O MÁGICO COM DIABO NOS OMBROS

“MEFISTÓFELES
O que lhe ponho por condição, é que há de permitir-me entretê-lo tão só com as minhas artes.

FAUSTO
Assino, pondo por condição também, que essas tais artes me possam divertir.

MEFISTÓFELES
Dou-lhe a certeza, caro amigo e senhor. Vai regalar-se numa só hora mais que em todo um ano do seu viver monótono. Será tudo real, e não  prestígios de alguma arte oculta enganadora.”

Johann Wolfgang von Goethe – Fausto, quadro IV, cena II (adaptado)

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1. INTRODUÇÃO

A imagem do mágico sagaz, olhando sabiamente para o espectador, com pequenos “imps” (ou diabretes) nos ombros, que lhe sussurram os segredos da mágica nos ouvidos, foi um tema icônico e muito explorado pelos mágicos da era de ouro da mágica.

Mas, longe de serem macabros, ou mesmo diabólicos, esses diabretes tinham uma função mais “lúdica” por assim dizer. Neste artigo, veremos o porquê dessa moda entre os mágicos e o que ele representou para os mágicos da época – e o que representa para os mágicos ainda hoje.

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2. A SIMBOLOGIA DOS DIABRETES

O imp, ou diabrete, é um ser mitológico. Trata-se de um pequeno demônio na acepção clássica: vermelho, rabo com ponta triangular e pequenos chifres. Em algumas representações eles possuem asas de morcego. A sua função não é tanto de depravar a conduta do homem; antes, são vistos como meros ajudantes do diabo ou de bruxas. Os diabretes não querem corromper o homem, antes possuem uma natureza dada ao caos, e à confusão, quase como se fossem crianças hiperativas e cheias de energia.

A lenda do diabrete nasceu no folclore germânico. No começo, os imps eram confundidos com as fadas. Com o passar do tempo, começou-se a diferenciar as fadas como seres bondosos e os imps como seres do mal e, logo, equiparados ao diabo e seus asseclas.

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Gravura medieval, mostrando um séquito de seres infernais (Hieronymus Bosch, 1495)

Algumas lendas dão conta que os imps são seres solitários que apenas desejam se aproximar dos humanos, através de piadas e pegadinhas. Sua natureza caótica, porém, impede que eles tenham um limite para suas brincadeiras. Com o passar do tempo, pessoa que, outrora nutria uma amizade pelos imps, passa se sentir incomodado com sua presença e suas constantes brincadeiras. Como então um ser caótico acabou sendo associado à mágica? A resposta pode ser encontrada quase séculos antes dos primeiros cartazes de mágicos.

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3. “A LENDA DOURADA”

Por volta de 1260 o arcebispo italiano Giacomo da Varazze ( Jacobus de Voragine, em latim) compilou uma série de histórias, que chamou inicialmente de Legenda sanctorum (Leitura dos santos), em que compilou a biografia de diversos santos. O livro tornou-se um best-seller à época, e com o tempo, novas histórias foram sendo acrescentadas ao livro original, que mais tarde passou a se chamar “A Lenda Dourada”.

Um dessas lendas conta a história de São Tiago (St. James em inglês. Guarde esse nome) e seu embate contra o mago Hermógenes. Segundo a história, Os fariseus, com o intuito de desacreditar a pregação de São Tiago, contrataram Hermógenes para que executasse maravilhas contra o apóstolo. Hermógenes envia seu discípulo Philetus, para um primeiro confronto contra o Santo, mas Philetus acaba se convertendo ao cristianismo. Philetus retorna a Hermógenes e conta que o poder de Tiago é muito superior ao poder do mago. Furioso, Hermógenes enfeitiça Philetus e o torna imóvel. Um ajudante de Philetus vai até Tiago e conta-lhe o acontecido. Tiago envia um lenço para Philetus que, ao tocá-lo, liberta-o da maldição do Mago.

Hermógenes então invoca alguns demônios e pede que eles lhe tragam Tiago e Philetus em correntes, para que o Mago possa vingar-se deles e mostrar o seu poder. Mas os demônios também são “convertidos” pelo poder do Santo e acabam levando Hermógenes preso até Tiago. Tiago então, mostrando o poder da caridade, liberta Hermógenes dizendo que ninguém pode se converter contra sua vontade. Tocado pela bondade do Santo, Hermógenes se converte ao cristianismo e em troca entrega seu livro de mágica para que Tiago o queime. Temeroso de que mesmo a fumaça do livro pudesse causar algum mal, Tiago opta por lançar o livro ao mar.

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Desenho de Peter Bruegel e xilogravura de Pieter van der Heyden (1565).                 Hermógenes é o velho sentado com o livro na mão; Philetus, está à direita, de costas. A legenda diz: “O santo, por engano diabólico, é colocado de frente com o mago.

O pintor flamenco Peter Bruegel, o velho, ilustrou a história de São Tiago e o mago Hermógenes. Nas gravuras datadas de 1565, Peter ilustra o mago e  seus ajudantes diabretes. Considerando que o livro foi um sucesso entre a população da época, considerando que Peter foi um dos mais influentes artistas da época e considerando que por muitos anos, magos e bruxas eram vistos como servos do demônio, fica fácil entender a analogia entre magos e os diabretes ajudantes.

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Desenho de Peter Bruegel e xilogravura de Pieter van der Heyden (1565). Repare no mago fazendo um jogo de covilhetes. A inscrição em latim abaixo diz: “O Santo teve de Deus, que o mago fosse despedaçado pelos demônios.

Essa associação da magia com demônios perduraria até, pelo menos, 1584 quando Reginadl Scot lança o famoso livro “The Discoverie of Witchcraft“, em que desmitifica muitos truques de mágica e lança um olhar mais racional ao ilusionismo.

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4. DR. FAUSTO

Ainda à luz da idade média, outra lenda ganharia o imaginário popular. A trágica história do dr. Fausto, um estudioso que queria obter todo o conhecimento do mundo. Como não possuía tempo de vida o bastante – pois já era um velho – acaba fazendo um pacto com Mefistófeles. Fausto então vive por cerca de 24 anos sem envelhecer um dia sequer. Nesse ínterim busca aprender o máximo que consegue. Acaba se apaixonando por uma jovem chamada Margarida e até tenta a redenção ao final da vida, mas acaba morrendo de forma trágica e indo parar no inferno.

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Dr. Fausto assinando com sangue seu pacto com Mefistófeles. Gravura, ano desconhecido.

A história de Fausto também foi um divisor de águas na literatura antiga e ajudou a criar o mito de vender a alma ao diabo, em troca de poderes, conhecimento,riqueza, ou o que mais o coração humano desejasse. O diabo passa a ser visto, não como um inimigo, mas como um aliado astuto, que pode conceder desejos, mas que cobra um preço caro por essa ajuda.

Em 1891, Robert Louis Stevenson (autor de: “O Médico e o Monstro” e “A Ilha do Tesouro”), escreveu um conto entitulado: “The Bottle’s Imp“. Stevenson conta a história conta de Keawe, um nativo havaiano que compra uma estranha garrafa de um rico ancião. O velho lhe convence de que há um demônio dentro da garrafa que pode conceder desejos, podendo tornar Keawe muito rico. Obviamente que nada vem “de graça” e a cada pedido feito por Keawe, algum desastre acontece.

A história é baseada em um conto dos irmãos Grimm, chamado “Spiritus familiaris“, ou seja, o conceito de um espírito familiar, ajudante, que concede desejos e revela segredos, não era algo inédito à época. Além disso, o próprio zeitgeist da virada do século, que evidenciou o movimento espiritualista, fazia com que temas sobrenaturais e misteriosos ganhassem novamente o imaginário popular, em um claro contraponto ao iluminismo acadêmico e o modernismo econômico.

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5. OS IMPS SUSSURRANTES E OS MÁGICOS

Os primeiros cartazes de shows com figuras diabólicas, surgiram nos shows de fantasmagoria. Mais ou menos na mesma época em que a  fantasmagoria vivia seu auge, o ilusionista Jean Eugène Robert-Houdin foi primeiro ilusionista a associar o seu show à imagens de diabretes (ironicamente, ao apresentar-se no teatro St. James, nome do santo que lutou contra os diabretes de Hermógenes).

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Cartaz do show de Robert-Houdin de 1848, com diabretes.

Na América, Robert Heller foi o primeiro a usar imps em seus cartazes. Embora, timidamente nos primeiros cartazes, ele logo passou a explorar a figura sombria em primeiro plano. Segundo Dale Carnegie, Heller, chegou ao ponto de anunciar nos fliers de seu show: “Go to HELLer’s“, como forma de promover seu espetáculo.

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Dois cartazes de Robert Heller mostrando a “evolução” no uso de figuras fantásticas.

Anos mais tarde, Harry Kellar usou os diabretes em primeiro plano em seu pôster de 1894. Para Kellar a associação de sua imagem aos diabretes não foi de todo estranha, afinal ele começara a sua carreira artística em 1869 como assistente do show espiritualista dos irmãos Davenport (que inclusive chegaram a apresentar-se para o Imperador do Brasil Dom Pedro II, mas isso fica para outro artigo).

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Harry Kellar, usando diabretes em sua propaganda (1894)

A ideia de ter diabretes no ombro sussurrando segredos caiu muito bem entre os mágico, e logo outros começaram a copiar a ideia de Kellar. Leon Herrmann, sobrinho de Alexander, foi o primeiro a copiar a ideia de Kellar. Os imitadores acabaram criando um padrão de “informantes”: um grande Mefistófeles ao ombro, ensinando os segredos arcanos, ou dois diabretes, um em cada ombro, sussurrando segredos ao ouvido.

Howard Thurston, Raymond, Henry Blackstone, Charles Carter… muitos acabaram copiando a ideia. Mesmo hoje em dia, alguns ilusionistas como Rick Jay e Derren Brown tomaram emprestada a ideia (não contabilizei aqui “formidável” cartaz de Banacheck, que substituiu os imps por aliens…)

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Alguns dos inúmeros cartazes com figuras dos diabrestes. Destaque para o cartaz de David Blane “Dive of Death” com uma belíssima releitura da imagem dos diabretes. Mais abaixo as “formidáveis” imagens de Banachek que trocou os imps por aliens greys.

A ideia era mostrar que o mágico era mostrar a origem do poder do mágico; alguém tão especial que o próprio diabo lhe contava seus segredos. Por óbvio, o mágico era mais astuto que o próprio diabo e no fim, acabava por lhe enganar e tomar de volta a sua alma. Isso fica evidente em um dos shows de Joseph Carter, chamado justamente de “Carter beats the Devil” (Carter derrota o diabo), que mais tarde acabaria virando um livro.

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Cartaz do show de Carter (1926) e que acabou virando a capa do livro de Glen David Gold (2002)

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5. CONCLUSÃO

Não foi só a mágica que bebeu da fonte “diabólica”. Os músicos de blues dos anos 1920 eram seguidamente associados à pactos demoníacos feitos à meia-noite em encruzilhadas. desertas. O mesmo para rockstars dos anos 60 e 70, artistas de TV e até alguns escritores.

A figura do diabo sempre causou mais curiosidade do que medo, propriamente dito. E foi essa lacuna que os mágicos exploraram. É pouco provável que os mágicos tenham feito acordo, de fato, com algum demônio. Excelentes artistas, e experts em marketing, eles souberam vender seu produto de forma criativa, gerando curiosidade e causando frisson por onde passavam. Bem ou mal, os diabretes acabaram lhes servindo muito bem.

O TRAPACEIRO ARREPENDIDO…

… E COMO ELE ENGANOU A TODOS PARA SALVÁ-LOS

Confie em todo mundo, mas sempre corte as cartas

Finley Peter Dunne

1. O TRAPACEIRO ARREPENDIDO…

Jonathan Harrington Green, foi um norte-americano nascido em 1813 e um jogador de cartas profissional. Ele nasceu em Ohio, mas cresceu navegando e jogando/apostando ao longo do Rio Mississipi. Green era um jogador – e um trapaceiro – excepcional. Conta-se que em uma única noite chegou a ganhar US$ 23.000 (aproximadamente US$ 600.000,00 em valores atuais) jogando e, obviamente, trapaceando.

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Jonathan Harrington Green

Para um jovem na casa dos 20 anos Jonathan levava uma vida perfeita: passava os dias viajando e ganhava muito dinheiro. Ele até podia dar-se ao luxo de gastá-lo como bem entendesse. Por isso, ninguém entendeu quando em uma noite de agosto de 1842, aos 29 anos, Jonathan simplesmente largou a sua vida, arrependeu-se de seus “crimes” e passou a liderar uma cruzada contra os jogos de azar.

Esta súbita epifania deu-se quando certa noite, em um barco a vapor navegando pelo Mississipi. Um reverendo metodista estava no barco e distribuía sobre uma mesa alguns folhetos e materiais religiosos. Os companheiros de Green, ignorando o ministro, “varreram” de cima da mesa todo o material religioso, a fim de jogarem cartas. Isso deixou Green extremamente irritado. Ele imediatamente foi até a mesa, pegou todo o material de jogo e atirou no rio. Em seguida trancou-se em sua cabine pelo resto da noite.

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Apostadores do Mississipi (1890’s).

O que parecia ser um fato isolado, um mero colapso nervoso, mostrou-se um novo estilo de vida para Green. Ele passou a estornar tudo o que havia adquirido ilegalmente às suas vítimas. Ele vendeu propriedades e devolveu dinheiro a qualquer um de seus vizinhos que ele houvesse enganado.

A metanoia de Green, porém, traria junto de si a dura realidade. Sem mais jogar, sem propriedades e sem um emprego, Green viu-se obrigado a achar algum meio para fazer dinheiro. Mas o que restaria a um ex-trapaceiro de trinta e poucos anos, sem experiência em outros empregos e com uma fama que não era das melhores? A resposta era óbvia: Jonathan transformou-se em um pregador itinerante que ensinava a população sobre os riscos e os males dos jogos-de-azar.

A produção literária de Jonathan Green também foi bastante profícua: onze livros em 25 anos. Todos eles sobre os métodos de trapaça nas mesas de jogos, sobre a sua vida antiga, suas experiências, sobre como ele tinha agora uma nova vida (ou, em suas palavras, uma vida “reformada”, e até mesmo sobre como os trapaceiros agiam em conluio para tirar dinheiro dos incautos).

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Ilustração de capa do livro Secret Band of Brothers” de JH Green (1848)

Consta que este foi o primeiro show debunker que se tem registro. Sem saber, Jonathan Green acabava de inaugurar uma nova modalidade de shows. Neles, Jonathan mostrava os meios pelo qual trapaceava e alertava sobre como isso era ruim. Seus espectadores eram quase sempre ouvidos religiosos e conservadores que acenavam condescendentes e triunfantes, afinal agora não era mais um reverendo que pregava sobre as mazelas dos jogos de azar, mas um jogador em pessoa, que conhecia de vivência os meandros desse mundo. A causa deixava de ser uma “cruzada moral” e o debate passava a ser um assunto de ordem pública.

Porém, se os seus ouvidos estavam abertos, suas carteiras nem tanto. Pouca era a ajuda financeira que Jonathan Green recebia por suas palestras. Não raro Jonathan perdia dinheiro ao visitar cidades, usualmente saindo mais pobre do que quando havia chegado. Outro problema eram os inimigos que Green estava criando. Os donos das casas de jogos sempre tiveram grande influência sobre a política local. Alguns Prefeitos, inclusive, eram donos de casas de apostas. Assim, por mais que a comunidade religiosas pressionasse, isso surtia pouco ou nenhum efeito. Algumas cidades até conseguiram aprovar leis anti-jogo, mas elas não duravam mais do que um ou dois anos.

Mas mesmo sua cruzada não sendo frutífera, os inimigos de Green não deixaram barato. Muitos jornais começaram a receber dinheiro dos donos de casas de jogos e de outros negócios correlatos, como os fabricantes de bebida e bordeis, para desmoralizar a causa de Jonathan. Para cada jornal que noticiava a causa de Jonathan, outro imediatamente lhe destratava: questionavam sua real motivação e traziam à tona até mesmo suas dívidas correntes.

Sendo massacrado pelos “ex-companheiros” e recebendo pouco retorno financeiro de sua nova “família”, Jonathan viu-se em uma situação difícil. Uma situação acontecida com ele em 1848 ilustra bem isso: Jonatham foi preso por estar em posse de duas notas falsas de US$ 500,00. Os jornais se apressaram em destruir a sua reputação, e até a data do julgamento já havia sido marcada e amplamente anunciada. O que ninguém sabia é que o Governo Americano estava ciente das notas e mais do que isso – foi o próprio Governo que as forneceu a Jonathan, que agia como um agente federal disfarçado. As notas eram “modelos” que Jonathan deveria procurar por onde passasse, a fim de que o Governo pudesse desbaratinar ações ilegais de lavagem de dinheiro. Obviamente as acusações sobre ele foram retiradas, mas não sem antes ele passar um bom tempo preso e ter sua imagem, mais uma vez, arranhada.

Sem dinheiro, sem um apoio efetivo e maciço da população e sem poder bater de frente com os barões do jogo, a causa de Jonathan tornava-se estéril e infrutífera. Jonathan precisava urgentemente de uma saída. Como bom trapaceiro, ele ainda tinha uma carta na manga: em Jonathan foi a público denunciar que todos (sim, TODOS) os baralhos em uso nos Estados Unidos estavam marcados e que era possível saber a identidade de qualquer carta apenas pelo seu dorso. E Jonathan Green provou a sua tese.

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2. E COMO ELE ENGANOU A TODOS PARA SALVÁ-LOS

Os puritanos ficaram extasiados com a declaração de Green. Suas suspeitas finalmente se confirmaram e eles estavam certos o tempo todo: o jogo era não só um mal moral, mas uma ilegalidade e devia ser extirpado. Uma conspiração entre os trapaceiros e as fábricas de cartas era saborosa demais para ser ignorada.

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Padrões de cartas marcadas, segundo JH Green (1848)

A bomba lançada por Green causou muitos estragos. Especialmente porque Green conseguiu, vez após vez, provar o que ele dizia. A cada apresentação ele trazia alguns baralhos dos mais diversos fabricantes e mostrava ser capaz de ler cada carta pelo seu dorso. As marcas que ele mostrava eram engenhosas e Green explicou detalhadamente cada uma delas. Algumas eram tão evidentes que Jonathan as lia a uma distância de 3 ou 4 metros.

Mas a situação ficou ainda melhor. Pessoas leigas começaram a trazer seus próprios baralhos para que Green os lesse. E a cada novo desafio, Green comprovava a sua teoria. O jornal “Boston Mail” de 15 de setembro de 1844 escreveu que após uma apresentação em Marlborough Chapel um grupo de cavalheiros aproximou-se de Jonatham e lhe desafiou a ler o dorso de algumas cartas. O grupo embaralhou as cartas e separou algumas. Jonathan não só leu as 18 cartas selecionadas pelo grupo, como leu as 34 cartas restantes. A cada nova apresentação, a cada novo desafio aceito, a acusação de uma conspiração nacional se mostrava mais e mais verdadeira.

Os jornais – que outrora perseguiam Green, começaram a dar o braço a torcer. Muitos editoriais começaram a admitir que diante de tais evidências, apenas um tolo arriscaria seu dinheiro nas mesas de jogos.

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“Purity Crusade” (Cruzada Puritana), organização cívico-religiosa contra os vícios da bebidas, jogos e prostituição (1874). Elas oravam e cantavam hinos em frente aos bares e casas de má-fama, ao ponto de muitas vezes serem presas pelas autoridades policiais.

Agora façamos uma pequena pausa aqui, caro leitor, e pensemos de modo racional e prático: o que é o mais provável? Uma gigantesca conspiração nacional dos fabricantes de baralho, das centenas de casas de jogos, e dos milhares de carteadores para roubar um país inteiro, ou um ex-trapaceiro voltando a trapacear? Não é preciso raciocinar muito para descobrir a resposta. Embora a intenção de Jonathan fosse a melhor possível, o meio utilizado por ele para tornar verdadeira a sua acusação é bastante questionável.

A proposição de Green tinha ainda uma falha grave. Se todos os baralhos fabricados fossem, de fato marcados, porque os trapaceiros gastariam pequenas fortunas comprando baralhos declaradamente marcados nas lojas de material para jogos?

Mas então como Jonathan Green fez para ler a face das diversas cartas? O fato é que jamais saberemos com certeza, mas o mágico e pesquisador David Britland em seu livro “Phantoms of the Card Table” tem uma teoria bastante interessante à respeito. As lojas e catálogos de material para jogos vendiam um aparato chamado “shiner” ou brilhante. Ele era basicamente um espelho convexo disfarçado que ficava em cima da mesa e, ao se apontar a carta para o brilhante, era possivel ler o seu valor através do seu reflexo. O “brilhante” podia ser uma bacia para comida, um cachimbo, enfim, qualquer coisa insuspeita que pudesse ficar em cima da mesa de jogo, anexada na borda da mesa ou em alguns casos, atrás do jogador alvo.

O curioso é que, apesar de ser um objeto bastante comum, Jonathan Green jamais o mencionou em suas apresentações. Green poderia facilmente, em suas apresentações, ter secretamente anexado um brilhante na borda da mesa e, enquanto entregava as cartas, lia o seu valor. O resto era mise-en-scene.

James McMannus em seu livro “Cowboys Full: The History of Poker” constata que, ironicamente, a cruzada de Jonathan Green contra os jogos de azar, acabou por aguçar a curiosidade das pessoas comuns e ajudou à popularização do pôquer.

Jonathan passou o resto de sua vida caçando trapaceiros e casas de jogos. Segundo suas pesquisas, apenas em Nova York, nos anos 1850, haviam 6.000 casas de jogos sendo 200 delas estabelecimentos de alta classe. Ele ainda lutaria na Guerra Civil Americana como capitão pelo lado da União (Norte). Ali, ao lado de políticos conservadores, Green chegou a criar um estudo para banir os jogos de azar do território americano. Porém quanto mais lutava contra, mais claro ficava que não se deveria jogar o bebê fora com a água do banho. O jogo deveria sim ser regulado, mas não proibido, afinal que mal haveria uma mesa de pôquer entre amigos? Além disso a população americana, aprendeu a gostar de jogar pôquer. E talvez, essa tenha sido, no fim das contas, a maior contribuição de Jonathan Green para o mundo.

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Símbolo da sociedade Nova Iorquina da Supressão do Vício (1873)

Jonathan ainda trabalharia para o Serviço Secreto, além de ter trabalhado como inventor, chegando a registrar em torno de 25 patentes em seu nome, mas estas não lhe renderam muito dinheiro. No fim de sua vida, teve que pedir ajuda aos amigos para poder pagar pelo funeral da esposa.

MAGIA NATURAL: A CIÊNCIA NOS PALCOS

ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM:
“A GUILHOTINA” Nº 01 E Nº 02 – AGOSTO E SETEMBRO DE 2015

Toda tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia
Sir Arthur Clarke

1. INTRODUÇÃO

Física vem do latim: physica e era a palavra usada para designar toda a sorte de ciências naturais, bem como o conhecimento obtido pela observação da natureza.    As primeiras formas de magia surgidas na antiguidade valiam-se de efeitos “físicos”. Especialmente em ritos religiosos efeitos com reações químicas ou envolvendo fogo, encantamento de animais e transes hipnóticos eram usados como sinais de taumaturgia.

Com a evolução do conhecimento humano a ciência e a religião separaram-se, criando assim uma clara distinção entre elas. Porém, esse limite muitas vezes foi ultrapassado e até apagado: reações químicas recém-descobertas, efeitos ópticos e eletromagnéticos…, cada nova descoberta científica em algum momento já foi utilizada como ferramenta de ilusão e de entretenimento.

Os mágicos sempre transitaram bem entre esses dois mundos: ora levando assombro ao mais céticos; ora usando a ciência – pura e simples – para iludir.

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2. MAGIA NATURAL

A partir do século 16, até meados do século 18 o ocidente viveu uma transição do misticismo para o cientificismo. Foi a chamada revolução científica, período em que o dedução hipotética dos fatos deu lugar a observação, experimentação e repetição. Foi nessa época que grandes descobertas científicas foram feitas por homens brilhantes como Galileu e Newton.

Em 1558 o italiano Giovanni Batistta dela Porta escreveu o livro “Magia naturalis libri vingiti” um compêndio do estado da arte das ciências à época. O livro abordava vários assuntos dentre os quais: astronomia, geologia, óptica, imãs além de tópicos relacionados à curiosidades como a fabricação de pólvora e a escrita invisível. Embora não fosse especificamente um livro de “truques” ele serviu para lançar a base do que viria a ser chamado de “magia natural” ou “filosofia natural”, ou seja, o uso da ciência e dos princípios científicos (ainda desconhecidos da grande maioria da população) como efeitos de ilusionismo. Em outras palavras, “a magia natural” era a ciência. Num primeiro momento os efeitos matemáticos foram a principal peça da magia natural.

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Giovanni Battista della Porta (gravura de 1668).

Um dos primeiros livros de magia natural foi escrito em 1694 por Jacques Ozanam chamado: “Récréations mathématiques et physiques” (o qual recebu o título em inglês de “Recreações em matemática e filosofia natural”). Em 1769 Gille-Edme Guyot, outro “filósofo natural” escreveu “Nouvelles Récréations mathématiques et physiques“, uma impressionante obra dividida em quatro volumes.

Mas talvez o maior nome da “magia natural” seja o de Giovanni Giuseppe Pinetti, artista italiano nascido em 1750 e que autodenominava “O professor de mágica natural”. Pinetti foi artista na corte do Rei Luís XVI e em 1784 escreveu o livro: “Physical Amusements and Diverting Experiments” onde utilizava-se de conhecimentos básicos de matemática, química, física e até biologia. Seus números fizeram tanto sucesso que ele foi plagiado por outros “professores” como Henry Decremps que plagiou o próprio livro de Pinetti, incluindo a gravura da capa (mais sobre essa história neste post).

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3. “FANTASMAS” NOS PALCOS

Contudo, o auge do uso da ciência como ferramenta à mágica deu-se no século 19, principalmente em Paris. Um dos primeiros nomes de destaque nesta seara foi o de Etienne-Gaspard Robert, um ilusionista de origem belga que atuou em Paris por volta de 1800. Robertson (seu nome artístico), que havia sido professor catedrático de física e especialista em óptica, se autodenominava “o físico”, muito embora seu show beirasse o sobrenatural. Todas as noites ele apresentava o seu show de fantasmagoria, um show tétrico de aparições de fantasmas. O terror era tamanho que não raro, alguns espectadores desmaiavam de medo.

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Etienne-Gaspar Robertson (gravura).

François Poultier-Demottte, um repórter local, publicou no jornal “L’Ami de Lois” em 28 de março de 1798 uma matéria sobre o show de Robertson, na qual o repórter conta que Robertson colocava em um braseiro aceso dois vasos cheios de sangue, algumas substâncias químicas e algumas folhas de jornal fazendo aparecer entre a fumaça produzida um horrível fantasma coberto por uma capa vermelha; logo, tão misteriosamente quanto aparecia, o fantasma desaparecia. Impressionado, um jovem da plateia levantou-se e solicitou ver o fantasma de sua amada esposa recém-falecida; o jovem então mostrou um retrato dela para Robertson. O físico repetiu outra vez o ritual no braseiro e eis que surgiu o busto de uma jovem, com seus cabelos flutuando no ar e sorrindo para o seu amado.

Na década de 1840 Jean Eugène Robert-Houdin apresentou os seus shows de física recreativa nos quais o público também podia assistir levitações, fantasmas, autômatos, experimentos físicos e maravilhas químicas. Em 1860 foi a vez de Henri Robin lotar o seu teatro na Boulevard du Temple com seus fantasmas. Novamente, através de intrincados jogos de espelhos e ilusões de óptica, fantasmas sobrevoavam a plateia dos teatros e interagiam com o público. Somavam-se a este espetáculo, demonstrações de mecânica e eletricidade na forma de “divertimentos”. Henri Robin também se denominava “o físico” e entretia a sua plateia com um show que ele chamava de “teatro científico”.

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Fotomontagem de Henri Robin atacado por um fantasma (1863)

As apresentações de magia natural despertavam grande interesse em parte, ao zeitgeist: para a população média da época não havia uma distinção clara entre o que era mágica e do que era ciência. E muitos artistas do século 19 souberam usar a ambiguidade desses limites a seu favor. Charles De Vere, por exemplo, foi um bem sucedido dealer londrino e fabricante de aparatos. Em sua loja podiam-se encontrar lanternas mágicas, mesas elétricas e mecânicas, bonecos e vários outros aparatos de física recreativa e de invocação de espíritos. Ou seja, mágicos, cientistas e médiuns, todos frequentavam e compravam seus itens na mesma loja.

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Cartaz anunciando o show científico de Robert-Houdin: “Física-Magia-Prestidigitação”.

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4. CIÊNCIA E ILUSIONISMO

O sucesso dessas apresentações com efeitos especiais foi tamanho que em 1873, George Moynet escreveu que o público de teatro da época demandava, além de uma boa peça com bons atores, um set de ilusões que o impressionasse. Para tanto eram usadas técnicas de carpintaria, mecânica, eletricidade, química e principalmente espelhos. Era o nascimento da indústria dos efeitos especiais.

Outra moda que viria a confirmar o interesse por espíritos deu-se na arte da fotografia. Henry Evans foi um mágico que escreveu um livro chamado “Hours with the ghosts” de 1891, no qual investiga alguns fenômenos espiritualistas e teosóficos. No livro Henry apresenta algumas fotos com fantasmas, tal qual Henri Robin 25 anos antes. Em 1897 Albert Hopkins publicou um livro no qual desmascarou todos os efeitos “espirituais” realizados nos teatros. Dividido em cinco partes, Hopkins escreve desde como a ciência vinha sendo usada nos palcos, até o uso de autômatos e um capítulo especial sobre como manipular fotografias para fotografar espíritos. Curiosamente, Henry Evans prefaciou o livro de Albert Hopkins.

Albert Hopkins - Magic stage ilusions and scientific diversions (1897)
Capa do livro de Albert Hopkins (1897)

Mas nem só de fantasmas viviam os mágicos-cientistas. Muitos se dedicaram à química, transmutando substâncias e criando efeitos pirotécnicos incríveis. Um dos mais notáveis foi descrito por Ellis Stanyon em 1909 chamado “Think! Ink! Think ink” no qual um líquido incolor permanece incolor até que ao comando do mágico transforma-se em tinta. Outros efeitos incluíam reações que geravam vapores “do nada” como o “Smoke trick” descrito em 1872 por Cremer. No efeito do livro o mágico soprava a fumaça de um cigarro para dentro uma garrafa hermeticamente selada. Esse efeito também foi executado por Chung Ling Soo. Mas, talvez, o efeito mais conhecido da magia química seja o “Vinho em água”. A primeira descrição desse efeito surgiu em 1581 e, em 1740, o já citado Guyot criou uma versão não-química deste efeito, possivelmente utilizando um efeito óptico.

Magia química foi mais comum ao longo da década de 1930, mas com a sofisticação da plateia e aumento da cultura geral da população, logo a magia científica perdeu parte de seu encanto. Mas a história da magia científica ainda guardou uma história para provar o seu lugar no mundo.

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5. O OURO DE NIELS BOHR

Em 1940 a perseguição aos judeus era intensa na Europa tomada pelos nazistas. Na Dinamarca Niels Bohr, prêmio Nobel de física em 1922 e o pai teoria atômica, militava abertamente em prol dos cientistas judeus alemães, conseguindo trazer vários deles para a segurança relativa de seu país. Quando Hitler anexou a Dinamarca, Bohr – um filho de mãe judia e apoiador de dissidentes e fugitivos do Reich – percebeu que nem mesmo o seu renome mundial lhe traria imunidade. Somado à isso há ainda o fato de que ele estava de posse de duas medalhas do Prêmio Nobel, que pertenceram aos oposicionistas do nazismo Max von Laue e ao judeu James Franck, alemães e vencedores do prêmio de Física de 1914 e 1925, respectivamente.

Niehls Bohr
Niels Bohr

Uma Ordem Geral tornara crime punido com morte tirar da Alemanha qualquer quantidade significativa de Ouro. Niels estava de posse de duas medalhas, cada uma com 175 gramas de ouro 23 quilates e os nomes dos cientistas laureados gravados. Em valor atualizados, o ouro das medalhas valem aproximadamente R$ 40.000,00. Elas haviam sido enviadas para Bohr para que não caíssem em mãos nazistas.

A ideia de enterrar ou esconder as medalhas foi rapidamente descartada. Os nazistas iriam vasculhar tudo em busca de material comprometedor. A saída veio da mente de Georgy de Hevesy, um grande químico húngaro que trabalhava no laboratório de Bohr, e que viria a ganhar o Nobel em 1943 por seu trabalho com marcadores radioativos.

O ouro é um metal muito estável e não reage com a maioria dos ácidos; ele é virtualmente insolúvel. Só que há uma substância em especial capaz de realizar esta proeza: a Água Régia, uma mistura de uma parte de ácido nítrico com três partes de ácido clorídrico. A reação forma o cloreto de ouro, (AuCl3), uma substância hidrossolúvel e que não se parece nada com Ouro.

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Solução de Cloreto de Ouro (AuCl3)

A reação de dissolução é lenta, ainda mais com medalhas de 175 gramas, mas Niels e Georgy conseguiram terminar a solução antes da chegada das tropas nazistas. Quando os alemães invadiram o laboratório, no lugar de dois blocos comprometedores de ouro, se depararam com um par de grandes frascos repletos de um líquido laranja-escuro, corrosivo e mal cheiroso.

Os frascos foram deixados em uma prateleira sem marcação alguma. Enquanto isso Bohr sobrevivia à guerra fugindo para a Suécia, depois para Londres e finalmente para os EUA.

Em 1945, Bohr voltou para Copenhague e deparou-se com uma universidade depredada e saqueada com muito de valor destruído ou roubado. Mas para surpresa dele e de Georgy de Hevesy no armário, ainda intactos, estavam os frascos com o Cloreto de Ouro. Uma simples adição de água oxigenada bastou para fazer com que o Ouro se precipitasse no fundo do recipiente. O ouro foi então recolhido e enviado para a Comissão Nobel em Estocolmo, onde novas medalhas foram cunhadas e em uma cerimônia em 1950 devolvidas aos dois cientistas.

Por 5 anos os nazistas procuraram as medalhas do Prêmio Nobel de um físico judeu e outro oposicionista ao Reich, mas a falta de conhecimento científico os tornou incapazes de perceber que elas estavam debaixo de seus narizes. Essa é a mágica da ciência e a ciência da mágica.

“O MÁGICO É UM ATOR…”

Uma das mais famosas citações mágicas é a frase de Eugene Robert-Houdin: “O mágico é um ator que interpreta o papel de um mágico.” A grande maioria das vezes em que é citada, o contexto é de que o mágico é, antes de mais nada, um ator, daí a importância de um conhecimento cênico tão grande (quiçá até maior) do que o conhecimento arcano.

Porém, o que poucos sabem é que Robert-Houdin em momento algum defendeu a ideia de um “ator-mágico”. Aliás, essa frase encontra-se em um contexto totalmente diverso, no qual Robert-Houdin defende qual o melhor termo para o artista da ilusão. Ou seja, a discussão não é cênica, mas sim, semântica.

A frase encontra-se no livro “Les secrets de la prestidigitación et de la magiè“, em que Robert-Houdin disserta sobre o ilusionismo, desde a parte mecânica/técnica, a qual ele chama de prestidigitação, bem como sobre a parte cênica e de apresentação, que recebe o nome de “magia”. Para robert-Houdin, há uma dicotomia e é sobre esta dicotomia que ele disserta.

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Trecho do livro de Robert-Houdin, contendo sua célebre frase.

 

Talvez, parte da culpa pela confusão causada quando falamos em ser natural, seja do prof. Hoffman que ao traduzir a obra de Robert-Houdin, traduziu erroneamente uma sentença que viria a entrar para história.

O mágico é um ator que interpreta o papel de mágico”; na tradução do Professor Hoffmann, “a conjuror is an actor playing the part  of a magician”; e, por sua vez, a frase original de Robert-Houdin, “un prestidigitateur n’est point un jongleur; c’est un acteur jouant un rôle de magicien”.

Repare nas palavras sublinhadas e em como elas foram sendo erroneamente traduzidas de uma língua para a outra. Por isso, tomando a frase isolada de seu contexto, o seu sentido muda completamente. A discussão não era sobre o mágico ser ou não um ator (Robert-Houdin deixa bem claro que sim, ele é), mas sobre semântica: qual a palavra mais adequada para designar esse tipo de artista?

Tanto a discussão era sobre o nome mais adequado que, antes de discutir o termo “prestidigitador”, Robert-Houdin se debruça sobre o uso do termo “escamoteador” e sobre o porquê ele também ser imperfeito (segundo ele, escamoteador deveria ser usado apenas por aqueles que se dedicam aos covilhetes. Na língua portuguesa a palavra recebeu inicialmente essa acepção, embora mais tarde tenha sido estendida para qualquer um que praticasse pequenos golpes).

Hoffman entendeu que essa era a discussão em questão, tanto que escreveu a seguinte nota: “O presente capítulo, sendo uma discussão sobre o significado preciso de alguns termos em francês, tem pouco interesse para o leitor inglês comum. Seria, no entanto, uma mutilação injustificável omiti-lo“. Se Hoffmann soubesse a confusão que viria causar anos mais tarde, talvez reconsiderasse.

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Prof. Louis Hoffmann, o autor da “confusão”.

Assim, Robert-Houdin não está discutindo sobre o que o mágico É (malabarista, ator, etc.), mas sim, sobre o que o mágico NÃO É. Ele defende a teoria que o ilusionista não é um malabarista, que deve executar suas técnicas de forma “mais rápida que o olho” e assim ser chamado de prestidigitador (presto = rápido, dígito = dedos). Antes o ilusionista deve ser um ator e encantar pela sua franca exposição do truque, como se fosse um verdadeiro mágico. A genialidade está na apresentação, no método e no ensaio, e não na velocidade.

Essa ideia pode ser extraída da continuação de sua famosa frase:

“O prestidigitador não é um malabarista, ele é um ator interpretando o papel de um mágico. Ele é um artista cujos dedos devem mover-se mais com suavidade do que com velocidade. Eu ouso adicionar: onde a manipulação estiver envolvida, quanto mais sutil o movimento, mais facilmente os espectadores serão enganados.

Se o prestidigitador clama possuir poderes supernaturais (…) por que então, quanto executa as suas maravilhas, ele deve gesticular exageradamente rápido? Agir dessa forma é ilógico e inconsistente. Ao ver tais gestos rápidos, os espectadores em geral ficarão maravilhados, intrigados, mas não convencidos, enquanto – por outro lado – um movimento discreto, sutil sempre induzirá à confiança, promovendo assim a ilusão.

A palavra prestidigitação, portanto, apenas descreve imperfeitamente o que a nossa arte se propõe.”

CARNIFICINA*

ou
“UMA HISTÓRIA MACABRA DE MENTALISMO, NECROLEPSIA E LOUCURA”

If I shall die before I wake,
I pray the Lord my soul to take.
Oração tradicional infantil norte-americana

1. INTRODUÇÃO

A história é recheada de artistas que morreram no palco apresentando-se. Algumas dessas mortes se deram em função do próprio show. A morte de Chung Ling Soo é talvez o exemplo mais cabal: ele morreu no palco, ao executar o número de pegar a bala. Outros artistas, no entanto, simplesmente passaram mal no palco e momentos depois vieram a falecer. Não pense porém, caro leitor, que isso torna as circunstâncias de suas mortes menos misteriosas ou menos curiosas. O caso do mentalista norte- americano Washington Irving Bishop é um desses casos.

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2. WALTER IRVING BISHOP

01. W. I. Bishop
Walter Irving Bishop

Bishop foi um proeminente mágico mentalista que começou sua carreira no começo dos anos 1870. Nascido em 1856 em um lar espiritualista (sua mãe se considerava uma médium) ele iniciou a sua carreira como ajudante e gerente da médium Anna Eva Fay. Alguns anos mais tarde, por motivos não bem esclarecidos, Bishop virou-se contra sua própria história e foi à público desmascarar Anna. O fato de ter sido derrotado em um processo por John Nevil Maskelyne que o acusou de charlatanismo pode ter contribuído para a guinada na carreira. Fosse o que fosse, o fato é que a partir de 1876 Bishop dedicou-se a apresentar-se como um mentalista cujo foco do show era a revelação dos métodos dos falsos médiuns, antecipando Houdini em alguns anos. Em 1880 Bishop escreveu um livreto com pouco mais de 70 páginas intitulado “Second Sight Explaned” no qual revelava os principais métodos de clarividência dos médiuns. Bishop também era expert em “muscle reading”, fato que, como veremos mais adiante, contribui para a sua morte.

Como mentalista Bishop foi bastante profícuo: em 1881 criou a técnica do “non-contact mind reading”. Em 1885 inovou novamente criando o truque de dirigir vendado. Irving Bishop tinha tudo para entrar gravar o seu nome na história da mágica mundial. Porém sua carreira teria um fim abrupto e inesperado.

02. Folheto show de WIB
Folheto anunciando o show de Bishop

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3. A ESTRANHA MORTE DE BISHOP

Em 12 de maio de 1889 enquanto se apresentava no “Lambs Club” (uma espécie de clube de artistas profissionais de Nova York) Bishop simplesmente desmaiou logo no começo de seu ato. Socorrido, ele logo voltou a si e tornou a apresentar-se de onde havia parado. Alguns momentos depois, novo desmaio, só que dessa vez Irving não voltou à consciência. Às 15:45 do dia seguinte seu corpo era autopsiado pelas autoridades locais. E é aí que ganha vários detalhes estranhos e macabros.

Conforme dito anteriormente, Irving Bishop era especialista em “muscle reading” e sua performance era exagerada e repleta de maneirismos. Relatos da época dizem que para adicionar drama ao ato, ele executava a leitura de forma frenética, quase epilética. Acredita-se que esse esforço exagerado na apresentação acabou desencadeando uma crise de catalepsia em Bishop, que já sofria dessa síndrome.

Catalepsia é uma doença neurológica em que a pessoa “apaga”, seus sinais vitais caem; ela permanece rija, como se estivesse morta. No passado muitos doentes de catalepsia acabaram sendo enterrados vivos. Esse era o grande medo Bishop, tanto que ele mantinha um bilhete em um de seus bolsos onde contava de seu estado catatônico e que não deveria ser confundido com morte e, principalmente, que NÃO deveriam autopsiar o seu corpo, a não ser após passadas 48 horas.

Após desmaiar pela segunda vez, Bishop foi atendido ainda no “Lambs” por seu médico particular. Ele tentou reanimar o mentalista com os procedimentos padrões. O médico lutou até às 4:00 da manhã, mas não obteve sucesso. Na manhã seguinte Gus Thomas um amigo de Bishop contou que ao dirigir-se ao “Lambs” para saber do amigou encontrou-o comatoso, deitado em uma cama de ferro, com dois eletrodos ligados ao seu corpo – um no coração e outro em sua mão – e uma bateria que zumbia passando eletricidade pelo seu corpo. Na sala ao lado, dois médicos exaustos após uma longa vigília, fumavam seus cigarros.

Gus Thomas observava seu amigo, o qual apresentava todos os sinais de estar morto, quando, aproximadamente às 12:10, o rosto de Bishop tornou-se profundamente solene. Os médicos então declaram que Bishop acabara de falecer e imediatamente levaram o corpo do mentalista para a autópsia.

O fato da autópsia em Bishop ter sido feita poucas horas após a sua morte, alimentou a teoria de que na verdade, Bishop acabou sendo autopsiado ainda vivo. A esposa de Bishop, ao deparar-se com o cadáver do marido com o crânio serrado, gritou para os dois médicos: “Vocês mataram meu marido!”

03. Eleanor
Eleanor Bishop no velório de seu filho. Repare na cicatriz na testa de Bishop

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4. AÍ QUE A HISTÓRIA FICA VERDADEIRAMENTE BIZARRA

A polêmica foi tanta que em 28 de maio uma nova autópsia foi feita em Irving Bishop. O novo legista, ao abrir o corpo, encontrou o cérebro de Bishop “guardado” em seu peito. Ele relatou ainda que “todo o corpo parecia saudável” e “aparentemente não havia nada que pudesse ter causado a sua morte”. Por fim um detalhe bizarro: ainda segundo o novo relatório, “algumas partes do cérebro bem como alguns órgãos haviam desaparecido”.

O procedimento relâmpago rendeu um litígio judicial. Encampado pela mãe de Bishop, Eleanor Fletcher Bishop, os três médicos que executaram a primeira autópsia foram processados. Em sua defesa eles alegaram que não havia nenhum bilhete no bolso de Bishop. E de fato, tal bilhete nunca foi encontrado. Em 1893 finalmente a sentença: os médicos foram inocentados e puderam continuar suas carreiras sem problemas. Eleanor, por sua vez, seguiu em sua cruzada por quase três décadas contra os médicos. Ela chegou a escrever um livro em 1889 dramaticamente intitulado: “A Mother’s Life Dedicated and an Appeal for Justice to All Brother Masons and the Generous Public — A Synopsis of the Butchery of the Late Sir Washington Irving Bishop (Kamilimilianalani) A Most Worthy Mason of the Thirty-Second Degree, the Mind Reader, and Philanthropist By Eleanor Fletcher Bishop, His Broken-Hearted Mother.” (A vida de uma mãe dedicada e o apelo à justiça para todos irmãos maçons e ao generoso público – Uma sinopse da carnificina do falecido Sir Washington Irving Bishop (Kamilimilianalani) o mais digno maçom de trigésimo segundo grau, o leitor de mentes e filantropista por Eleanor Fletcher Bishop, sua mãe de coração partido”).

livro eleanor
 Capa do livro de Eleanor Bishop

No atestado de óbito de Bishop a causa mortis consta como: “histero-catalepsia” (ataque de histerismo complicado por problemas de catalepsia). Bishop sempre disse que seus poderes vinham de seu cérebro único. Talvez isso explique a pressa dos médicos em realizarem a autópsia. Para a decepção dos legistas seu cérebro era normal, apenas um pouco mais pesado e escuro do que a média, mas nada de anormal.

Anos antes de sua morte, Bishop disse ao amigo Henry Byatt, um novelista inglês, que enquanto estava cataléptico ele podia ouvir tudo, sentir tudo e que estava plenamente ciente dos acontecimentos ao seu redor. Ele apenas não conseguia se mover ou se comunicar.

Na lápide de Bishop ele recebeu o título de “mártir”. Foi considerado assim, pois morreu pela sua arte: mesmo sabendo de seu problema de catalepsia, não abriu mão de uma interpretação forte e convincente, dignas do grande mentalista que foi.

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5. CONCLUSÃO

As perguntas do caso de Bishop nunca serão plenamente respondidas. Quando Washington Irving Bishop morreu? No palco, na cama de ferro ou na mesa de autópsia? Ele sentiu cada uma das 8 horas de eletro-choques? Ele foi autopsiado vivo? Sentiu alguma dor enquanto seu cérebro era removido de seu crânio? Jamais saberemos. A única coisa que sabemos é que após a morte do filho, Eleanor recebeu a ajuda de Harry Houdini, que comprou a memorabilia de Bishop para ajudar financeiramente a enlutada mãe. Ela agradecida citou Harry como seu herdeiro, que recebeu, quando da morte de Eleanor, uma mansão imaginária avaliada em 30 milhões de dólares.

Onde está seu deus agora, Stephen King?

* OBS: Carnificina (Butchery) é o título de uma peça de teatro que conta a história de Eleanor Bishop.

BATALHA DOS MÁGICOS

POST PUBLICADO ORIGINALMENTE EM:
“A GUILHOTINA” Nº 00 – JUNHO DE 2015

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1. INTRODUÇÃO

Quem assistiu ao filme “O Grande Truque” viu a que ponto pode chegar a rivalidade entre dois mágicos. No mundo real, rivalidades também aconteceram, e muitas delas entraram para a história.

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2. Alexander Herrmann x Carl Herrmann – Irmãos dividindo o mundo

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(Arte: Henri Sardou)

Seria um exagero dizer que Carl e Alexander eram rivais. Carl e Alexander eram irmãos e Carl (cujo nome verdadeiro era Compars) servia de inspiração ao irmão mais novo. Carl largou os estudos em medicina e resolveu dedicar-se integralmente à mágica. Sendo um grande fã do irmão mais velho, Alexander começou a copiar o irmão e a demonstrar interesse na mágica. Precisando de ajuda e percebendo o interesse do irmão mais novo Carl “sequestrou” o seu irmão – que à época tinha apenas oito anos – e o levou para uma turnê pelo Leste Europeu.

Alexander servia ao irmão como assistente de palco. Ele levitava no palco apoiado em bastão e atuava como médium vendado. Alexander ainda tomava lições de manipulação, para a qual demonstrou grande afinidade. Após a turnê, Carl “devolveu” o irmão aos seus pais. Alexander mostrou ao seu pai, Samuel (o qual já era um renomado físico – ou seja, um mago cientista) o que havia aprendido com o irmão. Samuel viu o potencial do garoto e permitiu anos mais tarde que Alexander acompanhasse o irmão. Aos 11 anos Alexander mudou-se de Paris para Viena para trabalhar ao lado do irmão.

A cada ano a habilidade de Alexander aumentava e ele se tornava parte maior do show. Aos 17 anos, Alexander e Carl vieram para a América. Já era patente que a habilidade de Alexander rivalizava com a do irmão. Isso deixou Carl ciumento, porém, ele continuava sendo a estrela do show e Alexander continuava sendo o médium vendado. Os irmãos fizeram seu tour pela América e logo decidiram se separar. Enquanto Alexander permaneceu na América, tornando-se “O” Herrmann, Carl voltou para a Europa e por lá excursionava.

Assim o mundo ficou dividido entre dois Hermmanns: Carl ficou com a Europa e Alexander com a América. A rivalidade entre os irmãos não era declarada, mas é fato que ambos competiam para ver quem levaria o nome Herrmann mais longe.

E, embora rivais, eles ainda eram irmãos. Quando Carl faleceu em 1887, Alexander ficou profundamente triste e para um jornal declarou que tudo o que ele era, devia ao irmão.

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3. Chung Ling Soo x Ching Ling Foo – A batalha pelo original

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(Arte: Henri Sardou)

O original não se desoriginaliza, fato! Mas e quando a cópia sobrepuja o original? Essa é a história de Chung Ling Soo e Ching Ling Foo.

Ching Ling Foo (nascido Zhu Liankui) era um mágico chinês, nascido em Pequim, versado nas artes ilusionistas orientais. Tendo alcançado grande prestígio na China, resolveu tentar a sorte no Ocidente, empreitada essa que foi bem sucedida; Foo foi o primeiro mago oriental a fazer sucesso no ocidente. Dentre seus truques estavam a produção de uma enorme tigela cheia d’água e a decapitação de um garoto (coisa que nem Dedi fez, mas divago…).

Num ato de publicidade, Ching desafiou qualquer pessoa a reproduzir o seu número da tigela de água. A recompensa era de US$ 1.000,00 (aproximadamente R$ 30.000,00 em valores atuais). Foi então que um mágico do Brooklyn chamado William Robinson arriscou reproduzir o truque. Foo repeliu o desafiante, recusando-se até mesmo à assistir à tentativa de Will. Ficou claro, então, para Will que Foo não daria o prêmio a ninguém, independentemente da realização do truque.

A vingança de William foi única. Aproveitando uma oportunidade de trabalho que requeria um ilusionista chinês, William emulou praticamente todo o show de Ching. O próprio nome artístico foi uma cópia quase fiel do rival. Assim, em 1900, nascia Chung Ling Soo. O toque de gênio foi o slogan criado por ele: “O conjurador chinês original”. De acordo com a biografia fictícia de Chung, ele era filho de um missionário americano e mãe cantonesa. Ficou órfão de pai e mãe aos 13 anos e foi então adotado por Arr Hee, um mágico chinês versado também nos truques “europeus”.  Após a morte de seu mestre, Soo partiu pelo mundo em carreira solo e chegou à América.

Robinson manteve-se no papel de forma plena e integral. Raramente falava inglês no palco e quando falava era um inglês fortemente carregado de sotaque. Entrevistas, só com o suporte de intérpretes. Logo, Soo (Robinson) se tornou o mágico oriental mais popular do ocidente, sobrepujando inclusive o próprio Foo (Liankui). Não tardou para que Liankui desafiasse seu simulacro.

Em 1905 os dois mágicos estavam em Londres, Foo (Liankui) se apresentando no Empire Theatre e Soo no Hipódromo. À essa altura Foo já sabia da verdadeira identidade de Soo e que ele havia emulado o seu show. Como um golpe publicitário, Foo (Liankui) foi à público e anunciou que Soo (Robinson) era uma fraude e se propôs a replicar, pelo menos, metade do show de Soo, provando assim que ele era o verdadeiro ilusionista chinês. Sem se abalar Soo aceitou o desafio e concordou em se encontrar com Foo no escritório da “The Weekly Dispatch”, um jornal londrino da época.

O problema para Foo é que a imprensa estava mais interessada na disputa entre números de mágica do que na real identidade de Soo, o que foi um baque para Liankui. Dessa forma, Liankui se recusou a aparecer na conferência de imprensa e retirou o desafio. O episódio causou um embaraçamento público para Foo a ponto de seu show no Empire Theatre ter durado apenas quatro semanas, enquanto o show de rival ficou em cartaz por cerca de três meses.

Em 1918 Soo (Robinson) morreu tragicamente durante um show enquanto executava o truque de pegar a bala. Sua morte causou dupla comoção: pelo modo como aconteceu, e por finalmente fazer a verdade sobre sua identidade vir à tona. Já a morte de Foo, 4 anos depois, permanece ainda hoje um mistério.

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4. Horace Goldin x P.T. Selbit – O número da discórdia

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(Arte: Henri Sardou)

Goldin era um mágico polonês que migrou para a América ainda adolescente. Seu sucesso veio em 1921 ao apresentar e patentear o número da mulher serrada ao meio. O problema é que este truque foi criado por PT Selbit, um mágico inglês, o qual foi assistido por Goldin meses antes de ele dar entrada na patente do número da mulher serrada ao meio.

Selbit apresentou seu número oficialmente em janeiro de 1921, meses antes, portanto, de Goldin. Há registros que já em dezembro de 1920 Selbit havia feio pequenas exibições privadas para alguns donos de teatro a fim de avaliar a qualidade do seu número.

Havia pequenas diferenças entre os números: no de Selbit a caixa ficava na vertical e a assistente ficava com braços e pernas abertos. Era amarrada com cordas pelos pés e mãos por voluntários da plateia. A seguir eram inseridas duas placas de vidro na caixa, na altura do torso da assistente e, em seguida, serrada ao meio com um serrote. As seções eram separadas e o torso da assistente mostrado. Na versão de Goldin, a caixa ficava na horizontal e a assistente entrava dentro da caixa. Seus pés, mãos e cabeça eram postos para fora por aberturas feita na caixa e a assistente presa por grilhões. A caixa então era serrada ao meio e em seguida eram inseridas folhas de metal nas bordas cortadas e as metades separadas.

A primeira apresentação de Goldin não foi das mais exitosas. Seu número apresentou inúmeras deficiências que não trouxeram o assombro esperado. Ainda mais em se considerando que foi apresentado para os membros da Sociedade Americana de Mágicos. Mas um dos espectadores viu o potencial do truque e se prontificou em ajudar Goldin a desenvolvê-lo. Howard Thurston então indicou Harry Janses, seu engenheiro de equipamentos que refinou o número.

Nesse ponto, Goldin acabou registrando e patenteando o número, o que impediu que outros mágicos pudessem executar esse número. Assim, por 17 anos, Goldin teve o monopólio do número, tanto que, até hoje, algumas pessoas creditam a ele a invenção desta ilusão. Goldin ainda enfrentou alguns processos judiciais por conta do segredo do número e de sua revelação. Quanto à Selbit, ele voltou para a Inglaterra onde continuou trabalhando e tentando criar números tão bons quanto o da mulher serrada ao meio. Muitos de seus números fizeram muito sucesso como o “The Million Dollar Mystery” apresentado, entre outros, por Carter, o Grande; Mas nenhum deles atingiu o mesmo grau de sucesso da mulher serrada ao meio.

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5. Houdini x Thurston – O Ying-Yang da mágica

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(Arte: Henri Sardou)

Dois grandes mágicos que não poderiam ser mais contrastantes. Não se odiavam, mas também não se amavam. Não obstante, Jim Steinmeyer dedicou um livro inteiro para contar a história de rivalidade entre Harry Houdini e Howard Thurston.

Thurston foi vice-presidente da Sociedade de Mágicos Americanos; Houdini foi o presidente. Thurston era um ex-golpista que revisou a sua biografia para vender a imagem de um homem religioso e de intenções nobres; Houdini era filho de um rabi judeu e forjou uma identidade falsa na qual havia se associado à criminosos. Aliás, Thurston era reconhecidamente um polido gentleman, enquanto Houdini era visto como arrogante e cheio de si. Apesar de famoso pelas suas grandes ilusões, a grande virada de Thurston veio quando aprendeu o “backhand palm” com T. Nelson Downs; Houdini, apesar de se proclamar o “O rei das cartas” era pífio na cartomagia e o causo onde foi enganado por Dai Vernon tronou-se uma lenda no meio mágico.

O grande número de Thurston foi “A Levitação da Princesa Karnac”, número que herdou de Harry Kellar; o grande número de Houdini foi criado por ele mesmo, mas não envolvia mágica, mas sim escapismo (“The Water Torture Cell”). Aliás, Thurston foi o sucessor natural de Harry Kellar, o maior ilusionista nativo americano até então. Houdini era muito amigo de Kellar, praticamente um discípulo, mas não o seu sucessor natural.

O show de Thurston fazia jus ao título de “O Show mais Maravilhoso do Universo”: dançarinas, um automóvel que desaparecia no palco, transformações, truques com água, cartas, patos, coelhos… O show de Houdini incluía, além de algum ato de mágica, escapismo e uma lição sobre os falsos médiuns.

Steinmeyer definiu a rivalidade entre os dois de forma absoluta e brilhante: “Enquanto Thurston buscava se tornar o melhor mágico do mundo, Houdini lutava para se tornar uma lenda”. No fim das contas, cada um obteve o seu quinhão.

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David Copperfield x Herbert Becker – Batalha nos tribunais

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(Arte: Henri Sardou)

David Copperfield já se envolveu em inúmeros processos, a grande maioria de natureza trabalhista. Mas um caso em especial entrou para o hall de causos curiosos da arte.

Em 1993 Herbert Becker estava escrevendo um livro sobre a vida de grandes mágicos e revelando alguns de seus truques mais famosos, quando David Copperfield se aproximou de Becker e pediu para ser incluído no livro. Os dois trabalharam juntos e Becker incluiu em seu livro, além de fatos sobre a vida de Copperfield, a revelação de alguns de seus truques.

Mais tarde Copperfield moveu um processo contra Becker com o intuito de parar a publicação do livro sob pretexto de que “Becker estaria revelando os truques de Copperfield”. David perdeu o processo, mas quando o livro foi publicado em 1995 este saiu da gráfica SEM o capítulo sobre David Copperfield. Um capítulo inteiro simplesmente desapareceu do livro. Becker buscou tomar satisfações da editora mas estes se recusaram a comentar sobre o ocorrido.

Em 1997 Becker processou a editora e David Copperfield alegando um conluio entre eles que culminou em uma quebra de contrato da Editora com Becker. Becker saiu vencedor deste processo.

Poucas semanas depois de ser processado por Becker, Copperfield entrou com um processo contra a revista Paris Match por difamação. Segundo a revista, o encontro de David Copperfield e Claudia Schiffer teria sido armado e o seu casamento um mero arranjo de interesses, e que ela sequer gostava de David. David alegou que Becker era a fonte por trás da história e o acusou de ser um mágico fracassado e invejoso. Becker negou a acusação e disse que Copperfield era realmente terrível com as mulheres e que só queria fama e atenção.

Independentemente se Becker era ou não a fonte por trás da notícias, o fato é que David e Becker resolveram as suas diferenças e Becker, antes citado no processo por Copperfield, acabou testemunhando em defesa do outrora rival. E o testemunho de Becker foi decisivo para que em 1999 David Copperfield saísse vencedor do processo contra a revista francesa, a qual, além de pagar a indenização, se retratou publicamente.

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4. E hoje?

Atualmente a rivalidade entre artistas é menos patente, embora ainda exista. Porém, ao invés de resolver o problema nos palcos, eles tem sido decidido nos tribunais.

Em 2012 Teller moveu um processo contra o mágico holandês Gerard Bakardy por suposta quebra de direitos autorais. Bakardy assistiu a uma apresentação de Penn & Teller em Las Vegas e quando viu o número “Shadows” de Teller, no qual Teller projetava a sombra de uma rosa em um fundo branco e, ao cortar a sombra da rosa com uma faca, a rosa caia no palco. Bakardy então criou o seu próprio método para o efeito e o colocou à venda por US$ 3.000.

O problema é que esse truque havia sido patenteado por Teller em 1983. Teller ainda tentou um acordo com Bakardy para comprar a sua versão, mas não houve acordo. O caso foi parar nos tribunais e em 2014 Teller saiu vitorioso. O caso tornou-se emblemático pois abriu a discussão sobre a aplicação da lei de direitos autorais para números de mágica como um todo, e não apenas para o aparato.

Hoje os mágicos convivem com uma nova realidade: as redes sociais que permitem críticas mais mordazes e o nascimento de inimizades entre artistas mágicos, muitas vezes ainda antes da fama. Parafraseando um rabino do século I d.C. “(…) é inevitável que hajam escândalos; mas ai daquele homem por quem o escândalo vem.

RESENHA – LIVRO “A MÁGICA”

Capa do Livro
Capa do Livro

RESENHA OFICIAL

O mágico profissional Red se apaixona por Rosa, uma garota de personalidade muito forte. Quando ela morre, vítima de uma queda de um trem, em um dia e lugar onde não deveria estar, deixa sem resposta uma série de perguntas. A chegada de um misterioso pacote pelo correio lança Red na busca perigosa da solução do enigma da morte e do passado de Rosa.

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SOBRE O LIVRO

Confesso que tive dificuldades em sintetizar a história, pois foi um livro que me trouxe sentimentos ambíguos. De um lado uma história de suspense com uma premissa comum; de outro uma história bem conduzido, em que cada pedaço do quebra-cabeças é revelado na hora certa. De um lado um livro cheio de palavrões e cenas de sexo gratuitas; de outro lado, uma história noir, crua, real, verdadeira, como verdadeiro é o mundo que nos cerca. E, unindo tudo isso, o universo dos truques de mágica e de como o engano funciona.

É um livro pesado, forte, que demorei tempos para ler e tive que alterná-lo com outros mais “leves”. A maior dificuldade em meu ver foi o forte conteúdo sexual do livro. Não que eu seja um purista e a história, de certa forma, pedia por isso (sem spoilers), mas creio que autor teria conseguido chegar ao mesmo resultado com muito menos palavrões e referências sexuais. O conteúdo impróprio muitas vezes apareceu no livro de forma gratuita e desnecessária.

Mas isso não tira o mérito da história. No começo tive dificuldades em avançar na história. Na verdade comecei a ler o livro em setembro e li, aproximadamente 1/3 do livro em 20 dias e larguei-o por outro mais leve. Voltei ao livro em outubro, li mais 1/3 em outros 20 dias (até aqui a história pouco tinha avançado, embora – méritos do autor – ainda se mostrasse interessante) até que a minha paciência com o livro se esgotou. Fui para outros livros.

Semana passada decidi retomar o livro. Continuei exatamente de onde havia parado e, embora, tivesse algumas dificuldades com os nomes de alguns personagens, no geral, consegui retomar a leitura. E o terço final do livro foi muito bom. O li de uma só vez, praticamente. E a história é sincera, o final coerente. No geral, um bom livro.

Não posso dizer que me arrependi de haver lido o livro, embora, admito, não sei se o tornarei a ler algum dia.

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IMPRESSÃO COMO MÁGICO

Como escrevi ali em cima, a mágica e a natureza do truque – ou do engano, se preferir – permeiam o livro (juntamente com a questão sexual, é bom lembrar). E nesse ponto, ao menos para mim, o livro tem um grande valor. Cada capítulo é metaforicamente comparado a um truque de mágica e o efeito que ele causa no espectador é comparado ao efeito que o mistério sobre a morte de Rosa causa em Red.

Ainda, ele divaga filosoficamente sobre o engano, e nisso o autor acerta. Num dos capítulos ele divaga sobre a mágica ser uma manifestação do modernismo e não do pós-modernismo, por exemplo. Toda essa teoria e descrições de efeitos de palco clássicos convergem para o mistério do livro e foi isso, ao meu ver, que contra-balançou o excessivo teor sexual do livro.

Aliás, as descrições dos efeitos são outro show à parte. Inúmeros efeitos são descritos ao longo do livro, todos eles regiamente pesquisados em livros clássicos como “Our Magic” de Nevil Maskelyne & David Devant. E, como o livro também versa sobre a teoria do engano, autores como Paul Ekman (o estudioso que inspirou o personagem Cal Lightman da série “Lie to Me“) também foram pesquisados. E isso, sem duvida, acrescenta ao livro.

Em suma, se você é mágico, e não se importa com sexo barato, palavrões e cigarros (o protagonista fuma tanto no livro, que quase sentia o cheiro da nicotina), o livro traz boas lições de mágica e engano que podem ser aproveitadas. Se você for um purista, melhor aprender as lições diretamente com o Dr. Paul Ekman e com David Devant e Nevil Maskelyne.

E uma última nota sobre o livro, o título original em inglês faz mais sentido😉

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FICHA TÉCNICA

Título: A Mágica (“The Houdini Girl“)

Autor: Martyn Bedford

Editora: Record

Ano: 2002

Páginas: 396