O TRUQUE QUE AMEDRONTOU HOUDINI

Não tente o truque de pegar a bala. Há sempre o grande risco de algum cão “acertar” você. E nós não podemos suportar perder Houdini. Harry, escute ao seu amigo Kellar, que ama você como seu próprio filho, e não faça!

Trecho de uma carta de Kellar a Houdini

De todos os números de mágica já apresentados, o mais perigoso deles é, sem dúvida nenhuma, o número de pegar a bala. A premissa é simples: uma bala é disparada contra o mágico que apara ela, seja com a mão, seja com a boca. Em algumas versões, a bala é marcada; em outras, ela atravessa um vidros antes de atingir o mágico. Mas em todas as versões, sempre há um risco enorme envolvido.

Esse foi o único número que Houdini não ousou executar (ao menos não publicamente). Até hoje, esse número é assombroso, controverso e muito, muito perigoso. Senhoras e senhores, um artigo sobre o número que amedrontou Houdini: pegar a bala.

E não tentem isso em casa.

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1. O NÚMERO DE MÁGICA MAIS PERIGOSO DE TODOS OS TEMPOS

A primeira menção ao número de pegar a bala, data de 1631 e aparece em um livro intitulado “Threates of God’s Judgement” escrito pelo reverendo Thomas Beard. Segundo o reverendo, um mágico francês chamado Coulen de Lorraine executava esse número; a bala era disparada e Coulen a pagava com a mão. Ainda, segundo o próprio reverendo, Coulen morreu espancado pelo seu assistente – curiosamente – com a própria arma com a qual executava o número.

Trecho do livro “Threates of God’s Judgments” onde é descrito pela primeira vez o número de pegar a bala.
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Em 1785, Philip Astley clamou para si a autoria do número com a publicação de de seu livro: “Natural Magic or Physical Amusement Revealed“. Segundo Philip ele teria invetado o truque em 1762. Porém, em 1761 Thomas Denton mencionam o número de pegar a bala, tal qual descritos pelo reverendo Beard, em seu livro “The Conjuror Unmasked“. Igualmente em 1761 Henri Decremps descreve o mesmo número em seu livro: “La Magie Blanche Dévoilée“. Na verdade o material de Astley era nada além de um plágio do livro de Decremps, incluindo uma ilustração similar na capa, porém abordando os mágicos de um ponto de vista mais positivo.

À esquerda a capa do livro de Decremps; à direita a de Astley(Clique na imagem para ampliá-la)
À esquerda a capa do livro de Decremps; à direita a de Astley
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Em 1840, John Henry Anderson, um mágico escocês apresentou nos principais palcos da Grã-Bretanha, América do Norte e Austrália, onde apresentava o número de pegar a bala. Foram as apresentações Anderson que tiraram o número do anonimato e o trouxeram à tona. Após Anderson, pelo menos outros quatro rivais do mágico escocês passaram a apresentar suas próprias versões do truque.

O efeito continuou sendo largamente executado (não sem fazer algumas vítimas) até que em 1918 houve a mais bem documentada – e porque não trágica – vítima do efeito de pegar a bala, o mágico Chung Ling Soo.  Chung Ling Soo, alter ego de William Ellsworth Robinson, apresentava o efeito de pegar , ora com a mão, ora com a boca, uma bala disparada contra ele. Em março de 1918 Chung se apresentava no Wood Green Empire em Londres, quando, por um erro cometido pelo próprio Chung (ele não havia limpado a arma propriamente o que deixou uma boa quantidade de resíduo de pólvora não queimada na arma), a arma ao invés de apenas estrondar, disparou de fato a arma contra o peito de Chung. Ele ainda foi levado com vida ao hospital, mas faleceu no dia seguinte.

Após a morte de Chung Ling, o efeito perdeu a sua popularidade, apesar de ainda vir a ser executado por alguns mágicos nos anos posteriores. Mesmo com o advento da televisão e a apresentação de vários mágicos, o truque de pegar a bala nunca mais teve o mesmo apelo ao público, apesar de ainda ser um número que causa um forte efeito no público.

Cartaz do show de Chung Ling Soo, anunciando o truque de pegar a bala: "Condemned to Death by the Boxers"
Cartaz do show de Chung Ling Soo, anunciando o truque de pegar a bala: “Condemned to Death by the Boxers

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2. MORTES CAUSADAS PELO TRUQUE

A morte de Chung Ling Soo foi a mais trágica, porém não foi a única.

* Coulen (1500): Apesar de não ter sido morto diretamente pelo truque, foi espancado até a morte com a pistola do seu show, o que lhe concede a “honra” de entrar na lista.

* Kia Khan Khruse (1818): Mágico indiano que teria sido morto por um espectador. Os relatos de sua morte podem ser falsos.

* Madame DeLinsky (1820): Assistente de seu marido, o mágico polonês DeLinsky, foi morta quando, por engano, um dos atiradores carregou verdadeiramente a arma. A rotina consistia em seis atiradores que mordiam a ponta do cartucho para carregá-lo na arma. O truque consistia em morder não a ponta, mas a munição inteira, tornando-a em uma bala de festim. Seja por distração ou por dolo, um dos atiradores acabou tirando apenas a ponta do cartucho, transformando-o em uma munição real.

* Giovanni de Grisy (1826): Giovanni era filho de Torrini, o qual era, supostamente, o mentor de Robert-Houdin. Giovanni teria sido morto pelo próprio, segundo um relato de Robert-Houdin. Essa história também pode ser apenas uma invenção.

* Arnold Buck (1840): Arnold foi morto quando um voluntário da plateia, possivelmente querendo testar os poderes sobrenaturais do mágico, adicionou secretamente à arma alguns pregos. Possivelmente essa morte serviu de inspiração ao filme “O Grande Truque” (The Prestige), onde um dos mágicos é atingido por um espectador que coloca uma bala real na arma.

* Adam Epstein (1869): O truque de Adam Epstein consistia em verdadeiramente carregar a pistola depois, com o auxílio de um bastão pescava a bala, deixando somente a pólvora (outra vez, tal qual explicado em “O Grande Truque”). No dia da morte de Epstein, o bastão pescou a bala, porém ele acabou se quebrando dentro da pistola. ao disparar a arma, lascas de madeira voaram na direção de Epstein, que acabousendo atingido.

* Raoul Curran (1880): Após executar o número de pegar a bala com sucesso, um membro da plateia levantou-se de seu assento e atirou em Raoul sem nenhum aviso, dizendo apenas, em desafio ao mágico: “Pegue essa!”

* deLine Jr (1890): Morto quando seu pai, também mágico, acidentalmente atirou nele no palco.

* Michael Hatal (1899): Morto após não conseguir trocar os cartuchos de reais por cartuchos de festim.

* Otto Blumenfeld (1906): Também não conseguiu trocar as balas.

* Chung Ling Soo (1918): Conforme já mencionado, essa foi, de longe, a mais comovente das mortes causadas pelo número.

* H. T. Sartell (1922): Outro que falhou ao trocar as balas verdadeiras por balas falsas de cera.

* “The Black Wizard of the West” (1922): O Mágico Negro do Oeste foi outro que morre no palco, quando sua esposa e assistente, trocou as balas falsas por balas reais. ao todo, o mágico recebeu cino tiros.

OBS: Segundo o website “Mentalfloss.com” H. T. Sartell e “The Black Wizard of the West” seriam a mesma pessoa. Não encontrei muitas referêncas sobre  nenhum deles, exceto o relato resumido de suas mortes. Se alguém tiver maiores informações, eu publico aqui.

* Ralf Bialla (1975): Bialla executava o número usando todas as proteções possíveis: óculos à prova de balas, luvas grossas com as quais cobria o rosto e um aparador de aço na boca. A bala viajava por três painéis de vidro antes de Bialla pegá-la com os dentes.  or nove vezes, Bialla machucou-se seriamente, mas sobreviveu em todas as vezes, porém, não sem graves sequelas. E foi uma dessas sequeleas que o levaram à morte. Ralph passeava em uma região montanhosa quando sentiu-se muito tonto (sequela dos inúmeros acidentes com a mágica) e acabou caindo de um penhasco. Esta também não ser uma morte causada diretamente pelo número, mas que teve influência direta deste.

* Doc Conrad (1977): Morto ao executar o número “Roleta Russa”, uma varação da mágica de pegar a bala.

* Fernando Tejada (1988): Outro mágico que acabou morrendo no palco em uma apresentação na Colômbia.

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3. E HOUDINI?

Como já foi dito, após a morte de Chung Ling Soo, poucos mágicos ousaram fazer esse número nos anos seguintes. Logo após a morte de Chung, Houdini chegou a cogitar a hipótese de executar o número, mas foi demovido da ideia por seu amigo Harry Kellar que considerava o número extremamente perigoso.  Em carta a Houdini, Kellar escreveu:

Agora, meu caro garoto este é um conselho do meu coração, NÃO TENTE A P—A de pegar a bala… não importa quão certo você esteja do sucesso do número. Há sempre o grande risco de algum cão “acertar” você. E nós não podemos suportar perder Houdini. Você tem um monte de coisas boas para manter a sua posição como o líder em sua profissão. E você deve isso aos seus amigos e a sua família, cortar tudo o que possa representar algum risco para a sua vida. Harry, escute ao seu amigo Kellar, que ama você como seu próprio filho, e não faça!

Houdini ouviu o conselho de Kellar e cancelou a apresentação pública do número. Isso só fez aumentar a fama da mágica (“Tão perigosa que nem mesmo Houdini teve coragem). Porém, existem fortes evidências de que Houdini já havia praticado esse número 25 anos antes.

Jack Hyman, amigo íntimo de Houdini e sócio dele no “The Brothers Houdini” afirmou em entrevista à Genii Magazine de abril de 1937 que em 1893 e 1894 Houdini havia executado o número, chegando até mesmo a mostrar um raio-x da mão esquerda de Houdini, onde uma bala estaria permanentemente alojada, supostamente fruto de um acidente com o número. É porém, possível, que Jack Hyman estivesse apenas fazendo o que ele sabia fazer de melhor: construir a lenda de Houdini.

Chamada da revista Genii de 1937, apresentando a entrevista de Jack Hyman.
Chamada da revista Genii de 1937, apresentando a entrevista de Jack Hyman.
Suposto raio-x da mão de Houdini com a bala alojada, fruto de um acidente com o truque de pegar a bala.(Clique na imagem para ampliá-la)
Suposto raio-x da mão de Houdini com a bala alojada, fruto de um acidente com o truque de pegar a bala.
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Patrick Cullinton escreveu em seu livro “The Tao of Houdini” uma declaração dada pelo próprio Houdini em 1922:

Eu tive uma experiência única, executando o número de pegar a bala. Era costumeiro para mim apresentar o número com uma pistola permitindo que um voluntário carregasse-a com uma bala marcada, e assim eu verdadeiramente nunca tocava na arma.  Havia uma tábua fina sobre uma mesa apoiada na parede traseira do palco. Ao voluntário era dada a opção de atirar na tábua que seria partida em inúmeras lascas ou em mim. No entanto, eu pedia a promessa que, uma vez anunciada a sua decisão ele não poderia, por sua palavra de honra, mudar de ideia. Por uma fração infinitesimal de um segundo havia um silêncio sepulcral, sequer respiravam, após o som do buraco deixado na tábua pelo disparo, o que trazia à tona a seriedade da decisão do voluntário, caso tivesse decidido atirar em mim. O efeito da ilusão mostrada miraculasamente com o aparecimento da bala em meus dentes, após ter atravessado um prato que eu segurava em minhas mãos. Nunca, jamais em todas as  minhas experiências o voluntário falhou em atirar primeiro na tábua.

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4. MÁGICOS MODERNOS QUE PEGARAM A BALA

Carl Skenes e Dorothy Dietrich foram os mágicos modernos que executaram o número de pegar a bala e que merecem ser citados.

Carl Skenes em 1980 executou o número no programa de TV “That’s Incredible!” A fama de Carl permanece até hoje em função desse número. Carl também apresentou o número em outros países (Porto Rico, Venezuela, e Japão), e é constantemente lembrado e citado em programas como “I Love the 80s”, do canal VH1 e na coluna “Ripley’s Believe It or Not”.

Carl Skenes no programa "That's Incredible!"
Carl Skenes no programa “That’s Incredible!”
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Carl Skenes citado por "Ripley's - Belive ir or not"(Clique na imagem para ampliá-la)
Carl Skenes citado por “Ripley’s – Belive it or not”
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Dorothy entrou para a história como a primeira (e até agora única) mulher a pegar a bala com a boca. Ela exigia que um voluntário comprasse as balas e as guardasse consigo até o momento do truque, como prova de que a munição era, de fato, real.

Dorothy Dietrich citada na coluna "Ripley's - Belive ir or not"(Clique na imagem para ampliá-la)
Dorothy Dietrich citada na coluna “Ripley’s – Belive it or not”
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Dorothy Dietrich se preparando para a execução do número.(Clique na imagem para ampliá-la)
Dorothy Dietrich se preparando para a execução do número.
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5. PARA SABER MAIS

O livro de Ben Robinson “Twelve Have Died” de 1986 é o primeiro livro a tratar exclusivamente de um único número de mágica. No livro, Ben discorre sobre a história do truque, suas vítimas, os diferentes métodos… O livro atualmente está fora de impressão, mas não é difícl de encontrá-lo, embora seja relativamente caro.

robinson-twelve-have-died

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BIBLIOGRAFIA

Livro: “Threates of God’s Judgments

Livro: “Natural magic, or, Physical amusements revealed

Livro: “La magie blanche dévoilée

Site: magictricks.com

Site: wikipedia.org/Bullet Catch

Site: wikipedia.org/Chung Ling Soo

Site: themagiccafeforum.com

Site: topsmag.com

Site: mentalfloss.com

Site: wildabouthoudini.com

Site: conjuringarts.org

Site: bulletcatch.com

3 comentários sobre “O TRUQUE QUE AMEDRONTOU HOUDINI

  1. há um filme onde um mágico faz esse numero da bala, entre outros numeros como o do teleporte e etc. nesse filme são dois magicos onde um tenta descobrir como o outro faz o truque, seria otimo se alguém aqui pudesse me dizer o nome do filme (caso saibam), quero assisti-lo novamente com minha namorada.

    Agradeço desde ja

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