MANIFESTO DA ESCOLA MÁGICA DE MADRID

O ano, 1971;  local, Madrid, capital da Espanha. Sete mágicos se reúnem e escrevem um documento que mudaria o mundo da mágica. Em junho daquele ano Juan Antón, Arturo de Ascanio, Ricardo Marré, José Puchol, Juan Tamariz, Ramón Varela e Camilo Vázquez publicariam o Manifesto da Escola Mágica de Madri, um documento que buscava uma nova abordagem da mágica que renovasse a disciplina e que devolvesse à mágica a vitalidade de outrora, quando mágicos como Dai Vernon e Fred Kaps propuseram novos rumos e formas de ver, estudar e praticar a mágica.

Hoje, 40 anos depois da publicação do Manifesto, as coisas mudaram bastante. Muitos dos objetivos traçados pela Escola Mágica de Madri foram alcançados. É impossível saber o tamanho da influência que esses mágicos tiveram sobre o futuro da mágica. O que é certo é que a história da mágica já lhes reservou um lugar de honra.

O Manifesto da Escola Mágica de Madri foi extraído do site  Portal de Magía e traduzido ao português por mim. Tentei manter a tradução o mais fiel possível, mas o estilo de escrita é confuso e, por vezes, prolixo. Alguns termos dúbios, mantive no original e termos mais técnicos possuem link para a sua explicação.

Sem mais delongas, eis o Manifesto.

Escola Mágica de Madri – Manifesto

Os firmados abaixo, reunidos, concordamos (a respeito do tema Magia-Ilusionismo) na busca de fatos, em propormos metas como grupo, em usar certos meios para atingi-los, criando, assim, uma tendência, uma escola que denominamos Escola Mágica de Madrid, sem que isso indique que todos os que a compõe vivamos ou sejamos nascidos em Madri, senão que a organizamos aqui, e que seu núcleo principal aqui se encontra. Sua finalidade primordial será a mágica: sua melhoria, seu estudo, sua profundidade e a abertura de novos caminhos e novas possibilidades para ela; objetivo e fim que sabemos ser ambicioso, mas que em muito ou em pouco trataremos de conseguir. E este mesmo manifesto já é uma prova de nossas ambições e desejos.

I. Os Feitos

1) É claro e evidente que a Magica-Ilusionismo como espetáculo vive um presente pobre, triste e muito pouco apreciado. Praticamente desaparecida a Mágica de Grande Espetáculo de Teatro; em vias de desaparecer a Mágica no Circo; a Mágica de Proximidade sem o reconhecimento devido enquanto espetáculo profissional (por televisão, hotéis, etc.). A magia enfraquece e murcha  no pior quadro, e no menos adequado que se possa imaginar: o cabaré, o salão de festas que obriga a atuação curta de tempo (incapaz de criar o ambiente, a atmosfera mágica necessária), limitada aos palcos de arena ou semi-arena ou perante um público desconcentrado, indisposto a ver mágica (isso quando não totalmente indisposta a vê-la), perdendo-se assim muitas das possibilidades como espetáculo, como um evento sugestivo de mistério e de emoção e, mesmo como arte, poderia ter (sem contar a auto-limitação, representada pela perda da palavra, se alguém tenciona encontrar-se com um público internacional. A Mágica tornou-se muda.

Tão deprimente presente contrasta vivamente com época anteriores nas quais a Mágica (menos extendida como hobby) cumpria sim sua principal finalidade: encantar os espectadores, ilusioná-los, fazê-los, em uma só palavra, sentir (no sentido de sensação, de emoção) o mistério.

2) Estudando e observando o ontem e o hoje vemos com surpresa que, diferentemente de outros ramos do espetáculo, a História da Mágica é, sozinha, a História dos Mágicos. Nunca houve (salvo raras exceções) tendências, escolas, grupos de mágicos que tenham, com um mínimo de coerência, ensaiado uma teoria da Mágica, nem uma metodologia, nem tão somente um estilo ou modo diferente de compreender a mágica.

Assim, comprovamos com certa tristeza que o rumo que Dai Vernon impôs a mágica de close-up não mudou praticamente nada, nem em alguns milímetros, no último meio século. E hoje Dai Vernon continua sendo O Professor indiscutível da teoria mágica, pois nem Slydini com seus estudos sobre o misdirection, nem nenhum outro mágico, quis, pode ou sobe fazer evoluir, aprofundar, nem avançar o conceito vernoniano.

Na mágica de salão e palco encontramos um panorama bastante similar. Nada há depois da revolução (?) de Chaning Pollock (que consistiu mais na criação de uma mágica, a “aparição de pombos”, do que em algo mais profundo), nem a adaptação do estilo vernoniano para este tipo de mágica, realizado principalmente por Fred Kaps (que continua, aos vinte anos de seu lançamento, na vanguarda sem a necessidade de evoluir para manter-se nela). Pouco em trinta anos… muito pouco.

3) E que faltem estudos teóricos e teórico-práticos. Falta investigar as possibilidades da mágica (e sobram novos truques, sempre similares aos velhos truques). falta método. Falta renovação autêntica, em profundidade. Faltam ideias novas na forma, no estilo e nas maneiras. Até quando seguiremos vendo (nós e o público) manipuladores que, com fraques, estáticos, fazem aparecer bolas, cigarros e cartas? Até quando “fantasistas”, que fazem algumas “intrigantes”  mágicas com lenços de seda?

Até quando seguiremos vendo bengalas que se desmancham, pombas que o mágico tira do corpo e bolas “zombie” movidas pelo “fantasista”? Quem se assombra hoje com uma mágica feita assim? Cremos que o máximo que um mágico desses pode alcançar (e falamos dos melhores mágicos) é uma certa admiração intelectual (fria, portanto) pela habilidade de suas mãos, pelos seus efeitos  intrigantes ou talvez pelos seus aparatos e acessórios vistosos…

Mas, qual espectador, o ver a atuação de um mágico, sente a emoção do desconhecido, o sopro do mistério? Quem pensa logo sobre o que viu, fala com admiração profunda o que contemplou? em uma palavra, onde chega a mágica hoje? Cremos que só chega a inteligência (não ao coração) e ainda nesses casos, somente “chega”, não penetra e, portanto, não permanece.

4) Também é evidente a continua degradação do público mágico. Cada vez mais vai se relegando a mágica aos públicos infantis ou pouco formados intelectualmente. O mágico é, em uma palavra, menosprezado (quando não depreciado) como espetáculo pela grande maioria das pessoas adultas.

II. Os Objetivos

A Escola Mágica de Madrid se propõe dois objetivos, que anunciaremos esquematicamente.

1. Por uma mágica melhor

a) Investigações teórico-práticas. Experimentação. Busca de uma nova metodologia. Aprofundamento e estudo da apresentação artística da mágica e dos princípios psicológicos em que se baseia.

b) Inter-relação teórico-prática. Cada estudo, cada ideia teórica será posta a prova na prática.. E cada ideia, cada sutileza, cada invento prático, será integrado à Teoria, dando-lhe exatidão, profundidade, coerência. Toda a Teoría feita Prática. Toda a Prática, destilando Teoria.

c) Busca de um novo público. De um novo público para as exibições práticas de Mágica. Mais conhecedor. Mais interessado. Mais degustador da mágica. E também um novo público que aprecie o valor da Mágica, que lhe dê a importância devida como arte, como espetáculo, como produto da inteligência e, para isto

2. Por uma mágica mais adulta

Estudos e ensaios teóricos, tanto próprios, como de colaboradores (mágicos e não mágicos) da Escola Mágica de Madrid, sobre o tema em relação com seu entorno cultural (relações mágica e teatro, mágica e parapsicologia, mágica e cinema, a psicologia da mágica aplicada a outras zonas de atividade, poesia e mágica…)

III. Meios para Obter os Fins Propostos

a) O Laboratório de Mágica. Trata-se de um laboratório mágico que consta de meios audiovisuais (magnetofone, vídeo, fotografia…); da Biblioteca Mágica com mais de 500 volumes, seleção das melhores obras e revistas da mágica mundial; Arquivo de mágicos e mágicas; e uma Filmoteca de Mágica com 50 filmes com as atuações de alguns dos melhores mágicos do mundo.

b) Comunicações diretas com os mágicos inquietos, estudiosos da Mágica, através de correspondência, intercâmbio de novas ideias, assistência pessoal aos mais importantes Congressos Nacionais e Internacionais de Mágica.

c) Sessões periódicas ante diferentes tipos de público, para a apresentação experimental das mais diversas ideias, estilos de apresentação, etc., próprios da Escola Mágica de Madrid.

d) Publicação dos resultados e estudos levados à cabo pela Escola Mágica de Madrid em revistas espanholas e estrangeiras, assim como palestras e conferências (sobre os ditos temas) em concursos e congressos nacionais e internacionais, para um melhor conhecimento (dos resultados obtidos) por parte da Confraternidade Mágica. Será em todo o caso, veículo especial dessa relação com os demais mágicos, o Concurso Anual de Mágica de Madrid.

e) Criação de um ambiente mágico, ou propício à mágica, entre os profanos, por meio de ciclo de palestras divulgadoras diretas ou através da imprensa, rádio, TV, tratando de conseguir novos adeptos à Mágica ativa, ou pelo menos, trazer novos aficionados para ver, entender, sentir e gostar da mágica. Gostar de uma Mágica Artística e Adulta.

IV. Considerações Finais

O programa ates exposto é, sabemos bem, amplo, complexo e ambicioso. Conseguiremos levá-lo à cabo? Em que medida? Acertaremos?

As respostas são incertas e problemáticas. Mas, é certo, serão tanto mais positivas quanto maior for o apoio moral e material (ideias, colaborações, etc.) que encontraremos em todos os mágicos que lerem este Manifesto (manifesto de desejos, de uma atitude e de atuais realizações).

Merece esse esforço a Mágica? Nossa resposta clara e afirmativa é, sem dúvida alguma, o motor que nos move. E este motor funciona a base da Ilusão e do nosso essencial amor a Mágica.

Madrid, junho de 1971.

Juan Antón, Arturo de Ascanio, Ricardo Marré,

José Puchol, Juan Tamariz, Ramón Varela e Camilo Vázquez.

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