RESENHA – LIVRO “A MULHER DO MÁGICO”

Capa do Livro
Capa do Livro

RESENHA OFICIAL

Baseado em fatos reais, o drama contado neste livro pode ter mudado os rumos da história francesa. No mínimo, certamente transformou o destino da mulher do mágico, cuja antiga e pacata realidade acaba por se revelar pouco mais do que uma miragem.

Na França, em meados do século XIX, Henri Lambert – provavelmente o maior mágico ilusionista de toda a Europa – e sua mulher, Emmeline, são convidados para uma das famosas recepções na corte de Luís Napoleão. Na ocasião, o casal é convocado pelo próprio imperador para uma missão no mínimo inusitada: evitar a deflagração da guerra santa, convencendo os líderes religiosos das tribos árabes insurretas, na Argélia semi-ocupada, de que na França há guias espirituais capazes de milagres que estão muito além da compreensão dos argelinos.

Com esse enredo surpreendente, Brian Moore faz, desta vez, uma incursão pelo romance histórico. Seu trabalho resulta na recriação minuciosa da corte francesa à época de Napoleão III, com sua pompa e sofisticação protocolares, e do cenário perturbador do deserto saariano na Argélia, com o fascínio que exerce até hoje no imaginário ocidental.

Ao lado do triângulo formado por Lambert, sua esposa e o misterioso coronel Deniau Zuavos, os personagens principais são marabus, xeques e guerreiros cabilas. Todos são apanhados pelo emaranhado de conflitos que opõe, de um lado, tribos árabes ansiosas pela jihad iminente contra os invasores infiéis, e, de outro, as tropas francesas prestes a se reunir e dominar o país.

Participando diretamente dos sonhos de expansão colonial do império francês, cabe ao mágico profissional apresentar aquele que deverá ser seu número supremo (ou derradeiro). E à mulher do mágico cabe descortinar, véu após véu, uma realidade muito diferente daquela a que estava acostumada, tipicamente burguesa e provinciana. Henri Lambert e Emmeline são jogados num mundo novo que os transformará, sem dúvida. E que talvez seja irremediavelmente transformado por eles.

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SOBRE O LIVRO

Resumindo o livro em uma frase: É um romance para mulheres. Isso não é uma crítica, tampouco um demérito, apenas é a característica do livro. O personagem principal é a mulher do mágico e o mote do livro é a sua visão do mundo e dos acontecimentos que a cercam.

Posto isto, é bom que se diga: o livro é baseado em fatos reais. Conta a história de Henri Lambert o maior mágico do mundo à época e como ele, com seus truques, evitou uma guerra entre a França Imperial e os árabes da colônia de Argel. Esse acontecimento foi baseado na vida e história de Jean Eugène Robert-Houdin que, de fato, usou seus truques para evitar a guerra.

Jean Eugène Robert-Houdin, o mágico que inspirou o personagem Henri Lambert
Jean Eugène Robert-Houdin, o mágico que inspirou o personagem Henri Lambert

Voltando ao livro, este pode ser dividido em duas partes: na primeira, conta história de como Henri foi convocado para prestar serviço à França. Como forma de convencimento, o Imperador Napoleão III convidou Henri, sua esposa e alguns outros convivas de seu interesse para uma semana de festas no campo. Nessa parte o autor descreve em minúcias como funcionava a alta sociedade francesa da época. Também descreve Emmeline, a mulher do mágico, como uma pessoa praticamente invisível e inútil, cuja vida não serve nem para a futilidade da alta roda francesa.

Imperador Napoleão III
Imperador Napoleão III

Na segunda metade do livro Henri e sua esposa estão em Argel e se apresentam aos marabus (feiticeiros árabes) e xeques com o intuito de provar que a França possui um “marabu” mais poderoso que os marabus árabes e, por isso, declarar uma revolta popular à França, seria uma declaração de guerra ao próprio Alá. Nesse ponto do livro, Emmeline se torna mais valorosa, independente e senhora de si. A mudança é abismal.

Jean Eugene Robert-Houdin, o mágico que inspirou a personagem Henri Lambert no livro
Ilustração do truque usado por Robert-Houdin: “Caixa leve, caixa pesada”.

E foi justamente essa dicotomia que me fez desgostar do livro. Não que seja um livro ruim em si, mas a primeira parte do livro é deveras maçante, ao ponto de eu demorar uma semana para ler dez páginas. A história não anda, as personagens não se aprofundam, absolutamente nada acontece. Segundo alguns leitores de Brian Moore, esse é o seu estilo: discreto, “silencioso”. Para mim, não funcionou.

Na segunda metade, porém, a história anda. Lê-se facilmente 10, 20 páginas de uma só vez. Porém algo rompe com a verossimilhança da história: nada de digno acontece na vida de Emmeline que justifique a sua mudança de postura. Como se aquela mulher forte sempre estivesse estado lá, porém nunca se manifestado. No decorrer da história criam alguns pontos de mudança, mas ou são fracos ou tardios demais.

Ilustração de um marabu
Ilustração de um marabu

Outro ponto que, para mim, não funcionou foram os trechos mais “picantes”. Não sou purista, só acho que as cenas de sexo (ou no caso, os devaneios sexuais de Emmeline) são completamente gratuito e fora de propósito para a história toda. Se o objetivo era mostrar que Emmeline começava a pensar no Coronel Deniau de uma forma mais carnal, bom, haviam meios muito mais sutis e efetivos para isso.

Por fim, no tocante à parte histórica, aí sim o livro é perfeito: tanto na descrição das sociedades francesas e árabes, como na descrição dos seus costumes e na parte histórica do que aconteceu com Robert-Houdin. Aqui o estilo discreto de Brian Moore funciona: a descrição não é maçante e é contextualizada pela história. Ponto a favor aqui.

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IMPRESSÃO COMO MÁGICO

Como mágico foi interessante ler como a mágica pode funcionar como uma fonte de poder sobrenatural. Basta a “interpretação correta”. Também é interessante conhecer (ou ao menos ter um subsídio maior para imaginar) como foi o caso de Robert-Houdin e como ele pode evitar uma guerra. E como isso, sob certa ótica, estava longe de ser um ato louvável.

Também é uma boa ferramenta para que avaliemos a questão da interpretção do mágico. “O mágico é um ator, fazendo o papel de um mágico”, escreveu o real Henri Lambert. Essa é uma afirmação que coube muito bem no livro pois Henri, a personagem, interpreta o tempo todo: inclusive perante sua esposa.

Por fim, o livro mostra a arte mágica sob o prisma daquela que é o primeiro público (e às vezes, a primeira vítima) do mágico: a esposa do mágico. Interessante dar voz a ela e ver como ela vê o mágico e a sua arte, ainda que este não seja o mote do livro.

Recomendo a leitura deste livro, mas com algumas ressalvas.

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FICHA TÉCNICA

Título: A Mulher do Mágico (The Magician’s Wife)

Autor: Brian Moore

Editora: Companhia das Letras

Ano: 2000

Páginas: 232

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