VAUDEVILLE – A INDÚSTRIA DO ENTRETENIMENTO

“Há algo aqui para todo mundo.”

B. F. Keith

1. INTRODUÇÃO

O Vaudeville foi o gênero de espetáculo que praticamente definiu a indústria do entretenimento a partir do século XX. De Holywood à Broadway, e até o Superbowl, todos, de uma forma ou de outra, beberam dessa fonte. Sua importância é tão profunda que não é exagero dizer que o vaudeville está na gênese do “american way of life”. Muitos artistas do cinema, televisão, cantores, mágicos, humoristas e malabaristas começaram a sua carreira no vaudeville. Especificamente, no ramo do ilusionismo, o vaudeville foi símbolo do ápice da era de ouro na mágica.

Senhoras e senhores, com vocês, o maior espetáculo da terra: o vaudeville.

"Como entrar no Vaudeville" (Clique na imagem para ampliá-la)
“Como entrar no Vaudeville” de Frederic La Delle
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2. ANTES DO VAUDEVILLE

Na América pós-guerra civil, existiam diferentes formas de entretenimento. Uma das formas mais comuns era o teatro de variedades, que consistia em uma ariedade de shows em um mesmo local; na mesma noite um espectador assistia uma peça de Shakespeare, uma cantor cômico e acrobatas. Alguns circos excursionavam pela América apelando ainda à outros expedientes como o circo de curiosidades, bizarrices ou horrores, como queira.

Cartaz de show de ministrel (Clique na imagem para ampliá-la)
Cartaz de show de ministrel
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Outra exibição artística era o show dos menestréis que foi considerado por alguns como “a primeira emanação de um pervasivo e puramente da cultura de massa americana”, ao poto de ser chamada de “o coração do show-business do século dezenove”. Além disso, havia ainda os “Shows Médicos” que viajavam pelo país com atrações artísiticas e, de quebra, vendiam tônicos milagrosos e elixires restauradores, e os “Shows do Oeste Selvagem” que trazia uma visão romantizada da conquista do Oeste Selvagem. Mas o nome mais famoso dessa era foi o de Phineas Taylor Barnum.

Cartaz anunciando um show de Oeste Selvagem (Clique na imagem para ampliá-la)
Cartaz anunciando um show de Oeste Selvagem
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P. T. Barnum foi um empresário do ramo de entretenimento que viajava pelos EUA com a sua trupe de variedades “Barnum’s Grand Scientific and Musical Theater”. Em 1841 Phineas comprou o “Scudder’s Museum of America” em Nova York e o transformou no “Barnum’s America Museum” onde expunha várias atrações fajutas – como a sereia de Fiji – e bizarrices, como os irmãos siameses Chang e Eng. Em 1865 o museu é destruído por um incêndio de origem desconhecida. Ele então inaugura um novo museu em outro endereço de Nova York. Este segundo museu também é destruído por um incêndio em 1868. As perdas financeiras foram grandes demais e Barnum se retira do ramo de museus, mas não do ramo artístico.

Phineas Taylor Barnum (Clique na imagem para ampliá-la)
Phineas Taylor Barnum
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Em 1871 Barnum inaugura o seu circo itinerante, o “P. T. Barnum’s Grand Traveling Museum, Menagerie, Caravan & Hippodrome”. Seguindo o conceito de circo itinerante e show de bizarrices, Barnum passa a viajar por todo o país. Estava lançado a base sobre o qual o vaudeville seria construído.

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3. A ORIGEM DO “VAUDEVILLE”

Originalmente, o termo vaudeville referia-se especificamente a uma companhia de entrentenimento de variedades e começou a ser usada em 1871 com a formação do “Sargent’s Great Vaudeville Company” de Louisville, no Kentucky. “Vaudeville” teve muito pouco, se não nada, a ver com o “vaudeville” do teatro francês.

Aliás, a origem do termo traz divergências, mesmo entre os estudiosos do ramo. O empresário M. B. Leavitt sustentava que o termo vaudeville vem do francês “vaux de ville”, que significa “digno da cidade” ou “digno da população da cidade”; por outro lado, Albert McLean defende a tese que o termo foi escolhido apenas “pela sua sonoridade exótica, imprecisão e por trazer consigo um certo cavalheirismo”.

MB Leavitt (Clique na imagem para ampliá-la)
Michael B. Leavitt
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O show de Leavitt e o de Sargent em si variavam muito pouco do que já vinha sendo apresentado pela América (inclusive por PT Barnum), no entanto por usarem a expressão vaudeville, isso lhes trouxe uma áurea de maior respeitabilidade junto ao público. E essa foi a grande sacada do vaudeville.

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4. UM SHOW PARA TODOS

No começo da década de 1880, Tony Pastor, um cantor que trabalhava para Barnum no “Scudders…”, começou a atuar por conta própria no “Robert Butler’s American Music Hall”, um teatro localizado no nº 444 da Broadway. Seus shows fizeram grande sucesso, especialmente com o público masculino, em função de seus números cômicos e de música popular. Foi aí que Tony percebeu que poderia ganhar muito mais se ao invés de focar apenas no público masculino, focasse os espetáculos também para o público feminino e até infantil.

Tony Pastor (Clique na imagem para ampliá-la)
Tony Pastor
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Assim, Tony criou diversos shows de variedades, que iam de operetas, espetáculos humorísticos e curiosidades direcionado a todos os públicos e idades. Em 1874, mudou-se para um teatro maior, ainda na Broadway e finalmente em 1881, mudou-se para o antigo Teatro Germania onde estabeleceu seu show variedades orientado à família. Foi o início formal do vaudeville. O plano de Pastor foi um enorme sucesso, pois atingia em cheio a nova classe média urbana norte-americana.

Embora Tony Pastor seja o fundador “oficial” do vaudeville, o “hours concurs” dessa era foi Benjamin Franklin Keith, considerado por muitos como o verdadeiro “pai” do vaudeville. B. F. Keith começou no ramo do circo itinirante como um golpista na década de 1870 e também trabalhou para PT Barnum. Em 1883 ele mudou-se para Boston onde estabeleceu seu próprio museu. Seu sucesso foi imediato e permitiu que ele construísse o seu próprio teatro. Assim, em 1885 inauguraram o Teatro Bijou. O teatro encantava pela sua magnificiência: instalações modernas e luxuosas e à prova de fogo, O primeiro espetáculo oferecido por BF Keith eram cinco apresentações diárias de Mikado de Gilbert e Sullivan, onde o ingresso era vendido à dez centavos o assento.

BF Keith (Clique na imagem para ampliá-la)
Benjamin Franklin Keith
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Com o Bijou, Keith estabeleceu um novo padrão que moldaria os teatros dali em diante, com a fixação de uma política de limpeza e ordem. Keith gerenciava o seu teatro com mãos-de-ferro, julgando e censurando cada artista e cada apresentação que passava em seu teatro, sempre primando pela decência. Ele proibia veementemente a vulgaridade em seus atos e quaisquer palavras, atos ou gestos que atentessam contra os bons costumes. Sua obsessão pela “pureza de seus shows” foi tanta que Keith chegou ao ponto de pedir que um dignitário da Escola Bíblica Dominical assistisse os ensaios e emitisse a sua opinião sobre os números.

Gravura do Bijou Theater de 1883 (Clique na imagem para ampliá-la)
Gravura do Bijou Theater de 1883
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Mas o grande trunfo de Keith foi sua habilidade em ligar os shows considerados de “alto” e “baixo” entretenimento. Ele reforçou a imagem de que seus teatros ofereciam shows modernos e “legítimos” o que trouxe um novo público ao teatro, mas ainda oferecia amostras dos antigos shows de variedades do pós-guerra Civil o que manteve o público cativo. Essas duas amostras coexistiam pacificamente e cobriam as mais diversas áreas e gostos do público. Sobre essa habilidade, o sócio de Keith, Edward Albee escreveu que nos teatros de Keith, que “há algo aqui para todo mundo”.

Outro grande acerto de Keith foi a sua política de performance contínua que dominou o vaudeville durante quase duas décadas. Durante 12 horas ininterruptas, os atos eram apresentados por duas ou três vezes de forma alternada. Essa continuidade eliminou o que Keith via como “hesitação” por parte do público de entrar no teatro até que ele estivesse “mais cheio”. Essa ideia encaixou-se como uma luva com as condições de vida das novas metrópoles urbanas pois havia espetáculo durante a troca de turno das fábricas, hora no qual havia enorme abundância de pessoas andando pelas ruas.

Muitos, porém, consideravam o vaudeville uma forma menor de entretenimento, destinado às classes mais baixas da população e não-digna de valor, somado a um exagero no luxo dos teatros (também chamados de palácios, dada a sua opulência). Em 1894, na noite de inauguração do Novo Teatro de Keith, em Boston, um jornalista escreveu:

“A era da luxúria parece ter atingido o seu estado-da-arte. Essa verdade nunca ficou tão evidente quanto na visita ao palácio de Keith. É quase incrível que toda essa elegância esteja à disposição do público, tanto de ricos, como de pobres.” 

De fato, a política de controle de conteúdo imposta por Keith, bem como suas regras de “limpeza e ordem”, se aplicavam também ao público, e permitiram que a população menos abastada pudesse ir ao teatro e garantia o seu comportamento. Como garantia, porém, Keith colocava vigias armados nos teatros que, ao verem suas regras serem descumbridas, discretamente entregavam aos infratores pequenos cartões com as regras da casa, como por exemplos:

  • Cavalheiros gentilmente evitarão levar cigarros, charutos acessos dentro do teatro. A Gerência.
  • Damas devem retirar o seus chapéus dentro do teatro. A Gerência.
  • Cavalheiros evitarão fazer barulhos com seus sapatos ou sua bengala enquanto caminham. A Gerência.
  • O aplauso é melhor demonstrado apenas batendo as mãos. A Gerência.
  • Por favor, não converse durante os atos. Isso incomoda os que estão próximos de você e impede uma audição perfeita do espetáculo. A Gerência.

Caso a solicitação do vigia não fosse atendida, o infrator era chamado à atenção pelo vigia-chefe assistente, em seguida pelo vigia-chefe e por fim pelo gerente do teatro que pedia ao infrator que se retirasse. Essa metodologia educou a nova classe média frequentadora dos teatros e mudou os padrões comportamentais da época. Sobre isso, Keith escreveu: “O público precisava ser educado dessa forma”.

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5. OS MAIS FAMOSOS ARTISTAS DO VAUDEVILLE

Eis alguns artistas que participaram, iniciaram ou fizeram fama no Vaudeville:

  • Charles Chaplin;
  • Bob Hope (ator e apresentador);
  • A dupla Abbott & Costello (dupla de humoristas);
  • Os irmãos Marx (Groucho, Harpo e Chico), sendo Groucho Marx o mais conhecido;
  • Will Rogers (ator e apresentador);
  • Mae West (atriz que deu origem ao conceito de garota pin-up);
  • Sammy Davis Sr. (trompetista de jazz);
  • Duke Ellington (considerado o fundador do jazz moderno);
  • Ella Fitzgerald (cantora de jazz);
  • Judy Garland (atriz mirim);
  • Gene Kelly (dançarino, estrelou entre outros filmes: “Cantando na Chuva”);
  • Babe Ruth (o mais famosos jogador de beiseball de todos os tempos);

Já no segmento “mágicos” temos ninguém menos do que:

  • Howard Thurston;
  • Charles Carter;
  • Alexander (the man who knows);
  • Harry Blackstone Sr.;
  • Cardini;
  • Chung Ling Soo;
  • Thomas Nelson Downs;
  • Horace Goldin;
  • Theodore Hardeen (irmão de Houdini);
  • Alexander Herrmann;
  • Harry Houdini;
  • Harry Kellar;
  • Dai Vernon;
Alguns mágicos que fizeram parte do vaudeville (Clique na imagem para ampliá-la)
Alguns mágicos que fizeram parte do vaudeville
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6. O FIM DE UMA ERA

O vaudeville durou até o início da década de 1930. Estudiosos apontam como motivos para o fim do vaudeville o início da era do cinema aliada à invenção da televisão. Com a popularização dessas mídias muitos artistas migraram dos teatros para as telas: Charlie Chaplin, Gene Kelly, Mae West e Bob Hope talvez sejam os nomes mais famosos.

Outro fator que contribuiu para o fim do vaudeville foi a grande quebra de 1929, o que atingiu em cheio a classe média americana, o principal público-alvo do vaudeville. Em 1925 haviam aproximadamente 1500 teatros no circuito vaudeville; em 1930, apenas 300 continuavam abertos. O circuito de teatros RKO que chegou a contar com 700 teatros, restou com apenas 5 oferecendo “apenas vaudeville”. O restante das casa fecharam ou passaram a exibir filmes.

Mesmo o vaudeville chegando ao fim, seu legado permanece: tranformar uma simples apresentação em um show digno de ser assistido é mérito do vaudeville e de todos que de uma forma ou outra contribuíram para o espetáculo. O “primo pobre da Broadway” marcou profundamente a cultura popular ocidental. Seus ecos são ouvidos ainda hoje.

Senhoras e senhores, uma salva de palmas ao vaudeville.

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BIBLIOGRAFIA

Site: Vaudeville, a dazzling display of heterogeneous splendor

Site: Boston Opera House

Site: Broadway 101

Livro: “Vaudeville Old & New. An encyclopedia of Variety Performers in America” – Vol. 1 de Frank Cullen.

Livro: “American Vaudeville as Ritual” – Albert McLean

Livro: “American Vaudeville as Seen by its Contemporaries” – Charles Stein

Este último livro não cheguei a ler, mas recebi fortes recomendações.

Livro:No Applause – Just Throw Money: The Book That Made Vaudeville Famous” de Trav S.D.

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