QUEM FOI ERDNASE? O MAIS PERSISTENTE MISTÉRIO DA CARTOMAGIA

Texto escrito por: Karl Johnson para a American Heritage Magazine – Vol 52 Issue 3.

Traduzido por: Luiz Borges, postado no Fórum Mágico Amador em 06/06/2008 ( http://www.magicoamador.com.br/forum/viewtopic.php?f=18&t=15159 )

Hoje a maioria dos mágicos conhece Dai Vernon apenas através de seus livros e de uma maravilhosa série de vídeos feita em 1982 que o mostra numa “sessão” de mais de 17 horas na mesa de cartas com três estudantes. Quando Steve Freeman, um dos estudantes mais bem sucedidos de Dai Vernon, hesita sobre uma citação de S. W. Erdnase sobre um movimento único chamado S. W. E. Shift, o Professor entra em cena, confiantemente citando a frase praticamente palavra por palavra. Na época, Vernon tinha 88 e citava – de memória – uma passagem que ele leu pela primeira vez quando garoto 80 anos antes no livro “The Expert at the Card Table“.

Embora Vernon tenha solucionado o mistério do center-deal localizando Allen Kennedy, ele nunca determinou a verdadeira identidade do autor de sua bíblia de cartomagia, que expõe em detalhes eloqüentes tantos dos passes fundamentais empregados pelos trapaceiros e mágicos. Ele não estava sozinho. O livro provou ser uma das histórias de maior sucesso das publicações americanas, assim como um dos mais intrigantes mistérios.

Realmente, no século desde que ele publicou pela primeira vez  “The Expert…”, em Chicago em 1902, o autor esquivou-se dos esforços de pesquisadores, escritores, historiadores, ex-detetives, e mágicos em encontrá-lo. “Com a mágica desfrutando de popularidade sem precedentes,” o caçador de Erdnase, David Alexander, escreveu recentemente, “com uma onda de segredos mágicos disponíveis ao público como nunca antes através de convenções, livros, revistas, panfletos, e vídeos, com segredos expostos na Internet e na televisão por malucos mascarados, um segredo permaneceu inviolável: a identidade de S. W. Erdnase.”

E não é como se “The Expert at the Card Table” fosse algum texto perdido empoeirado sobre um vidro num museu. Longe disso. Desde sua aparição pública, “The Expert…” nunca ficou fora de impressão, um recorde surpreendente para qualquer livro, ainda mais para um tratado técnico de prestidigitação com cartas. Há atualmente duas reimpressões padrões à venda, assim como várias edições de baixas tiragens disponíveis através de lojas de mágica – e de jogatina. Em todo tempo que o livro existiu, milhares e milhares de cópias estiveram em circulação, fazendo do “The Expert…” um artigo comum de sebos também. Ele foi traduzido em várias línguas; um site italiano disponibiliza o texto completo (em inglês); e ele inclusive deu origem a duas versões anotadas completas, uma pelo próprio Vernon e outra pelo excelente cartomágico chamado Darwin Ortiz. Erdnase também é citado e referenciado em centenas de outros livros de cartomagia, e os efeitos descritos no livro se tornaram padrões de repertórios modernos. Eu seu brilhante show de cartomagia, “Ricky Jay and His 52 Assistants”, Jay – outro devoto de Vernon – utiliza patter descrito em The Expert at the Card Table.

E ainda assim, que foi seu autor, o misterioso S. W. Erdnase? A teoria mais popular no mundo mágico diz que o nome é um simples anagrama. Na década de 1920, o editor Frederick J. Drake cedeu ao persistente questionamento de ninguém menos que J. C. Sprang, dizendo ao diligente homem das cartas que S. W. Erdnase era de fato E. S. Andrews invertido. Assim como ele havia feito sobre o rumor do center-deal, Sprang passou a dica para Vernon.

Duas décadas depois, parecia que o caminho Andrews tinha realmente levado a solução do mistério. Em 1946, Martin Gardner, um mágico, matemático, escritor, e bom amigo de Vernon, conseguiu localizar o artista de Chicago Marshall D. Smith, que havia feito os desenhos que ilustram as descrições dos passes. Smith se lembrava do autor de uma única reunião 44 anos antes, e pela informação de Smith e outras pistas fornecidas por um antigo jogador-mágico chamado Edgar Pratt, Garner ficou convencido que Erdnase era um trapaceiro de Hartford, Connecticut, chamado Milton Franklin Andrews. O candidato de Gardner tinha morrido em 1905 em San Francisco em um lúgubre assassinato-suícidio justo quando a polícia, que queria questioná-lo sobre um assassinato de uma prostituta no Colorado, estava próxima. Sua morte prematura ajudou a explicar uma dos mais perturbadores quebra-cabeças do mistério de Erdnase: por que o autor nunca se importou em renovar os direitos de sua obra prima.

Agora, com o livro chegando ao seu centenário, a procura por Erdnase se aqueceu de novo, um lote novo de suspeitos proposto por um grupo de caçadores vívido o suficiente para deixar Vernon orgulhoso. Muitos dos que procuram Erdnase sempre ficaram incomodados pelos aparentes furos na teoria “Milton Franklin Andrews” de Gardner. (O próprio Vernon nunca acreditou em Milton Franklin Andrews, mas seu filho Derek Verner disse que isso pode ter sido porque o Professor não quis aceitar a noção de que seu ídolo poderia ter sido tão desprezível.) Os céticos citam discrepâncias na lembrança de Smith da altura (ele se lembrava dele como tendo 1,70 m, enquanto os relatórios da polícia o listam como tendo mais de 1,80 m) e idade de Andrews, junto com distintas diferenças no estilo de escrita do livro e uma carta de 9000 palavras que Milton Franklin Andrews escreveu à polícia. Smith também estava certo de que Erdnase tinha dito a ele que ele era parente de um bem conhecido artista político da virada do século, Louis Dalrymple.

Entra Richard Hatch, um mágico, vendedor de livros, e pesquisador obstinado de Erdnase, que procurou vários suspeitos alternativos. Ele está atualmente focado em um Edwin Summer Andrews, um antigo agente viajante da velha Chicago & Northwestern Railroad, que em seu trabalho teria tido muitas oportunidades de se aplicar ao ofício de trapaceiro. Hatch descobriu que o ferroviário assinou seu nome “E. S. Andrews” em uma licença para casar com Dollie Seely em Illinois. A mãe de Louis Dalrymple era chamada Adelia Seeley (uma escrita diferenciada), ela era do norte de New York, que aparentemente era a terra natal do pai de Dollie, Solomon Seely.

O mais provocativo novo suspeito vem de David Alexander, que vai fundo ao dizer em sua pesquisa com seu parceiro, Richard Kyle, que “nós encontramos Erdnase.” Alexander, que além de mágico, é biógrafo, cortador de silhueta, e ex-detetive particular, fez um perfil investigativo de Erdnase e então desembaralhou o anagrama (e até a página título original) de uma forma diferente. Ele apareceu com Wilbur Edgerton Sanders, um rico e bem educado engenheiro de mineração e autor de um texto de referência em mineração, que era o descendente de uma família politicamente poderosa em Montana. Ele até mesmo encontra significado no S. W. E. Shift, argumentando que isso é na realidade uma dica de Sanders para “shift” [mudar] as iniciais para W. E. S.

Enquanto Alexander ainda precisa revelar se ele conectou Sanders com jogo ou mágica, ele está convencido que ele é quem procura. De sua parte, Gardner com 86 anos desdenha com gargalhadas da teoria de Alexander como “pura bobagem,” enquanto Alexander diz que a fé contínua de Gardner em Milton Franklin Andrews é baseada em “erros fundamentais na pesquisa.”

Independente se a renovada caça finalmente descobriu o autor, ela definitivamente alimentou uma mini onda de Erdnase-mania, e agora o livro teve também um impacto no mundo pontocom. No último verão, quando Garner colocou uma primeira edição de “The Expert…” – assinada por Smith – em leilão no eBay, ela foi para um mágico amador na Califórnia por $10.259. A venda atraiu a atenção do The Wall Street Journal, que colocou a história na sua primeira página, e essa reportagem ajudou a criar uma corrida pelo livro na Amazon.com.

Ainda mais projetos relacionados à Erdnase estão em andamento. O mágico David Ben, que está trabalhando numa compreensiva biografia de Vernon, estará trazendo um livro ainda este ano sobre maneiras de aumentar sua criatividade baseadas na abordagem de Erdnase à sua arte única. Ele tem muito com o que trabalhar. The Expert at the Card Table está cheio de aforismos agradáveis que poderiam sem problemas serem facilmente aplicados a qualquer profissão. “Ser suspeito de uma habilidade é uma golpe mortal para o profissional, “Vaidade excessiva prova a derrocada de muitos especialistas”, e talvez a observação mais celebrada, “O profissional engenhoso não conseguindo melhorar o método altera o momento”.

Vernon certamente assumiu Erdnase como o trabalho supremo de criatividade em sua arte escolhida. “Eu desafio qualquer um,” o Professor disse uma vez a Ricky Jay, “a escrever uma explicação mais clara de como realizar um movimento de baralho do que Erdnase.” Mas e os trapaceiros? Eles também foram fisgados de forma semelhante? Ron Conley, um especialista em poker e prestidigitação com cartas que analisa segurança em um cassino na Califórnia, diz que em 35 anos ao redor do que ele chama “ladrões de cartas”, ele encontrou “muito poucos” deles que já leram Erdnase. Como o center-deal, “The Expert at the Card Table” parece ter exercido uma influência muito maior em mágicos com cartas do que em trapaceiros com cartas.

“Alguns deles ouviram falar dele,” Conley diz sobre o livro. “Mas basicamente eles não o lêem. Eu sinto que eles deveriam tê-lo lido. Eles perderam alguma coisa. Nunca existiu de verdade qualquer coisa feita comparável à Erdnase”.

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