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A ESTRANHEZA DE LAFAYETTE

Texto retirado do livro “Sensational Tales of Mystery Men” por Will Goldston publicado pelo próprio Will Goldston em 1929 e traduzido por mim.

As imagens que ilustram esse post não se encontram no texto original.

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Clientes do meu escritório frequentemente me perguntam sobre uma grande pintura a óleo que fica de frente para a minha mesa. O tempo tornou a pintura mais escura que originalmente fora concebida, mas ela ainda mantém sua imponência que chama a atenção.  Essa pintura mostra um homem magro, em torno dos 50 anos usando óculos “pince-nez”, seu queixo repousado sobre sua mão esquerda e seus olhos vidrados em algum ponto perdido do espaço. Há algo de estranho em seu rosto; uma expressão difícil de descrever. Você começa a ficar inquieto sob seu inexorável olhar, como se o homem na pintura estivesse olhando para dentro de você, perscrutando seus mais íntimos segredos. Muitos de meus visitantes se ressentem deste exame silencioso.

Quem é o homem?” eles perguntam.

Lafayette”, eu respondo

E então talvez, seus olhos irão mirar uma grande espada em uma redoma de vidro que fica acima da minha cabeça. É curioso como o subconsciente parece conectar a espada com o retrato de Lafayette, eles ficam em extremos opostos da sala, mas quase sempre percebo as pessoas olhando, inconscientemente, de um para outro.

Essa é a espada de Lafayette”, eu digo a eles. “Foi encontrada junto de seu corpo carbonizado no palco do Teatro Imperial em Edimburgo. Foi dada de presente a Harry Houdini, que pó sua vez, passou ela para mim”.

Conte a história toda”, eles me pedem.

Então eu conto.

Pintura de Lafayette, descrita por Will Goldston

 

Lafayette foi o mais odiado de todos os mágicos que já viveram. E isto soa estranho, uma vez que, foi ele quem estabeleceu um novo patamar entre os artistas da mágica: artistas de primeira classe com salários astronômicos. Ele provou aos gerentes do Holborn Empire, um grande teatro da época, que era digno das quinhentas libras semanais que cobrava como salário, ao lotar o teatro por uma quinzena inteira e obter altos lucros com seu show.

Lafayette era anti-social a ponto de ser rude, e por esta razão foi universalmente execrado. Suas constantes recusas em se encontrar com colegas mágicos, tanto na Europa como na America, fizeram dele uma figura muito impopular, agraciado por onde quer que passasse com o mais puro e sincero desprezo.

Eu sempre acreditei que, na verdade, ele tinha medo de encontrar seus colegas ilusionistas. Seu conhecimento das artes mágicas era insignificante e, ao invés de demonstrar a sua ignorância profissional a outros mágicos, já que era um eminente mágico, ele acabava preferindo a sua própria companhia.

Como ilusionista ele era maravilhoso, e suas apresentações, eu classifico serem do mesmo nível de Houdini e John Nevil Maskelyne. Somente aqueles que viram esses dois em seu apogeu podem imaginar quão grandiosos eram tais shows. Mas a habilidade de iludir no palco não significa, necessariamente, conhecimento da mágica real. E neste conhecimento, Lafayette estava em falta.

Ele era, pura e simplesmente, um ilusionista mecânico. Ele era esperto o bastante para construir diferentes programas (gimmicks) para qualquer mágica apresentada em seu tempo, e foi desse modo, que construiu a sua reputação. “Isso deve ser espetacular!” era o seu lema, e ele o seguia à risca. Seu ato era tipificado pelo cenário deslumbrante, pelas vistosas cortinas e pela música sempre muito alta e comovente.

Lafayette veio de uma trupe alemã e começou sua carreira como um artista cênico. Por certo que foi essa a razão do seu grande apreço pelas ilusões. Eu nunca soube como ele acabou por adotar a mágica como profissão, mas sem dúvida sua posição como um pintor de cenários teatrais foi quem despertou nele tal desejo.

Ele era chamado de excêntrico. Isso é um grande eufemismo. Eu o considero um louco. Ele tratava suas assistentes de palcos como soldados e ordenava que elas o saudassem nas ruas. Uma vez, ele comprou um colar de diamantes para sua cachorrinha. Ele também pagava todas as suas contas com cheques, não importando se o valor da compra fosse de apenas alguns centavos. Um homem que faz todas essas coisas, eu repito, deve ser louco.

Seu cachorrinha “Bela” era a sua grande fraqueza. Era esse o animal que aprecia desenhado em todos os seus cheques e contratos de teatro. Um banheiro especial para Bela foi construído na casa de Lafayette em Torrington Square, e todas as noites o animal era servido com uma completa refeição quente, que ia desde sopas como entrada até doces de sobremesa. Um retrato de Bela ficava do lado de fora da casa com uma estranha frase escrita debaixo da figura: “Quanto mais eu conheço os homens, mais eu amo o meu cachorro”.

 

O Mágico Lafayette e sua cachorrinha Bella

Lafayette era um grande empreendedor e recorreu à publicidade mais irritante que eu já conheci em toda a minha vida: Ele mandou imprimir fotos com seu nome escrito em papéis com grude na parte de trás, e mandava colar estas fotos nas paredes internas e externas dos banheiros públicos nas cidades em que ele iria se apresentar. Esse procedimento lhe trouxe mais problemas do que benesses.

Ele era também um pugilista, como acabou descobrindo da pior maneira o Sr. Inglish de Chicago. Quando Lafayette foi se apresentar naquela cidade, acabou se tornando muito amigo de uma moça jovem e bonita e cujo marido, nada sabia a respeito desse “affair”. É possível imaginar claramente a surpresa desse homem quando, ao entrar em um restaurante, viu sua esposa, que mais parecia um manequim de desfile, tamanha sua produção, almoçando com o grande mágico.

Então é isto que ela faz?” pensou o Sr. Inglish. “Vou ver o que está acontecendo.” Ele se aproximou de Lafayette e com um tapinha no ombro disse ao mágico:

Você sabia que essa dama é minha esposa?

E daí?”, retrucou Lafayette, não dando a mínima atenção ao homem atrás dele.

E o que você diz de levá-la para jantar sem a minha permissão?

Lafayette não respondeu, ao invés disso, mandou um incrível soco direto no queixo do Sr. Inglish. Foi a maneira mais fácil de acabar com aquela discussão. O marido caiu nocauteado no ato e, quando acordou, foi questionado por que importunara uma pessoa tão importante como Lafayette. E assim ficou a fama deste marido enganado.

Quantas pessoas sabem da verdade sobre a morte de Lafayette: Poucas, eu deduzo. Ele foi queimado até a morte no desastre que houve no Teatro Imperial de Edimburgo em 9 de maio de 1911. A lenda que se conta é que ele conseguiu fugir do incêndio, mas acabou voltando para dentro do teatro a fim de salvar seu cavalo branco que permaneceu no teatro. Há pouca verdade nesta lenda.

O que de fato aconteceu foi isto: Lafayette sempre insistiu que a “porta de passagem” – uma pequena porta de ferro que liga os estábulos às laterais do palco do teatro – deveriam permanecer trancadas durante o seu show. Esta ordem servia para que intrusos não invadissem o teatro e acabassem talvez descobrindo o segredo de suas ilusões. Uma condição estúpida, e que acabou lhe custando a vida.

 

Cartaz do show de Lafayette no Tetaro Imperial de Edimburgo

Quando o incêndio começou no palco, ele correu até a porta de passagem para facilitar sua saída do teatro.  Ele havia se esquecido de sua própria ordem de trancar essas portas. Antes que pudesse se dirigir a outra saída, o palco estava imerso em chamas e fumaça e, derrubado pela fuligem, calor e fumaça, acabou caindo, inconsciente. Quando seu corpo foi resgatado, estava irreconhecível.

 

Lápide do "Grande Lafayette", no cemitério em Glasgow

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Para saber mais sobre Lafayette:

El Gran Lafayete“, no blog de Jose María Palma (Espanhol)

Each Man Kills the Thing He Loves” no blog “Strange Flowers” (Inglês)

Weird Magicians of Brooklyn” no blog “Weird Brooklyn” (Inglês)

Was It He The Great Lafayette?” no site “Edinburgh 1 o’clok Gun” (Inglês)

OBS: Todas as imagens foram retiradas dos links acima.


FANTASMAGORIA

No post anteiror (abaixo) falei sobre as “Lanternas Mágicas”. Aparatos capazes de reproduzir imagens, e criar histórias, muito utilizadas no século XVIII e XIX.

Alguns me perguntaram: “mas o que aquelas lanterna tem a ver com a mágica, exceto pelo nome?“. Na verdade aquele post foi uma introdução para o post de hoje. Hoje escreverei sobre um estilo de apresentação utilizando as tais lanternas mágicas, chamado de fantasmagoria; ou seja, um show de terror.

Esses espetáculos, serviram como base para mutas das mágicas de palco com temáticas espíritas e sobrenaturais nos séculos XVIII e início do século XIX. Foram nesses espetáculos que os mágicos descobriram o poder e a utilidade dos espelhos e da fumaça, cunhando a expressão “smoke and mirrors”, que é, até hoje, sinônimo de “uma grande ilusão”.

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Quem pensa que os espetáculos de horrores são uma invenção moderna, devería rever seu conceito. No fim do século XVIII, algumas modificações na concepção das Lanternas Mágicas permitiram não mais a simples exibição de imagens estáticas, mas agora produziam imagens horrorizantes: fantasmas projetados sobre a plateia, imagens minúsculas que prontamente se convertiam em gigantes e além disso que podiam podiam se mover pelas paredes dos teatros.

 

Espetáculo de fantasmagoria no Séc. XVIII

(clique na imagem para ampliar)

A lanterna mágica, antes um show de projeções e histórias, acaba mudando completamente, dando origem a um show de horrores, e que ficaram conhecidos como fantasmagoria.

Por se tratar de uma ilusão, era comum a presença de mágicos, que acompanhavam o espetáculo e o funcionamento das lanternas e alguns até que se apresnetavam junto com a lanterna, ainda que o espetáculo funcionasse na maior parte das vezes tendo nada a ver com a mágica.

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O NASCIMENTOS DOS FANTASMAS

A Revolução Francesa, com suas muitas mortes, guilhoitinas e demais atrocidades, foram o cenário perfeito para a geração dessas sensações macabras. E o interesse do público pelo macabro inerente à Revolução, incentivou grandemente a execução desses shows de fantasmas.

Tudo começa no auge da Revolução Francesa, quando chega em Paris o físico belga Étienne-Gaspard Robert (1763-1837), mais conhecido como Robertson, e que teve uma engenhosa ideia: a produção de fantasmas ópticos.

 

Desenho de perfil de Étienne-Gaspard Robert

(clique na imagem para ampliar)

O porém é que já haviam alguns fabricantes de fantasma em Paris como Cagliostro e Mesmer. Porém o diferencial de Robertson, além de ser um estrangeiro desconhecido, era que ele, de fato, era um entendido na ciência e na óptica, além de se proclamar um possuídor de poderes ocultos.

Alguns historiadores afirmam que Robertson era, na verdade, um plagiador. Ele haveria se apossado da ideia de um alemão chamado Paul Philidor ou Philipsthal, que havia apresnetado um espetáculo de fantasmagoria em Paris poucos dias antes da morte do Rei Luís XV. Além disso, Philip era dono de um museu de curiosidades sobre ótica, mecânica e automatos. verdade ou não, o fato é que o show de Robertson era uma vedadeira experiência sobrenatural.

 

Cartazes anunciando shows de fantasmagoria: à esquerda, o cartaz de Robertson de um show em Londres; à direita um cartaz de Philipsthal

(clique na imagem para ampliar)

Étienne, que ao menos sabia se promover, inundou Paris com cartazes propagandeando a si próprio. Tamanho foi o sucesso de sua divulgação que o lugar marcado para a sua apresentação, um pequeno teatro de 70 lugares, ficou sem espaço para o tanto de pessoas que compareceram.

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O SHOW

Poultier, um repórter local, escreveu acerca daquele espetáculo. Nesta nota Poultier conta que o belga colocava em um braseiro em chamas dois vasos cheios de sangue, algumas substâncias químicas e algumas folhas do periódico “Jornal dos Homens Livres” (um jornal republicano da época) fazendo aparecer por entre a fumaça produzida um horrível fantasma coberto por uma capa vermelha, representando a liberdade segundo consta, e armado com um punhal, para logo desaparecer, tão misteriosamente quanto apareceu.

 

 

Fantasmas aparecendo por cima do público. Repare nos braseiros gerando a fumaça por onde aparecem os fantasmas.

(clique na imagem para ampliar)

A seguir um jovem da plateia se levanta e solicita ver o fantasma de sua amada já falecida; o jovem então mostra um retrato dela para Robertson. O físico repete outra vez a operação no brazeiro e eis que surge o busta da jovem, com seus cabelos fluuando no ar e sorrindo para o seu amado.

A notícia toda é bastante extensa. Mas o exposto aqui já é o bastante para imaginarmos o tamanho do impacto que esta notícia deve ter causado nos leitores da época.

Como já foi dito, o lugar marcado para as apresentações era deveras pequeno para o sucesso de Robertson que logo conseguiu mudar-se junto com seus fantasmas e seus aparatos para um lugar mais amplo e, por acaso do destino, um lugar com “espírito” para tais apresentações: um velho e abandonado convento capuchinho, próximo à Praça de la Vendome, em Paris. Esta nova locação foi a grande alavanca no marketing de suas apresentações.

Os espectadores que chegavam eram conduzidos através de corredores escuros rodeados de antigas tumbas e lápides mortuárias. O cenário não podería ser mais perfeito. Era um grande show de imagens e sensações.

Se as projeções por si só, já aterrorizavam a audiência, o ambiente tétrico as pontecializavam ainda mais. A isso, ainda foram acrescentados sons ambinetes de trovões, sinos, correntes e outros sons dessa linha.

E o terror não parava por aí. Alguns ajudantes caminhavam entre as trevas da cripta, com lanternas presas em seus corpos, o que produzia outros efeitos sobrenaturais, como o de espíritos, ou fantasmas caminhando e cercando ao público.  Alguns dos espectadores nem se atreviam a olhar as projeções. Outros tantos acabavam por sair do teatro correndo, tamanho era o medo incutido pela fantasmagoria de Robertson.

Se levarmos em conta que, ainda hoje, viramos a cara em certas cenas de terror, e consideranod ainda que para aquelas pessoas, a fantasmagoria era o equivalente ao nosso cinema, podemos vislumbrar, ainda que em parte, o tamanho do espanto e do medo, causado por tais espetáculos.

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COMO FUNCIONAVA A FANTASMAGORIA?

Como dito antes, a base da fantasmagoria estava nas “Lanternas Mágicas”. Os fantasmas e demônios eram pintados sobre placas de vidro e depois projetadas. Porém, enquanto nos espetáculos convencionais os espectadores ficavam entre a lanterna e a tela de projeção, na fantasmagoria, era a tela que ficava entre os espectadores e a lanterna, ou seja, esta ficava oculta aos espectadores, o que conferia mais mistério ao show.

 

 

Posição das partes durante a apresentação. Observe como o fantascópio permanece oculto do público.

(clique na imagem para ampliar)

Robertson usava uma Lanterna especial montada sobre rodas, o qual denominou “Phantascope” ou, em tradução livre, Fantascópio.

 

 

Fantascópio em funcionamento. Observe a presença de rodas no aparelho.

(clique na imagem para ampliar)

Movendo a lanterna para mais perto ou mais próximo da tela, as imagens se deformavam, aumentando ou ampliando conforme a distância da tela, em questão de segundos.  O efeito final era bastante similar ao que hoje chamamos de “zoom”. Os espectadores, embasbacados, observavem como a figura crescia rapidamente, dando a impressão de avançar para cima do público, para, em segundos, transformar-se em pequenos “anões”.

 

 

Fantascópio original.

(clique na imagem para ampliar)

O mecanismo foi tão engenhosamente desenhado, que permitia que as lentes mantivessem as imagens em foco a intensidade da luz, qualquer que fosse a distância entre a lanterna e a tela.

 

 

Dispositivo inserido no fantascópio a ser projetado.

(clique na imagem para ampliar)

E por vezes, era a fumaça que se fazia passar por tela. Ao fabricar fumaça e direcionar o Fantascópio para esta densa neblina, o resultado era a clara impressão de uma imagem flutuando no ar.

 

 

Exemplo do efeito de movimento.

(clique na imagem para ampliar)

Em 1847 alguns cientistas escreveram um livro onde apresentavam cerca de 400 experimentos científicos com fins de entretenimento. Entre os números apresnetados, estava a Lanterna Mágica e a Fantasmagoria, explicando inclusive como fazer pincéis finos para a pintura das placas de vidro e como montar todo o equipamento.

Na figura abaixo tomada do livro, pode-se observar como criar uma imagem fantasmagórica sobre um suporte, queimando incenso para gerar a fumaça, no melhor estilo das projeções a laser atuais.

 

 

Projeção do fantascópio sobre a fumaça.

(clique na imagem para ampliar)

 

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FONTES

 

Texto base:

http://historiaycuriosidadesdelilusionismo.blogspot.com/2009/09/fantasmagoria.html

 

Mais imagens e textos complementares:

http://users.telenet.be/thomasweynants/assaulted.html

http://www.jstor.org/pss/3815390

http://www.magiclantern.org.uk/history/history7.html

http://en.wikipedia.org/wiki/Phantasmagoria

http://www.acmi.net.au/AIC/PHANTASMAGORIE.html

http://www.magiclantern.org.uk/history/history6.html

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É isso. Espero de coração que tenham gostado. Particularmente aprendi muito com esse post. Principalmente essa questão de não gerar apenas entretenimento, ou algo bonito para o espectador ver, mas sim buscar gerar uma experiência, uma vivência em todos os sentidos.

Amplexos!


SEUS OLHOS PODEM REVELAR O NÚMERO QUE VOCÊ ESTÁ PENSANDO

Artigo publicado na revista Current Biology

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Apesar da aparente simplicidade em se escolher um número aleatório, é praticamente impossível produzir uma sequência de números realmente aleatórios. Ainda que os números surjam, aparentemente de forma espontânea na mente de alguém, sua escolha sempre será influenciada por números gerados anteriormente.

Vemos aqui como os olhos e sua posição nos dão uma ideia do tipo de decisão sistemática feitas pelo “gerador de números aleatórios do cérebro”. Ao medir a posição vertical e horizontal do olho de uma pessoa, somos capazes de predizer com precisão o “tamanho” do número escolhido pelo espectador, antes mesmo que ele o diga em alta voz.

Podemos dizer seguramente que uma mudança para a esquerda e para baixo dos olhos prediz que o número seguinte será menos que o anterior. Da mesma forma, se os olhos mudam de posição para a direita e para cima, prevemos que o próximo número será maior. Este fato, além de apoiar o conceito popular de que os olhos delatam a mente, os resultados atestam os vínculos complexos entre os processos de pensamento abstrato, as ações do corpo e o mundo que nos cerca.

(A) O gráfico em barra mostra a acuidade horizontal e vertical da posição dos olhos quando um indivíduo escolhe um número maior ou menor do que o número predito.(B, C) mudanças na posição dos olhos (dados agrupados) em função da mudança da magnitude do número (número aleatório gerado em tentaivas 'n+1' menos o número gerado na tentaiva 'n'). (B) Mediana das variações de posição horizontal; (C) Mediana das variações verticais de posição.

(Clique na imagem para ampliá-la)

Os sujeitos nomearam 40 números aleatórios compreendidos entre 1 e 30. As mudanças na posição ocular destes individuos indicavam, não apenas a mudança para mais ou para menos dos números gerados, mas também quão maior, ou menor, era essa mudança.

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O ponto mais interessante desta pesquisa, ao meu ver, é demonstrar como a representação dos processos mentais. Em um trecho deste trabalho, os autores escrevem:

Uma influente teoria – a ‘teoria da magnitude’ – considera a informção coordenada em um ‘número-espaço’ como sendo apenas uma das instâncias de magnitude dentro de sistema métrico único, unificando uma ampla gama de unidades que vão desde a extensão espacial até duração temporal. É postulado que este sistema de magnitude geral é mediado pela estrutura parietal inferior do cérebro e que codifica informações usada nas ações. Esta hipóstese prediz com sucesso interações entre números e movimentos direcionados da mão. Por exemplo, revelar números grandes ou pequenos alteram a força com que alguém fecha a mão (respectivamente mais forte ou mais fraco) quando essa pessoa está, por exemplo, negociando”.

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COMENTO:

Essa pesquisa é deveras interessante, porém não significa que somos capazes de “ler os pensamentos alheios”. Segundo os gráficos demonstrados, a precisão de uma previsão ficaria, na melhor das hipóteses em torno dos 75% . No mais, o tempo de reação do olho é de meio segundo, ou seja, da teoria para a prática, há ainda um longo caminho. Por isso, a maneira mais fácil ainda de se prever um número é usando um “force“.

Mas o mérito é mostrar como um bom mentalista precisa saber ler os sinais enviados pelo espectador.

Amplexos!

FONTES

Artigo completo (em inglês. Requer conhecimento de termos técnicos)

Current Biology


CONTAGEM ELMSLEY OU “EDWARD VICTOR”?

Alguma vez na vida, todo o mágico já executou uma contagem Elmsley. O nome desse famoso passe recebeu esse nome em homenagem a Alex Elmsley, criador da técnica.

Mas, o que pouquíssima gente sabe é que na realidade a contagem “quatro como quatro”, é uma variação de um outro passe, fruto da originalidade de um mágico chamado Edward Victor, criador do passe.

Experimente perguntar aos seus amigos cartomagos e muitos dirão que jamais ouviram falar de tal nome. Não que tenham a obrigação de conhecê-lo. Porém, a história deu poucos créditos àquele que desenvolveu a contagem Elmsley. Pois neste post, vamos não só apresentar este mágico, como também dar os devidos créditos a Victor.

Porém é preciso destacar que a contribuição de Alex Elmsley foi importante e não quero aqui acusá-lo de plágio ou coisa que o valha. O certo é que o crédito a Edward Victor tem sido nulo e passa quase que despercebido na maioria das publicações, escritas ou em vídeo, sobre este passe.

Como escrevi, não almejo atacar a pessoa ou a ética de Alex Elmsley. Apenas resgatar a figura do mágico Edward Victro, sem o qual, possivelmente talvez não conheceríamos a contagem “quatro como quatro”.

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A CONTAGEM  ELMSLEY

Em 1959, foi publicada pela primeira vez, por Alex Elmsley um efeito conhecido como “A Mágica das Quatro Cartas”.

A contagem “quatro como quatro” é descrita na página 173 do livro “Ultimate Secrets of Card Magic“, na mágica “Uma Variante de Vernon”, onde O Professor se frefere a esse passe como uma engenhosa adaptação de Elmsley de um movimento originado por Edward Victor em seu efeito conhecido com “E-Y-E”.

A contagem é explicada em detalhes na página 5 do livro “More Inner Secrets os Card Magic“, na mágica “Vernon Girando os Ases (Twisting the Aces).

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MAS E QUEM FOI EDWARD VICTOR?

Clique na imagem para ampliar

Edward Victor

Edward Victor nasceu em 1887 na Inglaterra com o nome Edward Victor Neuschwander. Excelente manipulador, autor de vários livros sobre o tema, e um manipulador de sombras chinesas único em seu tempo.

Inventou a mágica “Os Lenços Simpáticos” e era famoso por algumas de suas rotinas como: “As Cartas Diminuintes”, “As Onze Cartas”, mágicas com cordas, etc. Também é dele uma rotina muito famosa chamada “20 Efeitos em uma Caixa de Fósforos”.

Ele escreveu os seguintes livros:

  • Magic of the Hand” (1937)
  • More Magic of the Hands” (1938)
  • Further Magic of the Hands” (1946)

Livros de Edward Victor

Em 2004 a “Dove Publications” publicou o livro “Classic Card Tricks”, onde algumas mágicas de Edward foram publicadas.

Edward Victor se apresentou nos mais importantes teatros da Europa, e fez uma grande turnê pela África do Sul, tendo trabalhado durante quatro anos para Maskelyne no St. George’s Hall em Londres. Foi membro do Círculo Mágico, tendo alcançado o status de “Inner Magic Circle” (M.I.M.C.) e por mais de trinta anos atuou como presidente da Merlin Magical Society. Também foi o primeiro presidente honorário vitalício do Blackpool Magicians’ Club.

Victor faleceu em 17 de abril de 1964.

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O EFEITO “E-Y-E”

Este efeito criado por Edward, consistia em 3 cartas com as letras “E”, “Y” e “E”, daí o seu nome, com as quais o mágico criava uma série de efeitos surpreendentes. Dizia a propaganda da Revista Genii de 1955:

O Efeito “”E-Y-E”

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São usadas apenas 3 cartas sen truques e que podem ser dadas a exame quando os espectadores desejarem.

Podem ser realizados grandes efeitos de “close-up” e deslumbrar durante quinze minutos com as carta sem suas mãos. As 3 cartas são dispostas formando a palavra “EYE” [olho em inglês].

Abrindo um leque e com os dorsos voltados para cima, se solicita que o espectador retire a letra “Y”, mas o público nunca acertará, retirando sempre a letra “E”.

Explicando que a mão é mais rápida que o “olho”, o mágico mostra claramente que agora tem em suas mãos 3 cartas com a letra “E”.

Mostra novamente as cartas, e se observa que agora as 3 possuem estampada a letra “Y”.

Duas delas se transformam visivelmente em letras “E”, formando como no princípio, a palavra “EYE”. Uma das cartas “E” se separa e se deixa sobre a mesa.

Das duas restantes (“E” e “Y”) se solicita que o espectador retire a letra “Y”, mas falha novamente por que as duas cartas tem estampada a letra “E”, já que carta separada anteriormente era o “Y”!

Mudando a impressão das letras mencionadas (“E”, “Y”, “E”) por outras ou então usando cartas personalizadas, você poderá criar rotinas diferentes com o mesmo princípio.

O preço deste efeito? US$ 1,00!”

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Na Inglaterra, Ken Brooke comercializou a mágica “E-Y-E” e alguns anos mais tarde apenas foi que a conatgem Elmsley começou a ser conhecida.

Karl Fulves no volume 2 de seu livro “Methods with Cards” também menciona a mágica “E-Y-E” como fonte da contagem.

E esta é a origem da famosa e sempre útil contagem Elmsley ou “quatro como quatro”.

Amplexos!

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

http://en.wikipedia.org/wiki/Edward_Victor

http://geniimagazine.com/wiki/index.php?title=Edward_Victor

http://historiaycuriosidadesdelilusionismo.blogspot.com/2009/11/cuenta-elmsley-y-el-credito-para-edward.html

http://magicref.tripod.com/bookssz/victormagichands.htm

http://magicref.tripod.com/bookssz/victormoremagichands.htm

http://magicref.tripod.com/bookssz/victorfurthermagichands.htm


ILUSTRES DESCONHECIDOS

Em homenagem ao dia do mágico (hoje, dia 31/01), resolvi homenagear os mágicos de uma forma diferente: Resgatando alguns números clássicos de palco que fizeram sucesso há muitos anos atrás e que hoje são completamente desconhecidos. Foram eleitas rotinas, que ealém de uma boa descrição, tivessem imagens do efeito que o espectador observava. Secretamente, é minha forma de  estimular os novos mágicos através da máxima: “Se quer mágicas novas, procure em livros velhos”.

É interessante observar que os números antigos eram consoantes com o “zeitgeist” daquela época. Em um tempo onde o espirítismo era deveras latente, e por que não dizer, era moda entre a elite da época invocar espíritos, os mágicos souberam usar isso a seu favor, criando números que beiravam o sobrenatural, e algumas vezes até se confudiam com as próprias sessões espíritas, como o número “A Invocação dos Espíritos”, onde esqueletos e fantasmas surgiam e desapareciam do palco ao comando do mágico.

Abaixo selecionei alguns números clássicos que tivessem, além da descrição, uma representação gráfica do efeito. A ideia é mostrar um pouco do espírito daquela época, da atmosfera que cercava a mágica e os mágicos. E a qual, eles souberam aproveitar muito bem.

Lembrando que basta clicar na imagem para ampliá-la.

A MEIA PESSOA

Este número é uma variante do também clássico “A cabeça-falante”, onde uma cabeça humana, posta sobre uma bandeja em uma mesa, conversava com a platéia.

Em uma pequena galeria, com cortinas de ambos os lados, flores, abajures, etc. E de ambos os lado, dois corrimões completam o cenário.  Uma pessoa repousa sobre um aparador em cima de uma mesa. O detalhe, é que esta pessoa não possui os membros inferiores. A bem da verdade, do umbigo para baixo não há nada além do aparador e da mesa, que pode ser observada vazia por entre as suas pernas.

Esta meia pessoa, está viva, bem e interage com o público, que pode inclusive se aproximar da meia pessoa. Realmente um número clássico, e na minha opinião, lindo.

METEMPSICOSE

Metempsicose, segundo o Dicionário Houaiss, é “movimento cíclico por meio do qual um mesmo espírito, após a morte do antigo corpo em que habitava, retoma à existência material, animando sucessivamente a estrutura física de vegetais, animais ou seres humanos; reencarnação“; ou seja, uma alma animando um objeto inanimado. E é exatamente essa a descrição do efeito.

Uma armadura medieval é colocada no palco com suas partes desmontadas. Um assistente sobe ao palco e começa a limpar e montar a armadura. Assim que ele termina e se afasta da peça, a armadura ganha vida, e começa a perseguir o assistente por todo o palco, cutucando-o e mexendo com ele, até o momento em que ela volta à posição inicial no palco. O assistente, morto de medo,  chama o mágico para mostrar o ocorrido, mas a armudura está outra vez inanimada. O mágico então desmonta a armadura, peça por peça e encerra o número zombando da cara do assistente, enquanto retira ele do palco.

O PALANQUIM MÁGICO

Palanquim é uma espécie de liteira, uma “cama” com quatro hastes, outrora muito comum na região da Índia e da China, onde os nobres eram levados por quatro escravos (um cada haste). O palanquim ia supenso apoiado no ombro desses escravos.

Este é um efeito simples, clássico, e por isso mesmo muito belo e intrigante. Um palanquim é trazido ao palco por quatro escravos, com uma assitente repousada nele. As cortinas do palanquim se fecham e após serem abertas a assistente desaparecia. A seguir, os escravos se retiravam do palco.

O grande diferencial desse número à sua época era o fato de o palanquim ficar o tempo todo suspenso pelos quatro escravos, a mais de 1,5 metro do chão, sendo possível inclusive observar a parte inferior do palanquim.

A ARCA DE NOÉ ou APÓS O DILÚVIO

Confesso que fiquei muito desejoso de postar a imagem deste truque revelado, dado a beleza e a sutileza do segredo desse núemro. omo este não é de forma alguma o objetivo do blog, peço ao leitor que use toda a sua imaginação ao ler a descrição do efeito dessa mágica.

A rotina consiste em uma grande caixa, no formato de um barco (ou arca, se preferir) que é trazida ao palco e colocada sobre alguns cavaletes (ou seja, a parte de baixo fica completamente visível ao espectador). O mágico e seu assistente mostram que a caixa está completamente vazia: eles abaixam as tampas frontais e posteriores da caixa-arca , bem como as tampas das partes curvas (em forma de proa e popa).

Então, eles fecham as tampas e começam a encher a caixa-arca de água, através de um funil. Assim que uma quantidade suficiente de água foi colocada na caixa-arca, o mágico abre as janelas da caixa-arca coloca a sua mão lá dentro e começa a retirar galinhas, pombos, patos, cachorros, gatos e quaiquer outros animais que sejam da vontade do mágico.

A seguir, a tampa frontal da caixa é aberta e uma assitente aparece lá dentro. A beleza da mágica está em não haver espaço suficiente para todos (animais e assistente) dentro da caixa-arca, e mais do que isso, pelo fato de todos saírem completamente secos da arca.

STELLA

Essa, com certeza, foi a rotina que mais me impressionou. Tentei visualizar a cena e imaginar este como um número de abertura e, admito,  fiquei completamente abismado.

Um pequeno palco é ladeado por duas cortinas negras. No centro, apenas a cabeça flutuante de uma mulher (sendo o nome da rotina “Stella”, presume-se que seja este o nome da cabeça de mulher). Ela está viva e conversa com o público. Ela chega inclusive a reclamar do colar que ela usa, achando um tanto “brega”.

Quando o mágico “se cansa” de Stella, ele pede que ela assopre uma vela e a seguir retira a vela do palco, por alguma das cortinas laterias. Por fim, o mágico anuncia à plateia que vai abrir um painel abaixo de onde pairava a cabeça da mulher para mostrar que ela não possui corpo. Ele assim procede e abaixo da cabeça da mulher estão uma mesa com uma vela; a mesma vela que ela assoprou.

Só peço desculpas aos leitores do blog por não citar a fonte de onde tirei estas belíssimas imagens, uma vez que este site é um site pró-exposure.  Peço que entendam.

Abraços!


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