HOUDINI, O MESTRE DOS DISFARCES

” “Eu sou Houdini, e você é uma fraude!”

Harry Houdini

1. INTRODUÇÃO

Muitos conhecem a cruzada que Harry Houdini empregou contra os falsos espíritas que assolavam o início do século XX com suas demonstrações sobrenaturais. O que poucos sabem é que Houdini costumava se disfarçar para poder entrar infiltrado nas séances (sessões espíritas), a fim de desmascarar os charlatões. Senhoras e senhores, Houdini, o mestre dos disfarces.

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2. AS FACES DE HOUDINI

Houdini começou a disfarçar-se para espiar seus rivais escapistas. Em um dos mais famosos casos, Houdini estava em Cardiff no Cardiff Empire Theater assistindo ao show de Frank Hilbert, chamado “The Bubble Burst”. Hilbert estava mostrando como um escapista experiente podia esconder diversos instrumentos em sua roupa quando um senhor de cabelos grisalhos, barba, óculos e bengala levantou-se e começou a gritar à plenos pulmões: “você é uma fraude, você é uma maldita fraude”.

Cartaz anunciando o show de Houdini expondo Frank Hilbert
Cartaz anunciando o show de Houdini expondo Frank Hilbert

Neste momento, duas mulheres sentadas logo atrás do velho senhor se puseram de pé ao lado do velho quando uma delas levantou um par de algemas aos olhos do público e dirigindo-se ao homem no palco gritou: “Esse homem não usa algemas oficiais da Polícia. Ele tem as suas próprias algemas. Mas eu tenho aqui uma algema oficial da polícia e o desafio a abrí-las.”

Enquanto isso o velho senhor continuava gritando até que foi cercado pelo gerente do teatro e dois lanterninhas que o tentavam fazer parar. O velho começou a girar a bengala no ar até que teve que ser contido por um terceiro lanterninha. Quando o grupo levava o o velho para fora do teatro, a barba do senhor caiu e todos reconheceram o velho: era Harry Houdini. As mulheres eram Bess Houdini, esposa de Harry, e sua irmã Gladys.

“Senhoras e senhores, vejam como estão me tratando”, gritou Houdini. “Isto não está certo!”. “Vergonha!” o público gritava em responso. “Deem-lhe uma chance” alguém da plateia sugeriu. Uma chance era algo que o gerente do teatro sequer pensaria. Ele havia sido alertado pelo dono do teatro, sr. Oswald Stoll que Houdini tentaria entrar disfarçado para expor Hilbert.

O disfarce de Houdini era feito por um maquiador profissional e incluia um nariz postiço feito de cera e enganou completamente a gerência do teatro. Quando perceberam que se tratava de Houdini, o ímpeto em retirá-lo do teatro aumentou: esta era a ordem de Stoll.

Houve uma briga fora do teatro e Houdini quase teve a perna quebrada pelo gerente. Mais tarde naquela noite, Houdini apareceu no King’s Theater para sua apresentação, sujo, cabelo desarrumado e mancando. Quando contou o que havia acontecido, recebeu efusivos aplausos e retirou-se do palco. Mais tarde naquele dia, Houdini escreveu no seu diário: “Me disfarcei. Fui expulso do teatro e apanhei na rua. Isso foi bom para os meus negócios.

Houdini disfarçado com "Mr. WHite"
Houdini disfarçado com “Mr. WHite”

Este era um dos disfarces favoritos de Houdini: um velho senhor de óculos e bengala, o qual Houdini batizou como “Mr. White” (curiosamente, a forma anglicizada de seu nome de batismo “Weiss”). Houdini também possuia outros “aliases”, um deles, um senhor de barbas chamado “F. Fraud”. Este nome também era utilizado pela agente de Houdini, Rose Mackenberg, que se difarçava, entre outros, como Reverenda Francis Raud. Também há registros de Houdini se disfarçar como o Sr. Smith.

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3. HOUDINI, O DESMASCARADOR

Mas como Houdini transformou-se em um desmascarador de falsos médiuns? Arthur Moses em seu livro “Houdini speaks out: I’m Houdini and you are a fraud” conta que após a morte de Rabi Weiss, pai de Houdini, em 1892, este fez com que o filho prometesse tomar conta de sua mãe, Cecília. Assim, cumprindo uma promessa que fizera ao pai, Houdini passou a se dedicar a mãe, tornando-se quase um devoto dela, a ponto de chegar a declarar: “Minha mãe significa minha vida. Sua felicidade era sinônimo de minha paz de espírito”.

Houdini ao lado de Bess, sua esposa, de sua mãe, Cecília (1900)
Houdini ao lado de Bess, sua esposa, de sua mãe, Cecília (1900)

Quando ela faleceu em 1913, Houdini ficou arrasado. Pela primiera vez em sua vida pública, Houdini cancelou shows e contratos públicos e dedicou-se ao seu luto. Por várias semanas Houdini era visto no cemitério, ditado sobre o túmulo de sua mãe, apenas para ficar mais perto dela. Cheio de luto e desesperado, Houdini passou a buscar conforto em sessões mediúnicas, com o intuito de tentar contatar a sua mãe. Por muitos anos ele buscou conforto no espiritismo. Ele mantinha a mente aberta, mas parte dele continuava cética.

A mudança em Houdini se deu quando seu amigo, Sir Arthur Conan Doyle, criador do detetive Sherlock Holmes e um ferrenho defensor do espiritualismo, veio aos EUA em 1922 para uma série de palestras e demonstrações sobre o espiritismo. Houdini e Doyle já se trocavam cartas havia dois anos, e portanto um sabia das convicções do outro.

Os Doyle recebem um convite de Houdini para assistirem ao filme “The Man from Beyond” um filme estrelado pelo próprio Houdini. Como cortesia, os Doyle convidam Houdini e sua esposa para assistirem à sua palestra sobre espiritismo que aconteceria em Atlantic City. Durante a palestra, Lady Jean Doyle, esposa de Sir Arthur, recebeu o espírito de Cecília, mãe de Houdini, e psicografou-lhe uma carta de 15 páginas.

Houdini (ao centro) junto à família Doyle (Sir Arthur, à esquerda e Lady Jean à direita).
Encontro de Houdini (ao centro) e da família Doyle (Sir Arthur, à esquerda e Lady Jean à direita). A foto foi tirada em Atlantic City, quando a carta “psicografada” foi escrita.

Houdini não poderia ter ficado mais desapontado. As supostas palavras de sua mãe, psicografadas por Lady Doyle não poderiam ser mais imprecisas. Primeiro, a carta fora escrita inteiramente em inglês, uma língua que a sra. Cecília mal sabia falar, quanto menos escrever. Pior, a carta fora marcada com uma cruz no topo da primeira página. Cecília era uma judia devota e jamais desenharia uma cruz. Por fim a carta foi escrita em 17 de junho, data do aniversário de Cecília. Novamente, nenhuma menção a data, por parte do “espírito”. Assim, alquebrado, mas tentando não insultar o amigo, Harry educamente recusou a aceitar a carta como legítima. Sobre o episódio, Houdini disse que não achava que os Doyle o houvessem enganado propositadamente, mas que eram meras vítimas de sua própria ingenuidade.

Poster anunciando um show onde Houdini desmascara fraudes.
Poster anunciando um show onde Houdini desmascara fraudes.

Foi então que, em sua busca por um clarividente de verdade, Harry passou a frequentar as séances, e a cada nova sessão ficava ainda mais desapontado: por que todos mentiam? Não tardou para que seu desapontamento virasse mágoa e alimentasse um desejo de vingança. Assim Harry começou a sua cruzada desmascarando charlatões. Houdini continuava acreditando ser possível contatar espíritos, apenas cria que pagar uma entrada não era o método correto para tal.

Houdini e Besss mostrando como era feito o truque da escrita fantasma (repare que há alguéme scondido debaixo da mesa)
Houdini e Besss mostrando como era feito o truque da escrita fantasma (repare que há alguéme scondido debaixo da mesa).

Como tinha uma agenda lotada, Houdini frequentemente enviava sua sócia Rose Mockenberg para a cidade na qual se apresentaria dali alguns dias. Rose, se disfarçava como uma viúva desconsolada, uma mãe que perdera o filho ou mesmo uma esposa abandonada e frequentava as sessões. Após a avaliação de Rose, Houdini se disfarçava e ia para a sessão com o intuito de desmascarar os falsos médiuns. O disfarce se fazia necessário, pois Houdini já era um rosto famoso em seu tempo.

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Agente de Houdini, Rose Mackenberg, se disfarçando para auxiliar Houdini.
Agente de Houdini, Rose Mackenberg, se disfarçando para auxiliar Houdini.

Quando o momento da trampa chegava, Houdini de forma triunfante tirava o seu disfarce e gritava: “Eu sou Houdini, e você é uma fraude”, expondo assim o médium. Além disso, não raro Harry convidava policiais ou outras autoridades para que se fizessem presentes à sessão. O resultado é que muitos médiuns e simpatizantes do espiritismo detestavam Houdini.

Houdini praticando uma falsa sessão espírita
Houdini praticando uma falsa sessão espírita.
Houdini mostrando como falsificar uma foto.
Houdini mostrando como falsificar uma foto.

É importante notar que Houdini não era contra o espiritismo ou a religião em si, mas contra os charlatões que se valiam da boa fé das pessoas e lucravam às custas da fé alheia. Fosse hoje talvez Houdini desmascarasse outros charlatões por aí.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Site: Wild About Houdini

Site: The Magic Detective

Site: The Great Harry Houdini

Livro: “Houdini Speaks Out: ‘I Am Houdini! And You are a Fraud!’ ” de Arthur Moses

Livro: “The Secret Life of Houdini: The Making of America’s First Superhero” de William Kalush e Larry Sloman

Livro:The Secrets of Houdini” de J.C. Canell

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