GOLPES, ESQUEMAS E SUAS VARIAÇÕES

1. INTRODUÇÃO

O ser humano sempre buscou formas de ludibriar seus semelhantes. É da natureza humana levar vantagem sobre seus semelhantes. O ser humano é, por natureza, um ser ganancioso. E levados por essa ganância foi que os golpistas ao longo de anos criaram, aperfeiçoaram e adaptaram métodos para enganar seus pares.  E assim surgiram os golpes.

Desde que surgiram, os golpes pouco mudaram. Adaptaram-se ao tempo, à época, ao local, mas a sua essência continua a mesma: explorar a ganância humana e usá-la contra a vítima.  Joseph “Yellow Kid” Weil (1º de Julho, 1875 – 26 de fevereiro de 1976), um dos mais famosos golpistas de todos os tempos, disse:

O desejo de ganhar algo sem dar nada em troca tem custado caro para a maioria das pessoas que negociaram comigo e com outros golpistas. (…) Mas eu descobri que é assim que a coisa funciona. Uma pessoa média é, em minha opinião, 99% animal e 1% humana. Esses 99% que são a porção animal causam muitos poucos problemas. Mas o 1% que é humano é a causa de todas as nossas mazelas. Quando as pessoas aprenderem – e eu duvido que algum dia irão – que elas não podem ganhar algo do nada, o crime irá diminuir e nós viveremos em grande harmonia.”

Joseph Weil em “Hoaxers & Hustlers”, Streissguth, Thomas. Minneapolis 1994; The Oliver Press, Inc.

Jospeh Weil

(Clique na imagem para ampliar)

2. “THE CON MAN”

Os golpistas, nos EUA, são chamados de “con man” ou “con artist”. A expressão “con man” é a abreviação de “confidence man” que traduzido ao português significa algo como “homem de confiança” ou então “artistas da confiança”. O trabalho destas pessoas é ganhar a confiança da vítima (também chamada de “mark” ou “pato”) e assim atingir seus objetivos.

Todo o trabalho do golpista concentra-se neste único ponto: conquistar a confiança da vítima. Os golpes todos se baseiam nessa premissa básica: a vítima precisa, além de ser gananciosa, confiar no golpista. Alguns golpes chegam ao ponto de pressupor que a vítima irá passar a perna no golpista.

3. GOLPISTAS X MÁGICOS

É fato notório que os mágicos aprenderam algumas de suas técnicas com os “con artists”. Os dois exemplos mais notórios são o “three card monte”, jogo de cartas em que a vítima deve entre três cartas, achar a carta vermelha, e o livro “The Expert at the Card Table”, um livro que ensina as principais técnicas para trapacear em uma mesa de jogo, mas que os mágicos adotaram para as suas rotinas.

Esta relação sempre foi muito conturbada, e por vezes mágicos e golpistas confundem-se. Não raro muitas pessoas referem-se aos jogos dos mágicos como meros truques ou enganação. “Sempre o mágico me engana”, dizem algumas pessoas.

Seja como for, não se pode negar a relação próxima entre mágicos e golpistas. Por isso, este artigo tem como objetivo mostrar os principais golpes existentes na praça e o que nós como mágicos podemos fazer para ajudar (ou trapacear) os leigos no assunto.

4. OS GOLPES

Os golpes se dividem em algumas categorias.

4.1. Sistemas “Fique Rico”

O foco deste tipo de golpe é explorar a ganância da vítima. Normalmente ela pensa que ficará rica de modo fácil, chegando algumas vezes a pensar que está enganando o golpista quando na verdade ela é a vítima. Eis alguns golpes deste tipo:

Salpicando a Mina

Como funciona: o golpe consiste em vender à vítima uma suposta mina com ouro ou pedras preciosas. Para isso o golpista salpica a mina com algumas pepitas de ouro ou pedras preciosas. Ele leva a vítima para a mina, no local salpicado, e mostra que a mina ainda possui minérios para serem explorados. Este golpe foi muito comum durante as corridas do ouro.

Variante moderna: pode-se dizer que o ato de regressar o odômetro de um carro, ou então maquiá-lo antes da venda, seja uma variante moderna desse golpe. A vítima acaba comprando “gato por lebre” pensando que está fazendo um excelente negócio, ou ainda que está enganando o vendedor.

A Máquina de Fazer Dinheiro

Como funciona: o golpista se apresenta como o vendedor de uma fantástica novidade: uma máquina que fabrica dinheiro. Trata-se de uma máquina especial que de tempos em tempos emite uma cédula perfeita de 100 dólares, porém ela só funciona com uma nota a cada duas horas. O golpista alega que precisa de dinheiro urgente e que por isso não pode esperar a máquina fabricar todo o dinheiro que precisa.

Ao comprar a máquina a vítima vê maravilhada que ela, de fato, fabrica dinheiro ainda por duas ou três vezes, antes de cessar completamente e se mostrar um aparelho ordinário (e obviamente o golpista já estar a léguas de distância).

Variante moderna: por incrível que pareça este golpe ainda é aplicado da forma como foi concebida. Mas pode-se dizer que os falsificadores de dinheiro trabalham apoiados nesse esquema. Misturam notas falsas com verdadeiras e assim “diluem” as suspeitas para si.

O Prisioneiro Espanhol

Como funciona: a vítima deve coletar um dinheiro guardado e entrega-lo ao golpista. Como garantia de que a vítima não fuja com o dinheiro é exigido uma garantia financeira da vítima.

Variante moderna: esse é um dos golpes mais aplicados até hoje, devido às suas enormes variações. Na mais famosa delas, o Esquema Nigeriano, a vítima é impelida a usar o dinheiro que deveria ser recolhido na forma de impostos. Nessa variante a promessa é de que a vítima recolha algum dinheiro vindo do exterior (em geral da Nigéria).

Por usar o seu dinheiro que deveria ir para impostos, e por estar envolvido com a evasão de divisas a vítima acaba não podendo ir à polícia, pois estaria confessando crimes de sonegação fiscal.

O Telégrafo

Como funciona: um golpista recebe o resultado de um evento esportivo alguns minutos antes do que a vítima e passa para a vítima o resultado deste evento esportivo (em geral, corrida de cavalos). A vítima munida dessa informação privilegiada aposta na dica recebida ganha o dinheiro facilmente. Após mais algumas apostas a vítima é convencida a colocar todo o seu dinheiro em um determinado resultado que, obviamente, não se concretiza.

Esse golpe possui algumas variantes, mas todas lidam, basicamente em o golpista saber primeiro do que a vítima o resultado de um jogo e assim manipular as informações como melhor convier.

Variante moderna: hoje, com a tecnologia da informação avançada é praticamente impossível aplicar o golpe em sua versão clássica. Porém, muitos eventos esportivos tem resultados combinados, em especial eventos de luta onde empresários combinam com seus atletas quais devem ganhar e quais devem perder. No Brasil e na Itália houveram casos recentes de fraude envolvendo o futebol.

4.2. Sistema Persuasivo

Este tipo de golpe funciona com o golpista, de alguma forma, convencendo a vítima a entregar, espontaneamente o seu dinheiro.

Conspiração Missionária

Como funciona: ministros religiosos que induzem seus fieis a entregar o seu dinheiro, posses e bens para que estes sejam aplicados na propagação daquela religião ou seita.

Variantes modernas: algumas igrejas neopentecostais como a Universal do Reino de Deus e seitas menores como a seita de Jim Jones ficaram famosas por se valer do dinheiro de seus fiéis para atingir outros fins.

O Esquema do Romance

Como funciona: através de um site de relacionamento duas pessoas se conhecem e começam a se relacionar de forma séria. A relação avança até o ponto em que, cansados da distância, o casal decide se encontrar. A vítima então manda dinheiro para que o outro possa comprar passagens, passaporte, o que for. Mas esse encontro nunca acontece.

Guias Espirituais

Como funciona: é uma variante da “Conspiração do missionário”, porém feito com cartomantes, leitores de mão e similares. Através do uso de técnicas de leitura fria o golpista ganha a confiança da vítima e convence-o a semanalmente consultar-se com ele, arrancando vultosas somas de dinheiro da vítima.

4.3. Esquemas “Barras de Ouro”

Estes golpes consistem na venda de um item extremamente valioso para a vítima, mas que ao fim das contas, revela-se um produto comum.

O Violino

Como funciona: o golpista vende um objeto de grande valor à vítima (originalmente um violino Stradivarius). Na hora da entrega o golpista troca as sacolas/maletas e entrega um objeto ordinário.

Variantes modernas: várias, desde joias, carros, casas… É a famosa “propaganda enganosa”. Mas talvez a variante mais conhecida e utilizada no Brasil seja a venda do “Bilhete premiado”.

Gemas Tailandesas

Como funciona: nesse golpe vários golpistas convencem a vítima a comprar pedras preciosas e leva-las para casa. As pedras são legítimas, porém estão superavaliadas (+ de 200%). Na verdade os golpistas combinam entre si valores e indicam-se uns aos outros. A vítima ao comparar diferentes pedras em diferentes lojas convence-se de que aquele é o valor real das pedras.

Este golpe era muito comum em Bancoc, onde, além de tudo, os golpistas eram protegidos pela polícia e por políticos corruptos.

O Jogo de Murphy ou A Van dos Alto Falantes

Como funciona: uma van branca vendendo produtos com valor bem abaixo da média de mercado. A explicação: ponta de estoque, remanufaturados, ou ainda um pedido mal elaborado e que deixou a loja abarrotada de produtos que não podem ser estocados. Na verdade trata-se de mercadoria roubada.

4.4. Extorsão e Falso Testemunho

Chantagem

Como funciona: este tipo de golpe consiste basicamente em colocar a vítima em uma posição comprometedora para si e o golpista utiliza isso contra ela.

“Clip Joint” (não achei uma tradução apropriada)

Como funciona: a vítima é lavada a um bordel, ou mesmo um bar e nenhum de seus pedidos é atendido de acordo, porém a vítima já pagou previamente pelo serviço. Por estar em um local de péssima reputação a vítima acaba não avisando as autoridades.

Variantes: outra variação consiste em fazer com que a vítima consuma grandes quantidades de produtos ou serviços, com a promessa de que aquilo já está pago e depois apresentar-lhe a conta.

Mosca na Sopa

Como funciona: o golpe consiste em sabotar um objeto (originalmente uma comida) ou bem e assim consumi-lo/utilizá-lo de graça.

A Queda do Melão

Como funciona: o golpista leva uma caixa com, por exemplo, vidro já quebrado e esbarra na vítima, derruba o pacote, e acusa a vítima de haver quebrado a sua mercadoria. Por fim, o golpista exige uma reparação de danos materiais para não precisar chamar a polícia.

O nome desse golpe vem do Japão, onde os golpistas utilizam melões para realiza-lo (melões são muitos caros no Japão).

Fraude de Seguro

Como funciona: o vigarista, de alguma forma, faz com a vítima o atinja ou atinja algum patrimônio seu, exigindo assim reparação por danos. Na versão mais comum dois golpistas, um a pé e outro de carro, fazem o golpe: O golpista no carro anda devagar por uma rua até que um carro encoste-se a sua traseira. Então o segundo golpista é “atropelado” pelo primeiro que freia bruscamente fazendo com que o carro da vítima bata na traseira do seu (obviamente a traseira do carro é preparada para maximizar o dano).

O golpista então, com a desculpa de levar a vítima para o hospital, pede que o causador do acidente (vítima do golpe) pague algum valor, pois não quer esperar a polícia para registrar o BO.

4.5. Outros Golpes

Existem ainda muitos outros golpes como os golpes de jogos, uso de falsos distintivos, “o falso ganhador” (a vítima supostamente ganha um prêmio e para retirá-lo precisa pagara um quantia, ou então assinar determinados papéis. Muito utilizado por presos no Brasil via celular) entre outros.

5. “O CONTO DO VIGÁRIO”

Por fim, uma curiosidade. O termo “vigarista” possivelmente vem da palavra “vigário” e está relacionado ao famoso “conto do vigário”.

Segundo a pesquisadora Denise Lotufo, a expressão teria como palco uma disputa entre dois vigários em Ouro Preto, ainda no século XVIII.

Tudo começou com a disputa entre os vigários das paróquias de Pilar e da Conceição pela mesma imagem de Nossa Senhora.

Um dos vigários teria proposto que amarrassem a santa num burro que estava solto na rua. Pelo plano, o animal seria solto entre as duas igrejas. A paróquia que o burro tomasse a direção ficaria com a imagem.

O animal foi para a igreja de Pilar, que acabou ganhando a disputa. Mais tarde teria sido descoberto que, o burro era do vigário dessa igreja. Segundo a pesquisadora, essa é uma das possíveis origens da palavra vigarista.

Já os escritores Fernando Pessoa e Antônio Bagão Félix, contam que alguns bandidos tentavam tomar dinheiro de incautos usando a história de uma herança que teriam ganhado, de um vigário ou por intermédio de uma história escutada por um vigário, mas que para isso teriam que pagar várias taxas e outras quantias. (Pessoa, Fernando; Félix, António Bagão. O Conto do Vigário. [S.l.]: Centro Atlântico, Portugal, 2011. 40 p.).

6. CONCLUSÃO

Quase todas as vítimas deste tipo de esquema, são vítimas de sua própria ganância. O fato de alguém querer levar vantagem sobre o outro é o primeiro passo para ser enganado.

Que nós, como estudiosos da “arte de enganar” possamos utilizá-la apenas para o entretenimento. E mais, que possamos ajudar os incautos a se prevenirem de pessoas gananciosas. Como disse o ator argentino Ricardo Darín sobre seu filme “Nueve Reínas”: “Não faltam otários no mundo, faltam bons empresários”, ou seja, pessoas que serão enganadas não faltam. Apenas que nem todos ainda querem enganar o seu próximo.

Amplexos!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Além dos livros já citados;

http://pt.wikipedia.org/wiki/Conto_do_vigário

http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_confidence_tricks

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