A ARTE MÁGICA COMO UMA ATIVIDADE LÚDICA

Um ensaio escrito em 25 de março de 2010

1. INTRODUÇÃO

No Brasil chamamos de mágica. É algo misterioso, milenar, transcendental. Eventualmente usamos as palavras truque ou prestidigitação, mas em geral as evitamos, já que tem uma conotação mais pejorativa, de ludibriar alguém. Os americanos também usam as palavras “magic” e “trick” (que lá possui uma conotação menos pejorativa que aqui no Brasil). Usam o termo “sleight of hands” que frequentemente é traduzido como prestidigitação, mas cujo sentido original se assemelha mais a “habilidade com as mãos”.

No entanto, a mim me agrada como os espanhóis denominaram suas mágicas: “juegos”. Eles também usam palavras como “truco” e “magía”, mas os livros sempre encaram as rotinas como sendo jogos. E por que me agrada esse termo “jogo”?

A primeira impressão que temos é de um desafio. Um confronto entre mágico e espectador. No entanto há outro lado do jogo que nos esquecemos: O lado lúdico dos jogos. E é sobre isso que quero falar: da mágica como atividade lúdica.


2. O QUE É O LÚDICO?

O dicionário define lúdico como algo “divertido”, em outras palavras uma brincadeira. Se pensarmos na mágica como arte-entretenimento vemos que este conceito não é equivocado, afinal, fazemos mágica para entreter o nosso público.

Mas os educadores e pedagogos deram um passo além nessa definição. Segundo eles o lúdico também esta ligado ao aprendizado. Por exemplo, quando uma criança brinca de esconde-esconde, não apenas se diverte, mas aprende conceitos como jogar pelas regras, limites físicos, reflete sobre o mundo que a cerca e o que ela pode utilizar para lograr seu objetivo (no caso, permanecer oculta). Várias são as reflexões e aprendizados em uma atividade primariamente de diversão. E, em última análise, a brincadeira é essencial para o desenvolvimento sadio da criança, em todos os aspectos: físico, social, imaginário, etc.

Na arte não é diferente. Intrinsecamente toda arte é lúdica, ou seja, diverte, faz refletir e ensina conceitos. Ela é uma mola impulsora do desenvolvimento pessoal do ser humano. E, poeticamente falando, nenhuma outra arte é capaz de nos fazer voltar à infância, de modo tão efetivo como a mágica.


3. AS TRÊS FACES DA ARTE LÚDICA


3.1.  A arte (ou “o assombro”)

É o lado do divertido, do entretenimento. No caso da mágica é a aquela gostosa sensação de assombro. É o atrativo primeiro, o gerador de sorrisos.

Essa é uma das facetas mais importantes da arte, pois devemos sempre tentar ver sob a ótica do nosso do nosso público. Nossa arte tem realmente encantando (assombrado) o público? Tem gerado momentos agradáveis aos espectadores? E acima de tudo, nossa arte tem feito sentido ao público, ou é meramente uma torrente de passes mágicos e movimentos ocultos, onde nos divertimos mais do que os espectadores?

Além disso, o lúdico ideal deve ser espontâneo. A mágica deve ser algo espontâneo, natural. Isso permitirá ao espectador viver, sonhar, refletir, brincar, realizar desejos… E nós também através de suas reações. Esse deve ser nosso ideal primeiro quando pensamos em nosso público.  Não confunda, porém espontaneidade com falta de preparo. A questão aqui é que não se pode forçar a arte e muito menos o lúdico. Ela precisa acontecer de modo natural e espontâneo para ser efetiva.


3.2. A reflexão (ou “a filosofia”)

Outra face do lúdico é a reflexão. A razão do lúdico (e da arte) não é um criar dogmas ou conceitos, antes é propor caminhos, reflexões sobre aquilo que nos cerca. Nesse sentido, nossa arte deve obrigatoriamente propor a reflexão, do contrário não passa de mero artesanato, uma obra repetida “ad infinitum”. E esse é o diferencial de uma obra de arte e de um quadro qualquer. Quadros quaisquer não nos incentivam a refletir. Obras de artes sim.

Essa reflexão pode ser proposta, por exemplo, por um roteiro bem elaborado, um movimento secreto bem executado, ou mesmo uma rotina bem concatenada. E essa reflexão é a única forma possível de se gerar uma experiência, uma prática de vida.

Pode parecer um tanto utópico, mas quando refletimos, quando duvidamos e buscamos sair da zona de conforto, abrimos as portas da percepção para o novo. E é esse o papel do lúdico, nos levar a novas experiências através da diversão. Perceba como as coisas se ligam entre si: diversão gera reflexão, que gera aprendizado… é uma roda que não para de girar.


3.3. O aprendizado (ou “daquilo que eu levo pra vida”)

Por mais que o lúdico seja um processo, e não um fim si mesmo, o aprendizado na maior parte das vezes é inerente, ou seja, de alguma forma saímos diferentes daquela experiência de assombro.

É importante notar que o conceito de aprendizado aqui não é de forma alguma relacionado a um conceito de educação formal; antes é um conceito de desenvolvimento pessoal. O aprendizado em geral se dá na esfera do imaginário; soltam-se as amarras da imaginação do espectador que se propõe deixar se levar pela arte lúdica.

Assim, a experiência criada, refletida, e convertida em novos conceitos e paradigmas. Houve mudança.


4. E QUAL A IMPORTÂNCIA DISSO TUDO?

E para que serve esse conhecimento teórico todo? Qual a razão de tanto blá blá blá?  De forma resumida pode-se dizer que é para entendermos “por que fazemos as coisas como fazemos”. Em outras palavras, é saber quando e por que fazer um “double lift” será mais eficiente do que um “glide”, etc. Ou seja, teoria é, em última análise, o princípio da dúvida e da reflexão.

Note que acabamos de incorporar um novo elemento lúdico onde agora eu, o mágico, sou o objeto da arte. Agora sou eu quem reflito e busco criar aprendizado a partir das minhas dúvidas, geradas pela arte mágica.

A partir da teoria é que nos tornamos capazes de incorporar novos elementos às técnicas manuais, e com isso deixamos de fazer “artesanato” (movimentos mecânicos e repetitivos, sem vida e sem unicidade) para fazer “arte” (uma obra única e indivisível) e mais do que isso, uma arte lúdica, que diverte, propõe reflexão e gera mudanças em nossos espectadores e em nós mesmos.


5. CONCLUSÃO

Fazedores de truques existem às pencas por aí. Pessoas muito boas, capazes realmente de nos enganarem, e até de nos deixarem espantados, tamanha a sua habilidade prestidigitativa. Mas são incompletos, enquanto não propuserem uma reflexão, e mais do que isso, são incompletos se essa reflexão não gerar frutos nos outros e neles mesmo.

Podemos sim mudar o mundo (e as pessoas) com nossa arte. E esse deve ser o nosso nobre objetivo. Sermos lúdicos. Divertir e ensinar com nossos jogos.

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