BARALHOS: OS PADRÕES E SUAS ORIGENS – INTRODUÇÃO (Parte 1 de 10)

O baralho como conhecemos hoje é fruto de uma evolução de muitos séculos. Tanto na tecnologia da confecção, bem como na arte das cartas, o baralho tem uma história tão incrível (e por que não, mística) quanto os símbolos que ele representa.

Nesta série de dez posts falarei um pouco sobre os diferentes padrões de baralho ocidental e sua história. Veremos as variações de cada padrão e suas origens e desmembramentos. No último post vou desenhar um infigráfico com todos modelos e datas descritos. Por fim, um post bônus tratando de baralhos não convencionais, como orientais e hindus.

E isso é apenas a ponta do iceberg…

Pra Começo de Conversa

Os baralhos se dividem em quatro grandes grupos, ou padrões internacionais:

Padrão Francês

É a variante mais comum e a que a maior parte das pessoas tem em casa. São 52 cartas de Às a Rei, divididas em duas cores (preto e vermelho) e quatro naipes (coração e ouros da cor vermelha; espadas e paus da cor preta). Este baralho pode ter um ou dois coringas e normalmente é confeccionado de modo que todas as cartas sejam facilmente lidas e reconhecidas em qualquer posição que estejam. Alguns países substituem o Ás pelo 1, e usam letras em seu próprio idioma para representar as figuras (por exemplo, na Alemanha, o Valete é ‘B’, a Dama ‘D’ e o Rei ‘K’).

 

Padrão  Latino

Variante nascida na Itália e popularizada na Espanha e países de língua espanhola. Com um número de cartas que pode variar entre 40, 48 e até 52, sendo a versão com 40 cartas a mais popular (neste caso eliminam-se os oitos e noves). Também é dividido em 4 naipes, porém com desenhos que remetem à nobreza: Moedas, Taças, Bastões e Espadas. Não há divisão de cores nesta versão e as cartas de figuras são desenhadas “em pé”, ou seja, podem ficar de cabeça para baixo, além de serem númeradas e não diferenciadas por letras.  Além disso, a numeração das cartas de figuras começa no 10, e não no 11 como no padrão francês.

É um baralho muito comum no Rio Grande do Sul, onde é utilizado utilizado para jogar o “truco gaudério”.

 

Padrão Alemão

O mais antigo dos padrões de cartas e, infelizmente, muito pouco conhecido fora da Europa. Composto de 32 cartas, compreende valores que vão do 7 ao 10, mais 4 cartas de figuras: o Obermann e o Untermann, espécies de valetes, conhecidos internacionalmente como Over e Under, o Rei, e o Ás ou Deuce, dependendo do padrão. Em qualquer caso, só o 7, 8, 9 e 10 são numerados. É dividido em quatro naipes: sinos, folhas, castanhas e corações. Em nenhuma das versões as figuras possuem letras de identificação (tipo O, U e K), mas o naipe do Under é na parte de baixo da carta para diferenciá-lo do Over.

É um padrão bastante utilizado em países do leste Europeu: República Tcheca, Hungria, Áustria e, evidentemente, Alemanha. Sua grande fama está nas figuras grandes e quase sempre muito belas e bem detalhadas.

 

Padrão Suíço

Surgido no século XVI, o baralho suíço lembra o alemão em vários aspectos, mas é considerado um baralho diferente por um motivo muito simples: seus naipes são únicos, e não estão presentes em nenhum outro baralho que tenha sobrevivido. Utilizado apenas am algumas cidades da Suíça, e para jogar um único jogo, chamado Jass. São 36 cartas. As numeradas vão do 6 ao 9. As demais são o Over, o Under, o Rei, o Sau, representado por duas figuras do naipe, e o Banner, representado por uma bandeira com o naipe.

Dentro desses quatro padrões, existem as muitas variantes regionais, cada uma com suas características próprias. E, além das variantes, existem ainda os baralhos orientais, de tarot e alguns para jogos específicos como “Elfer Raus” e “Uno”. Mas tudo isso, desde as variantes, como as histórias veremos nos posts seguintes.

Um Brevíssimo Histórico das Cartas

Os primeiros baralhos que se tem relato nasceram na China no século 10 a.C., e eram bastante similares a peças de dominós. séculos mais tarde os Árabes acabram conhecendo o baralho e o espalharam pelo mundo ocidental. Essa difusão do baralho foi fruto da relação cultural e comercial entre os países do Mediterrâneo e o mundo árabe, em particular os Mamelucos, oriundos do norte da África.

A palavra latina para “baralho” era “naibi” ou “naibbi” e o equivalente hispânico “naipe”. Ambas as palavras provém do árabe “nai’ib” que significa algo como “delegado” ou “xerife”. “Delegados” eram as duas cartas de figura dos antigos baralhos árabes: o “vice-rei” e o “segundo vice-rei”. Estas cartas não representam nenhuma personalidade humana, uma vez que a tradição islã proíbia tal prática, apenas os cargos reais.

O mais antigo baralho é conhecido como Mulûk wa-Nuwwâb (“Reis e Delegados”), e se encontra no museu Topkapi em Istambul . È composto de quatro naipes, cada um deles composto por sua vez de 14 cartas, 10 cartas de números, mais 4 cartas de figuras), totalizando 56 cartas.

Os naipes do baralho árabe são: Darâhim (moedas),  Tûmân (taças), Suyûf (espadas) e Jawkân (bastões).

 

Baralho mameluco "Mulûk wa-Nuwwâb", no museu Topkapi em Istambul, Turquia.

Com a chegada dos árabes à península ibérica, e não havendo a tradição, as figuras humanas foram adicionadas às cartas. O rei se manteve. Como não havia grão-vizir, optou-se por adicionar os cavaleiros como segunda figura em valor de nobreza. Para a posição do delegado, optou-se pelo “sota” uma espécie de escudeiro que servia ao cavaleiro, que por sua vez servia ao rei, criando assim uma hierárquia nas cartas. A este baralho “na’ib” foi dado o nome de “Cartas Sarracenas”.

Na metade do século XV, as Cartas Sarracenas começaram a se espalhar pela Europa. Na Alemanha, elas acabaram inspirando um outro tipo diferente de baralho, que se tornaria conhecido muitos anos depois como Cartas de Caçada. Ricamente decoradas, as Cartas de Caçada levavam este nome por mostrar, em cada carta, cenas de caçadas empreendidas por membros da nobreza. Cada fabricante criava seus próprios naipes, mas todos sempre ligados à caça esportiva, como cães, raposas, falcões, escudos, armadilhas e outros. Por serem ricamente trabalhadas, as Cartas de Caçada não eram produzidas em larga escala, sendo feitas sob encomenda para pessoas abastadas. Por este motivo, é pouco provável que tenham sido utilizadas para jogar.

 

Cartas de um baralho medieval de caça.

Também na metade do século XV, as Cartas Sarracenas chegaram à Itália. Lá, elas acabaram dando origem a dois estilos de baralho diferente: os fabricantes do sul decidiram imitar o modelo espanhol, com moedas, taças arredondadas, clavas e espadas retas; mas os fabricantes do norte decidiram fazer seus baralhos mais parecidos com as cartas originais árabes, com moedas, taças alongadas, espadas curvas e bastões cerimoniais, o que eles imaginaram ser os bastões de pólo. Em todas as versões, as figuras eram o escudeiro, o Cavaleiro e o Rei, mas os baralhos italianos podiam ter 52, 48, ou, mais usualmente, apenas 40 cartas, indo as numéricas apenas do 1 ao 7.

Paralelamente a isso, as Cartas Sarracenas se popularizaram na Alemanha, já que as Cartas de Caçada não eram acessíveis a todos, nem usadas para jogar. Para seguir a tradição das Cartas de Caçada, os fabricantes alemães decidiram não utilizar os naipes tradicionais, mas sim inventar seus próprios, com motivos ligados à natureza e à vida no campo. Assim, as moedas viraram sinos redondos (guizos), as espadas viraram folhas, os bastões viraram castanhas, e as taças viraram corações. Os alemães mantiveram as três figuras dos baralhos espanhóis e italianos, mas, curiosamente, desmontaram os Cavaleiros: os Reis eram identificáveis por suas coroas nas cabeças e por estarem sentados em tronos, mas tanto os Cavaleiros quanto os escudeiros estavam a pé, devendo ser identificados pela posição do símbolo do naipe – nos Cavaleiros era na parte de cima da carta, nos escudeiros, na parte de baixo.

 

Dispersão e evolução do baralho Sarraceno

No início do século XVI, este curioso baralho chegou à França, e lá acabou sofrendo mais uma mutação: os fabricantes franceses queriam produzir baralhos em larga escala, e os naipes tradicionais, muito trabalhados, não eram fáceis de reproduzir nas placas de madeira ou metal que eram usadas na impressão. Assim, eles decidiram adaptar os naipes alemães, mais simples: folhas viraram pontas de lança, castanhas viraram trevos, os sinos viraram losangos, e os corações foram mantidos. Ao invés de usar muitas cores, os fabricantes optaram por apenas duas: dois naipes em preto e dois em vermelho. As figuras também sofreram uma nova mudança: para evitar a confusão causada por duas figuras masculinas aparentemente idênticas, os franceses decidiram trocar o Cavaleiro pela Rainha. Não há indicações, porém, de que eles tenham feito isso influenciados pelas Cartas de Caçada; o mais provável é que eles simplesmente tenham achado que, já que cada naipe tinha seu Rei, estavam faltando suas Rainhas.

Nos próximos 9 posts nos aprofundaremos mais nessas histórias todas.

Até lá!

Amplexos!

REFERÊNCIAS

Texto e imagens retirada dos sites:

Andy’s Playing Cards: http://a_pollett.tripod.com/cards.htm

Card Games: http://www.pagat.com/

Blog “Átomo”: http://atomo.blogspot.com/search/label/Baralho

2 comentários sobre “BARALHOS: OS PADRÕES E SUAS ORIGENS – INTRODUÇÃO (Parte 1 de 10)

  1. José Luiz Pagliari

    É de se elogiar a difusão de conhecimento sobre os baralhos. Houve, porém, uma confusão entre padrão (francês, latino etc) com sistema de naipes.
    Para maiores informações consulte o site http://www.i-p-c-s.org, que é a referência no assunto.
    Quem realmente se interessar pelo tema, sugiro se associar à International Palying Card Society, site acima citado.
    Saudações,
    José Luiz

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