ENIO FINOCHI – BIOGRAFIA

Uma triste notícia para o mundo da mágica. Faleceu ontem, aos 76 anos, o mágico Enio Finochi, reconhecidamente o maior estudioso sobre a história da arte mágica no Brasil. Não tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o Enio, mas das histórias que ouvi dele, sempre elogios; pessoa humilde e que amava sinceramente a mágica. Era um otimista e não hesitava em compartilhar o seu conhecimento com mágicos novos.

Abaixo segue uma entrevista biográfica de Enio Finochi, realizada pelo seu grande amigo o mágico argentino Eduardo Sanchez, o “Nadur” e publicada na revista eletônica espanhola “La Dama InQuieta“. Foi o próprio Nadur quem me enviou esta entrevista, ao meu e-mail, a qual está também disponível para download aqui no site da Associação de Mágicos de Sorocaba e Região (AMSR).

ENIO FINOCHI “LI TANG”

(Entrevista a Eduardo Sanchez “Nadur”, publicada na revista virtual espanhola La Dama InQuieta no.32)

Conheço Enio há anos, não recordo quantos, porém são muitos. Apesar de não termos comunicação freqüente em razão das distâncias que nos separam, aproveitamos as oportunidades que nos oferecem os Congressos ou Eventos Mágicos para pormo-nos em dia e compartilhar muitas idéias.

Trata-se de uma personalidade muito respeitada e reconhecida dentro do mundo mágico do Brasil, da Argentina e de todos os países latino americanos. Li Tang é um estudioso da Arte Mágica e também de sua História, possuindo uma biblioteca e um arquivo histórico sumamente valiosos.

Não é tarefa fácil realizar uma entrevista virtual, ainda mais sendo minha primeira experiência nesta tarefa, porém tratarei de que os companheiros da Dama InQuieta conheçam este grande Mágico e amigo brasileiro.

Nadur

Nadur: Uma pergunta que parece sempre repetida, porém que ajudará a nos situarmos em seu início na Arte Mágica. Como começou tudo?

Li Tang: Nasci na cidade de São Paulo em 3 de fevereiro de 1936, filho de pai italiano e mãe brasileira. Meu interesse pela Arte Mágica surgiu aos 13 anos de idade, ao ler a revista “Vida Juvenil”, que publicava uma página do autor e Mágico amador brasileiro Prof. Khiel, na qual eram ensinados números para principiantes, fáceis de preparar e executar. Foi com base nessa publicação que comecei a construir os números explicados e apresentava-os aos amigos e colegas de escola. Recordo alguns deles: a raquete com o palito, a moeda que “viaja” de um copo a outro, água que se transforma em vinho. Meu interesse aumentou quando em casa de um parente conheci a revista argentina “Hobby”, na qual em uma das seções Aldo Musarra ensinava números de mágica. Isto serviu para ampliar meu pequeno repertório e também me ajudou a iniciar meu aprendizado do idioma espanhol, que hoje domino perfeitamente e me é muitíssimo útil.

Nadur: E como prosseguiu a carreira mágica?

Li Tang: Já totalmente seduzido pela Arte Mágica, comprei aos poucos os três livros antológicos do mestre brasileiro João Peixoto dos Santos “J.Peixoto”: “Curso Prático de Prestidigitação e Ilusionismo”, “Tratado Completo de Prestidigitação e Ilusionismo” e “Trucs de Magia Selecionados”, com mais de 1500 páginas totais.

Quando eu tinha 16 anos de idade, em 1952, chegou a São Paulo para trabalhar nos teatros Odeon e depois Brás Politeama o famoso Mágico “chinês”-panamenho Chang, com uma grande companhia. Maravilhado por aquele fabuloso espetáculo, que assisti muitas vezes, decidi que eu também seria um Mágico “chinês”, e foi assim que nasceu o Mágico “chinês”-brasileiro Li Tang.

Enio Finocchi como Li Tang

Com esse personagem, que há muito tempo deixei de apresentar, atuei em teatros e televisão. Ao mesmo tempo, criei também um personagem cômico, o palhaço Estilingue, com o qual mantive durante alguns anos um programa por semana na série infantil diária “Pim-Pam-Pum”, patrocinado pela Fábrica de Brinquedos Estrela no canal 4, então TV Tupi de São Paulo.

Enio como o Palhaço Estilingue

Nadur: Entendo que você também se dedicou à fabricação e comércio de efeitos mágicos, não foi assim?

Li Tang: Sim, no início dos anos 60 abri no centro da cidade de São Paulo, com um sócio, uma loja de equipamentos para Mágicos, que intitulamos Centro Mágico Nacional. Nessa época também ingressei no então CMP-Clube Mágico Paulista, que depois passou a chamar-se AMSP-Associação dos Mágicos de São Paulo, dos quais fui secretário e depois vice-presidente. Em 1964, sob os auspícios da Associação, organizei e ocupei a presidência do 1º.Concurso Brasileiro de Mágicos.

Nadur: Bem, vejo que você também se ocupou da parte institucional dos clubes mágicos, o que às vezes significa um grande esforço e vocação de ser prestador de serviços.

Li Tang: Isso não é tudo, em 1965 deixei a AMSP e com cinco amigos Mágicos fundamos o CEMA-Centro de Estudos Mágicos, do qual fui conselheiro-diretor até seu encerramento em 1980. Estando no CEMA, me ocupei da organização e da presidência da Comissão Diretiva da Convenção Mágica CEMA 1975, que marcou época no Brasil.

Em 1995, em sociedade com meu Amigo e Mágico brasileiro Caetano Miranda fundamos a Academia Brasileira de Arte Mágica, um centro de documentação e investigação sobre a história e a técnica do Ilusionismo. Nos anos subseqüentes, com a Academia, realizamos inúmeros cursos de iniciação, de formação básica e de especialização, realizamos a Convenção Brasileira de Mágicos’96 e criamos o Mercado Mágico, um encontro mensal de Mágicos, fabricantes, importadores e comerciantes de artigos especializados, atividade essa que depois de 10 anos transferi em 2007 para o ex-aluno, Amigo e Mágico Volkcane, que a mantém até os dias atuais.

Nadur: Conte-nos algo sobre sua relação com Ricardo Massone, Mágico da cidade de Rosário, Argentina (meu conterrâneo), e atualmente no famoso Circo Mágico Thiany.

Li Tang: Ricardo Massone, ou Richard Massone, Mágico argentino, havia acabado de ganhar um concurso em Mar del Plata e eu, sem o conhecer, trouxe-o para participar da Convenção Mágica CEMA 1975. Resulta que ele resolveu ficar vivendo e trabalhando em São Paulo, tornamo-nos amigos e em 1983 abrimos uma produtora de shows e cinema publicitário, a Fly-Produções e Promoções Artísticas. Richard é um artista de excepcional qualidade e um grande produtor de espetáculos, e Thiany o levou para trabalhar em seu fabuloso circo, onde ele continua até hoje com o cargo de diretor geral, excursionando pelo México.

Nadur: Há no Brasil alguma estratégia para preparar os jovens amadores para serem futuros valores da Arte Mágica?

Li Tang: Desde 1992 até 1995, fui contratado pelas Secretarias de Cultura do Estado e da Prefeitura de São Paulo para promover cursos de iniciação à Arte Mágica. Depois da criação da Academia, em 1995, continuei promovendo através dela não só cursos de iniciação como também de especialização em várias áreas de nossa Arte. Com alguns alunos desses cursos, fundamos em 1992 o Grupo de Estudos Mágicos Misdirection uma agremiação informal dedicada ao aperfeiçoamento de seus membros que está ativa até hoje e cresceu agregando alunos de cursos posteriores e também outros Mágicos. Justamente a partir dos cursos citados surgiram muitos dos que hoje formam as novas gerações de Mágicos do Brasil.

Nadur: E seu trabalho como consultor?

Li Tang: Essa é outra parte de minhas atividades que sempre me trouxe grande satisfação. Como uma das tarefas como consultor na produção de atos mágicos trabalhei com Vik & Fabrini na preparação do belíssimo ato que ganhou o 1º.prêmio em Magia Geral no Congresso Mundial de Magia FISM 1988, em Haya, na Holanda, e que depois fez e ainda faz enorme sucesso no mundo todo. A mesma coisa ocorreu com Eduardo Peres, que justamente no dia em que completava 17 anos de idade conquistou o 1º.prêmio em Manipulação no Congresso FLASOMA 1998 em Buenos Aires, Argentina, e aos 19 anos foi o ganhador do 3º.prêmio da mesma categoria no Congresso Mundial de Magia FISM 2000 de Lisboa, Portugal, e também com Volkcane & Cia. no poético e premiado ato do boneco que desperta para fazer mágicas. Outro importante momento para mim foi ter sido indicado para produzir, dirigir e apresentar uma gala brasileira durante o Congresso Latinoamericano de Mágicos FLASOMA 1998 em Buenos Aires, Argentina.

Caricatura feita por Fabrini

Nadur: Comente-nos algo sobre seu trabalho no tema da História da Arte Mágica. Sei que você tem um arquivo muito interessante sobre os Mágicos que passaram não só pelo Brasil mas também pela América Latina desde o século XIX.

Li Tang: Desde muito tempo dedico-me à investigação e estudo da História da Arte Mágica no Brasil e no mundo. Publiquei alguns trabalhos em Genii Magazine dos Estados Unidos (edição especial dedicada à mágica no Brasil, dezembro de 1993, vol.57, no.2) e colaborei freqüentemente com as revistas brasileiras O Tacape Mágico, CEMA-Notícias e Magia em Revista. Na atualidade publico na revista MAGI, além de outros temas, uma série especial sobre a imprensa mágica no Brasil, resenha de mais de 60 publicações entre revistas, jornais e boletins especializados publicados em nosso País desde o primeiro, de 1916.

Nadur: Você escreveu algum livro?

Li Tang: Isso é algo que eu ainda devo a mim mesmo. Traduzi para o português e editei o importante livro “O Humor na Mágica”, do Mágico argentino Merpin. Também co-editei em 2006 com Eduardo Peres seu interessante livro “Pensamento Original em Arte Mágica”. Como próprias, tenho em preparo duas obras: um vocabulário técnico do Ilusionismo e a História da Arte Mágica no Brasil, ambas sem compromisso quanto à publicação.

Nadur: Você também atuou como jurado nas competições dos Congressos da FLASOMA.

Li Tang: É certo, além de atuar como mestre de cerimônias de galas mágicas, trabalhei também como jurado de concursos, não só nos da FLASOMA-Federação Latinoamericana de Sociedades Mágicas como de muitos outros eventos mágicos.

Nadur: Como está a Arte Mágica no Brasil na atualidade e como você a vê para o futuro?

Li Tang: Como fruto de muito esforço e dedicação de algumas pessoas, a Arte Mágica vive hoje no Brasil um momento de grande expansão. A Arte já vinha crescendo após longo período de inércia, e desde nosso Congresso Brasileiro de Mágicos 2004, ao qual compareceram 426 congressistas, entrou em um ciclo de rápido desenvolvimento. Tivemos o Congresso 2006 em São Paulo, logo o EMM-Encontro Mundial de Mágicos em Belo Horizonte em 2007 e, neste ano de 2008, o Magic in Rio, no Rio de Janeiro. Com isto seguramente surgirão novos valores, que logo sairão a trabalhar e disputar prêmios em outros países, a literatura, a indústria e o comércio serão impulsionados e também o público terá sua atenção voltada para nossa Arte. No Brasil, cujo território é muito grande, começam a surgir grupos informais ou associações de Mágicos fora dos centros tradicionais, e com isso a espiral do desenvolvimento vai cada vez se ampliando mais.

Nadur: Algo mais que queira contar-nos?

Li Tang: Ao longo de quase 60 anos de atuação em quase todos os ramos da Arte Mágica no Brasil e na América Latina, alguns alunos, confrades e instituições me brindaram com muitas homenagens, que hoje formam uma importante galeria em meu escritório.

Em 2004, nomeado Sócio de Honra no.1 da AMSR – Associação dos Mágicos de Sorocaba e Região.

Porém a coleção mais preciosa que a Arte Mágica me proporcionou é aquela formada pelos muitos Amigos (com maiúscula) que conquistei e que me conquistaram, e que guardo com muito carinho em meu coração.

Nadur: Enio, quer deixar seu e-mail para o caso de algum colega querer comunicar-se com você?

Li Tang: Certamente, com muito gosto, meu endereço eletrônico é eniofinochi@terra.com.br. Quero agradecer meu Amigo Nadur e à La Dama InQuieta por terem tido interesse em contar minha vida mágica, e até qualquer outra oportunidade.

Descanse em paz, querido mestre. E que os céus lhe recebam com festa e muita mágica. de minha parte só tenho a dizer: MUITO OBRIGADO!

PS: Abaixo duas entrevistas de Enio Finochi e Volckane para o web-programa “Amazing!” em 2010.

Programa AMAZING!  – 17/11/2010




 

Programa AMAZING! 8/12/2010




 

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