A MAGIA DOS AUTÔMATOS

Escrever um post sobre autômatos é uma tarefa hercúlea, ainda mais para mim, um apaixonado pelo tema. Hercúlea porque primeiro, há muito que pode ser dito. Existem livros e mais livros, registros e mais registros sobre o assunto. A sua beleza, o seu mistério inspiraram muitos a escrever e registrar tais artefatos. Segundo, por que, eu sou um apaixonado por engrenagens e, consequentemente, por autômatos. Assim, fica difícil, quase impossível, para mim, selecionar aquilo que deixarei de fora do post. Quem sabe um dia não escreva um livro só sobre o tema?

Seja como for, este texto é uma pequena introdução ao mundo mágico dos autômatos. Espero que seja tão agradável de ler como foi para mim escrevê-lo.

1. A Origem dos Autômatos

A palavra autômato vem do grego αὐτόματος (automatos) e significa “aquele que se move por si próprio“. Segundo a mitologia grega, Hefestos teria criado os primeiros autômatos que serviam-lhe de ajudante  em suas tarefas. Segundo Homero, Hefestos teria criado os trípodes (ou tripés) que teriam rodas de ouro “o que as permitiam ir sozinhas para as assembleias dos deuses, uma maravilha de se contemplar”, diz Homero.

Apolo e um Trípode

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Em termos históricos, o primeiro autômato que se tem registro foi criado no século I por Heron de Alexandria e era movido por cordas enroladas em um eixo e presa um contrapeso sobre uma base de grãos de trigo no alto de um tubo vertical. O trigo ao escorrer para a base do autômato deslocava o contrapeso, que por sua vez desenrolava a corda que ficava presa no eixo do autômato, movendo assim as rodas.  O segredo estava na forma especial com que a corda ficava presa ao eixo: a depender da forma como esta era enrolada, o autômato se movia para frente, para os lados e até mesmo parava por alguns instantes para depois retomar seu caminho. [1]

É de Heron de Alexandria a autoria do livro: “Perí automatopoietikés”  (Sobre a fabricação de autômatos), onde além da ciência dos autômatos, Heron descreve seus antecessores como Ctesíbio, que viveu dois séculos antes de Heron, também em Alexandria, cidade que, aliás, tinha tradição na confecção de autômatos.

Já no início do século XVI, Leonardo de Vinci teria feito o projeto de um leão mecânico que caminhava e apresentava flores. O diferencial do robô de Leonardo é que ele era programável: em vez de desmontar o bicho inteiro para que ele funcionasse de maneira diferente, bastava modificar a posição de alguns elementos internos, no caso, braços que faziam rodar certas engrenagens, sistema parecido com o de uma caixinha de música.

2. Autômatos e a Mitologia

Nota-se que os gregos antigos eram um povo obcecado pela ideia de serem mecânicos semoventes. Suas lendas são repletas de estátuas móveis e robôs andantes. Além dos já citados trípodes, Hefestos teria criado ainda Talos, um gigante feito de bronze, que guardava Creta contra intrusos. Talos matava suas vítimas através do aquecimento, abraçando-os à morte. É de Hefesto ainda a credencial de haver feito estátuas de ouro puro em formato feminino.

Dracma com a efígie de Talos

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Pigmaleão, rei de Chipre, se apaixonou por uma bela estátua que tinha feito e se casou com ela depois que Afrodite a trouxe a vida; Dédalo, haveria inventado alguns robôs trabalhadores para lhe auxiliarem. Temos ainda Prometeu, que recebeu a fama de ter feito o primeiro homem e a primeira mulher na terra, com barro animado pelo fogo e roubado do céu.

3. O Apogeu dos Autômatos

Foi nos séculos XVIII e XIX que os autômatos viveram o seu apogeu. Nas mãos de cientistas, mágicos e showmans fizeram a alegria e mexeram com a curiosidade e o imaginário de muita gente. A união entre as ciências da relojoaria e anatomia humana, somado ao conhecimento teatral dos mágicos, e à sua aura de mistério, foi o principal responsável por fomentar o conhecimento necessário para este que seria o maior sucesso dos mágicos na virada do século XVIII para o XIX.

Podemos dividir esse apogeu em três fases distintas que se espalham ao longo de 150 anos: o primeiro momento encontra-se na segunda metade do século XVIII onde os relojeiros e cientistas da anatomia humana desenvolveram a base da ciência dos autômatos. Friedrich Von Knauss, barão Von Kempelen, Pierre e Louis Jaquet-Droz são alguns dos expoentes dessa época. Dominados pelo espírito científico, e, mais precisamente, pela concepção biomecânica do ser humano, estes homens construíram numerosas criaturas artificiais que tentaram copiar com exatidão a natureza.  O objetivo não era de entreter, senão fazer progredir a ciência, elaborando diferentes órgãos artificiais com a máxima precisão e funcionalidade possível. Mesmo os autômatos que imitavam animais eram quase perfeitos em seu comportamento.

O segundo momento situa-se na primeira metade do século XIX, período conhecido como “a era dos mágicos-mecânicos”. Gênios como  o relojoeiro Henri Maillardet e mágicos como Stèvenard, Jean Eugène Roubert-Houdin e John Nevil Maskelyne foram os maiores exploradores dessa ciência. Eles criaram máquinas fantásticas, capazes de escrever poemas, desenhar, fazer contas, adivinhar cartas, tocar instrumentos, atirar com arco-e-flecha (inclusive retirando a flecha da aljava e pondo-a no arco)… a imaginação era o limite.

Por fim, na segunda metade do século XIX temos a chamada “era de ouro do autômatos”. Juntamente com a revolução industrial, o autômato torna-se numa indústria. Uma dezena de artesãos, instalados principalmente no bairro do Marais em Paris, realizaram numerosas criaturas com performance mais modestas do que as primogênitas do século XVIII, mas, talvez mais empolgantes, porque foram inspiradas da vida parisiense e do mundo do espetáculo: magia, circo e music-hall. Dente-se os nomes célebres, cita-se: Théroude, Phalibois, Lambert, Renou, Roullet-Decamps, Vichy e Bontemps.

4. Autômatos Famosos e Seus Efeitos

A seguir um pequeno rol com alguns dos mais famoso e interessantes autômatos já construídos.

4.1. O Pato de Vaucanson

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Jacques de Vaucanson produziu alguns dos mais famosos autômatos históricos e é considerado por muitos como o melhor fabricante de autômatos de todos os tempos. Seu trabalho mais famoso chamado “O Pato” de 1739 e consiste em um pato artificial feito de cobre que, além de produzir o som de um pato, bebe, come e digere a comida.

Na verdade o pato era incapaz de digerir a comida. Os grãos entravam pela boca do pato e eram armazenados em um recipiente; em outro recipiente fezes de pato eram armazenadas para depois serem expelidas. Vaucanson, no entanto, buscou incessantemente criar um mecanismo capaz de realizar uma digestão de verdade. A explicação para esta obsessão reside no fato de Vaucanson sofria de sérios problemas digestivos – uma fistula anal para ser mais preciso – o que impedia Vaucanson de ter uma alimentação e digestão normais. assim, seu famoso pato seria uma espécie de terapia, refletindo suas preocupações e anseios pessoais.

Figura mostrando o suposto funcionamento de O Pato de Vaucanson.

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Vaucanson ficou conhecido como “o rival de Prometeus”; nas palavras de Voltaire: “Um rival de Prometeus parece ter roubado o fogo dos deuses em sua busca por construir a vida“. Ele criou diversos outros magníficos autômatos como os tocadores de flauta e de tambor. O tocador de flauta tinha 1,80 de altura e ficava em um pedestal. Uma corrente de ar levava através do mecanismo complexo provocando o movimento de lábios e dedos como se faz naturalmente na flauta. Ele possuía um repertório de doze músicas., incluindo um trecho de “O Rouxinol” de Blavet. [2]

Jacques de Vaucanson
Postal celebrando as obras de Vaucanson

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4.2. Euphonia de Farber

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Se autômatos que tocam instrumentos de sopro são interessantes, o que dizer de um autômato que fala? Em meados de 1830, Joseph Faber lançou o seu famoso autômato “Euphonia”, após 25 anos de estudos  trabalhos. Farber era um estudioso da voz humana e seu autômato era capaz de produzir sons semelhantes à voz humana. Além disso, ele era capaz de recitava as letras do alfabeto e ainda falava em inglês com sotaque alemão. Os mecanismos podiam ser inspecionados e todos os que inspecionavam o mecanismo ficavam convencidos de que o autômato fazia os sons e não um ventríloquo.

O autômato de Farber era uma resposta, e ao mesmo tempo uma melhoria, ao telégrafo. O objetivo de Farber era criar um aparelho de telégrafo capa de falar as mensagens. Ele funcionava com um fole e uma série de 16 teclas de pianos que acionavam placas de metal, câmaras de som e outros aparatos, incluindo uma língua artificial; a caixa preta e uma máscara escondiam as engrenagens. O escrever a mensagem em código morse de um lado, resultava em sua transcrição em voz audível do outro lado. Apesar da brilhante engenharia por trás do aparato, ele provou-se extremamente caro para o propósito ao qul fora construído e por isso acabou sendo relegado  ao ostracismo.

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4.3. A Fantástica Laranjeira de Robert-Houdin

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Jean Eugène Robert-Houdin,  relojeiro-mecânico, prestidigitador, pesquisador da eletricidade e inventor. Ele é considerado como um dos maiores ilusionistas e prestidigitadores de sempre. Quase todos os “grandes truques” da magia atual, provêm dos aperfeiçoamentos das suas descobertas. Além do título de Pai da Mágica Moderna, Robert-Houdin também era uma um grande construtor de autómatas, que apresentava no seu teatro nas “Soirées fantastiques“, no Palais Royal. Seu mais famoso autômato é “A Fantástica Laranjeira”, e consistia em uma árvore dava frutos aos olhos de seus espectadores.

O número consistia em tomar emprestado um lenço  e um anel e fazer ambos desaparecerem. Em uma mesa, havia uma árvore de laranjeira em um vaso. Robert-Houdin então, colocava fogo em uma loção perfumada que estava abaixo do autômato de árvore e enquanto s vapores subiam, a árvore florescia, dava frutos . O mágico pegava algumas laranjas e as oferecia ao público, deixando apenas uma laranja na árvore. Em seguida, com um gesto de sua varinha, a laranja que ficara na árvore se abria, e de seu interior duas borboletas saiam batendo asas, trazendo amarrados em seu corpo o lenço e o anel emprestados. [3]

Abaixo um vídeo mostrando um autômato similar ao de Robert-Houdin.

Image de prévisualisation YouTube

No filme “O Ilusionista”, este automato aparece em uma versão modificada, onde a árvore, além de dar frutos, cresce a partir de uma semente.

4.4. O Autômato de Maillardet

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Henri Maillardet foi um mecânico suíço do século XVIII que trabalhou em Londres produzindo relógios e outros mecanismos. Ele passou um tempo trabalhando nas oficinas de Pierre Jaquet-Droz, que produzia relógios e autômatos. Em 1805, Henri Maillardet construiu um autômato que desenhava figuras e escrevia versos em francês e inglês.

O curioso é que em novembro de 1928 o autômato de Maillardet foi doado pela família Brock para o Franklin Institute; a peça estava bastante danificada e com sinais de que havia passado por um incêndio. Por fim, ninguém sabia quem era o seu construtor. Uma vez reparada, o autômato foi posto para funcionar, e, após fazer alguns desenhos e escrever poemas, a máquina finalizou uma de suas sobras escrevendo: “Ecrit par L’Automate de Maillardet.”, traduzindo, “Escrito pelo autômato de Maillardet. Ou seja, a própria máquina guardava os seu segredo, algo similar ao filme “A Invenção de Hugo Cabret”. Henri fez apenas um outro autômato que poderia escrever (em chinês), e foi feito para o Imperador da China, como um presente do Rei George III da Inglaterra.

Dentre os autômatos escreventes, o Autômato de Maillardet é o com a maior memória já construída. Ele é capaz de fazer quatro desenhos e escrever três poemas (dois em francês e um em Inglês).

Detalhes do Autômato. Engrenagens de tambores de latão.

(Clique na imagem para ampliar)

Abaixo os poemas e os desenhos feitos pelo autômato. Clique nas imagens para ampliá-las.

Poema 1 – Francês:
Un jeune enfant, que le zèle dirige,
De vos faveurs sollicite le prix.
Et s’il l’obtient, n’en soyez point surpris:
Le désir de vous plaire, enfanta ce prodige.”

Tradução:

A criança, cujo zelo dirige
De seu favor pergunta o preço.
E se ele recebe-lo, não seja de todo surpreso:
O desejo de agradá-lo, deu este prodígio.

Poema 2 – Inglês
Unerring is my hand tho small
May I not add with truth
I do my best to please you all
Encourage then my Youth.

Tradução:

Infalível é minha mão muito pequena,
Poderia eu não acrescentar a verdade.
Eu faço o meu melhor para agradar a todos vocês
E incentivar, então, a minha juventude.

 

Poema 3 – Francês:
“Enfant chéri des dames,
Je suis, en tout pays,
Fort bien avec les femmes,
Même avec les maris.”
(Ecrit par LʼAutomate de Maillardet)

Tradução:

Querida senhoras,
Eu sou, em qualquer país,
Bem com as mulheres,
O mesmo com os maridos.
(Escrito por LAutomate de Maillardet)

Existem ainda outros construtores e autômatos famosos. Mas como esse post já está bastante grande, melhor terminar por aqui. Outra hora, quem sabe, faço uma continuação.

Ah, e não deixe de clicar nos links de bibliografia e nas notas multimídias.

Amplexos!

NOTAS MULTIMÍDIA

OBS: Como o WordPress tem um problema em “embendar”  conteúdo no formato flash, abaixo separei alguns links multimídias.

[1] ANIMAÇÃO: O autômato de Heron. Fonte: g1.com

[2] MP3: O Rouxinol, de Blavet. Fonte: madringtones.org

[3] TEXTO: Efeito completo de “A fantástica Laranjeira” (em inglês). Fonte: Hubpages.com

BIBLIOGRAFIA

G1.com – Robô da Grécia era movido à Trigo

Automates-anciens.com

A História dos Autômatos

Wikipedia – Vaucanson Duck

The Pooping Duck

Jessica Riskin – Defecating duck (pdf)

Jacques de Vaucanson

Euphonia Speaking Machine

Automata-anciens – Robert-Houdin

Pierre Mayer – Robert-Houdin Orange Tree

Wikipedia – Henri Maillardet

Science Blogs – O Autômato de Maillardet

The Franklin Institute

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