele transformou o número em um desafio aos árabes mais fortes. Robert-Houdin dizia ser capaz de, temporariamente, retirar a força de qualquer homem. Nenhum homem era capaz de levantar sua caixa secreta, embora uma criança pudesse.

Outro truque apresentado por Houdin foi o de pegar a bala, que era claramente superior ao executado pelos marabus. Por fim, o truque de fazer desaparecer uma “membro aleatório” da plateia, sob um cone gigante. Segundo relatos, este truque foi o que mais pânico causou entre os árabes. O pânico foi tanto que os árabes só se recobraram ao final do show, quando viram o árabe do lado de fora do teatro esperando seus conterrâneos.

Os jornais locais louvaram muito o show de Robert-Houdin. Segundo os jornais seus feitos seriam falados por um longo tempo e poupariam a vida de milhares de cristãos e árabes. O Jornal estava duplamente correto.

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5. Conclusão

Três dias após essas performances, Robert-Houdin foi chamado ao Palácio do Governador para uma cerimônia na qual seria o convidado de honra. Lá chegando encontrou os 30 maiores líderes tribais árabes. Cumprimentou a todos com um aperto de mão e uma reverência, embora a maioria deles tivesse medo de apertar a mão do grande mágico branco.

O mais velho dos chefes aproximou-se de Robert-Houdin e abriu um rolo de pergaminho. Nele, um belo poema reconhecendo o poder de Jean Eugene Robert-Houdin, muito belamente caligrafado, entremeado com maravilhosos arabescos. O ancião leu o poema com grande solenidade. Ao fim da leitura, tomou o selo de sua tribo e estampou-o no pergaminho. O gesto foi seguido pelos outros 29 líderes. Ao final, enrolaram o pergaminho e o presentearam a Houdin. com o seguinte elogio:

Para um mercador, é dado ouro; para um guerreiro, armas são oferecidas. A ti, Robert-Houdin, presenteamos com o testemunho de nossa admiração, a qual poderás repassar a teus filhos. Perdoe-nos presentear-te com esta ninharia, mas cabe-nos oferecer a pérola-mãe ao homem que já possui a verdadeira joia?

Profundamente emocionado, Robert-Houdin aceitou o pergaminho. E pelo resto de seus dias considerou este, o mais precioso souvenir de sua vida como artista.

Certificado dado à Robert-Houdin pelos líderes das tribos árabes. 1856
Certificado dado à Robert-Houdin pelos líderes das tribos árabes. 1856

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6. Bibliografia

Livro: Christian Fechener “The Magic of Robert-Houdin” Vol. 2

Livro: Jean Eugene Robert-Houdin “The Life and Adventures of Houdin, the Conjuror

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