Arquivo da categoria: Biografias

A ESTRANHEZA DE LAFAYETTE

Texto retirado do livro “Sensational Tales of Mystery Men” por Will Goldston publicado pelo próprio Will Goldston em 1929 e traduzido por mim.

As imagens que ilustram esse post não se encontram no texto original.

-x-

Clientes do meu escritório frequentemente me perguntam sobre uma grande pintura a óleo que fica de frente para a minha mesa. O tempo tornou a pintura mais escura que originalmente fora concebida, mas ela ainda mantém sua imponência que chama a atenção.  Essa pintura mostra um homem magro, em torno dos 50 anos usando óculos “pince-nez”, seu queixo repousado sobre sua mão esquerda e seus olhos vidrados em algum ponto perdido do espaço. Há algo de estranho em seu rosto; uma expressão difícil de descrever. Você começa a ficar inquieto sob seu inexorável olhar, como se o homem na pintura estivesse olhando para dentro de você, perscrutando seus mais íntimos segredos. Muitos de meus visitantes se ressentem deste exame silencioso.

Quem é o homem?” eles perguntam.

Lafayette”, eu respondo

E então talvez, seus olhos irão mirar uma grande espada em uma redoma de vidro que fica acima da minha cabeça. É curioso como o subconsciente parece conectar a espada com o retrato de Lafayette, eles ficam em extremos opostos da sala, mas quase sempre percebo as pessoas olhando, inconscientemente, de um para outro.

Essa é a espada de Lafayette”, eu digo a eles. “Foi encontrada junto de seu corpo carbonizado no palco do Teatro Imperial em Edimburgo. Foi dada de presente a Harry Houdini, que pó sua vez, passou ela para mim”.

Conte a história toda”, eles me pedem.

Então eu conto.

Pintura de Lafayette, descrita por Will Goldston

 

Lafayette foi o mais odiado de todos os mágicos que já viveram. E isto soa estranho, uma vez que, foi ele quem estabeleceu um novo patamar entre os artistas da mágica: artistas de primeira classe com salários astronômicos. Ele provou aos gerentes do Holborn Empire, um grande teatro da época, que era digno das quinhentas libras semanais que cobrava como salário, ao lotar o teatro por uma quinzena inteira e obter altos lucros com seu show.

Lafayette era anti-social a ponto de ser rude, e por esta razão foi universalmente execrado. Suas constantes recusas em se encontrar com colegas mágicos, tanto na Europa como na America, fizeram dele uma figura muito impopular, agraciado por onde quer que passasse com o mais puro e sincero desprezo.

Eu sempre acreditei que, na verdade, ele tinha medo de encontrar seus colegas ilusionistas. Seu conhecimento das artes mágicas era insignificante e, ao invés de demonstrar a sua ignorância profissional a outros mágicos, já que era um eminente mágico, ele acabava preferindo a sua própria companhia.

Como ilusionista ele era maravilhoso, e suas apresentações, eu classifico serem do mesmo nível de Houdini e John Nevil Maskelyne. Somente aqueles que viram esses dois em seu apogeu podem imaginar quão grandiosos eram tais shows. Mas a habilidade de iludir no palco não significa, necessariamente, conhecimento da mágica real. E neste conhecimento, Lafayette estava em falta.

Ele era, pura e simplesmente, um ilusionista mecânico. Ele era esperto o bastante para construir diferentes programas (gimmicks) para qualquer mágica apresentada em seu tempo, e foi desse modo, que construiu a sua reputação. “Isso deve ser espetacular!” era o seu lema, e ele o seguia à risca. Seu ato era tipificado pelo cenário deslumbrante, pelas vistosas cortinas e pela música sempre muito alta e comovente.

Lafayette veio de uma trupe alemã e começou sua carreira como um artista cênico. Por certo que foi essa a razão do seu grande apreço pelas ilusões. Eu nunca soube como ele acabou por adotar a mágica como profissão, mas sem dúvida sua posição como um pintor de cenários teatrais foi quem despertou nele tal desejo.

Ele era chamado de excêntrico. Isso é um grande eufemismo. Eu o considero um louco. Ele tratava suas assistentes de palcos como soldados e ordenava que elas o saudassem nas ruas. Uma vez, ele comprou um colar de diamantes para sua cachorrinha. Ele também pagava todas as suas contas com cheques, não importando se o valor da compra fosse de apenas alguns centavos. Um homem que faz todas essas coisas, eu repito, deve ser louco.

Seu cachorrinha “Bela” era a sua grande fraqueza. Era esse o animal que aprecia desenhado em todos os seus cheques e contratos de teatro. Um banheiro especial para Bela foi construído na casa de Lafayette em Torrington Square, e todas as noites o animal era servido com uma completa refeição quente, que ia desde sopas como entrada até doces de sobremesa. Um retrato de Bela ficava do lado de fora da casa com uma estranha frase escrita debaixo da figura: “Quanto mais eu conheço os homens, mais eu amo o meu cachorro”.

 

O Mágico Lafayette e sua cachorrinha Bella

Lafayette era um grande empreendedor e recorreu à publicidade mais irritante que eu já conheci em toda a minha vida: Ele mandou imprimir fotos com seu nome escrito em papéis com grude na parte de trás, e mandava colar estas fotos nas paredes internas e externas dos banheiros públicos nas cidades em que ele iria se apresentar. Esse procedimento lhe trouxe mais problemas do que benesses.

Ele era também um pugilista, como acabou descobrindo da pior maneira o Sr. Inglish de Chicago. Quando Lafayette foi se apresentar naquela cidade, acabou se tornando muito amigo de uma moça jovem e bonita e cujo marido, nada sabia a respeito desse “affair”. É possível imaginar claramente a surpresa desse homem quando, ao entrar em um restaurante, viu sua esposa, que mais parecia um manequim de desfile, tamanha sua produção, almoçando com o grande mágico.

Então é isto que ela faz?” pensou o Sr. Inglish. “Vou ver o que está acontecendo.” Ele se aproximou de Lafayette e com um tapinha no ombro disse ao mágico:

Você sabia que essa dama é minha esposa?

E daí?”, retrucou Lafayette, não dando a mínima atenção ao homem atrás dele.

E o que você diz de levá-la para jantar sem a minha permissão?

Lafayette não respondeu, ao invés disso, mandou um incrível soco direto no queixo do Sr. Inglish. Foi a maneira mais fácil de acabar com aquela discussão. O marido caiu nocauteado no ato e, quando acordou, foi questionado por que importunara uma pessoa tão importante como Lafayette. E assim ficou a fama deste marido enganado.

Quantas pessoas sabem da verdade sobre a morte de Lafayette: Poucas, eu deduzo. Ele foi queimado até a morte no desastre que houve no Teatro Imperial de Edimburgo em 9 de maio de 1911. A lenda que se conta é que ele conseguiu fugir do incêndio, mas acabou voltando para dentro do teatro a fim de salvar seu cavalo branco que permaneceu no teatro. Há pouca verdade nesta lenda.

O que de fato aconteceu foi isto: Lafayette sempre insistiu que a “porta de passagem” – uma pequena porta de ferro que liga os estábulos às laterais do palco do teatro – deveriam permanecer trancadas durante o seu show. Esta ordem servia para que intrusos não invadissem o teatro e acabassem talvez descobrindo o segredo de suas ilusões. Uma condição estúpida, e que acabou lhe custando a vida.

 

Cartaz do show de Lafayette no Tetaro Imperial de Edimburgo

Quando o incêndio começou no palco, ele correu até a porta de passagem para facilitar sua saída do teatro.  Ele havia se esquecido de sua própria ordem de trancar essas portas. Antes que pudesse se dirigir a outra saída, o palco estava imerso em chamas e fumaça e, derrubado pela fuligem, calor e fumaça, acabou caindo, inconsciente. Quando seu corpo foi resgatado, estava irreconhecível.

 

Lápide do "Grande Lafayette", no cemitério em Glasgow

-x-

Para saber mais sobre Lafayette:

El Gran Lafayete“, no blog de Jose María Palma (Espanhol)

Each Man Kills the Thing He Loves” no blog “Strange Flowers” (Inglês)

Weird Magicians of Brooklyn” no blog “Weird Brooklyn” (Inglês)

Was It He The Great Lafayette?” no site “Edinburgh 1 o’clok Gun” (Inglês)

OBS: Todas as imagens foram retiradas dos links acima.


CONTAGEM ELMSLEY OU “EDWARD VICTOR”?

Alguma vez na vida, todo o mágico já executou uma contagem Elmsley. O nome desse famoso passe recebeu esse nome em homenagem a Alex Elmsley, criador da técnica.

Mas, o que pouquíssima gente sabe é que na realidade a contagem “quatro como quatro”, é uma variação de um outro passe, fruto da originalidade de um mágico chamado Edward Victor, criador do passe.

Experimente perguntar aos seus amigos cartomagos e muitos dirão que jamais ouviram falar de tal nome. Não que tenham a obrigação de conhecê-lo. Porém, a história deu poucos créditos àquele que desenvolveu a contagem Elmsley. Pois neste post, vamos não só apresentar este mágico, como também dar os devidos créditos a Victor.

Porém é preciso destacar que a contribuição de Alex Elmsley foi importante e não quero aqui acusá-lo de plágio ou coisa que o valha. O certo é que o crédito a Edward Victor tem sido nulo e passa quase que despercebido na maioria das publicações, escritas ou em vídeo, sobre este passe.

Como escrevi, não almejo atacar a pessoa ou a ética de Alex Elmsley. Apenas resgatar a figura do mágico Edward Victro, sem o qual, possivelmente talvez não conheceríamos a contagem “quatro como quatro”.

-

A CONTAGEM  ELMSLEY

Em 1959, foi publicada pela primeira vez, por Alex Elmsley um efeito conhecido como “A Mágica das Quatro Cartas”.

A contagem “quatro como quatro” é descrita na página 173 do livro “Ultimate Secrets of Card Magic“, na mágica “Uma Variante de Vernon”, onde O Professor se frefere a esse passe como uma engenhosa adaptação de Elmsley de um movimento originado por Edward Victor em seu efeito conhecido com “E-Y-E”.

A contagem é explicada em detalhes na página 5 do livro “More Inner Secrets os Card Magic“, na mágica “Vernon Girando os Ases (Twisting the Aces).

-

MAS E QUEM FOI EDWARD VICTOR?

Clique na imagem para ampliar

Edward Victor

Edward Victor nasceu em 1887 na Inglaterra com o nome Edward Victor Neuschwander. Excelente manipulador, autor de vários livros sobre o tema, e um manipulador de sombras chinesas único em seu tempo.

Inventou a mágica “Os Lenços Simpáticos” e era famoso por algumas de suas rotinas como: “As Cartas Diminuintes”, “As Onze Cartas”, mágicas com cordas, etc. Também é dele uma rotina muito famosa chamada “20 Efeitos em uma Caixa de Fósforos”.

Ele escreveu os seguintes livros:

  • Magic of the Hand” (1937)
  • More Magic of the Hands” (1938)
  • Further Magic of the Hands” (1946)

Livros de Edward Victor

Em 2004 a “Dove Publications” publicou o livro “Classic Card Tricks”, onde algumas mágicas de Edward foram publicadas.

Edward Victor se apresentou nos mais importantes teatros da Europa, e fez uma grande turnê pela África do Sul, tendo trabalhado durante quatro anos para Maskelyne no St. George’s Hall em Londres. Foi membro do Círculo Mágico, tendo alcançado o status de “Inner Magic Circle” (M.I.M.C.) e por mais de trinta anos atuou como presidente da Merlin Magical Society. Também foi o primeiro presidente honorário vitalício do Blackpool Magicians’ Club.

Victor faleceu em 17 de abril de 1964.

-

O EFEITO “E-Y-E”

Este efeito criado por Edward, consistia em 3 cartas com as letras “E”, “Y” e “E”, daí o seu nome, com as quais o mágico criava uma série de efeitos surpreendentes. Dizia a propaganda da Revista Genii de 1955:

O Efeito “”E-Y-E”

-

São usadas apenas 3 cartas sen truques e que podem ser dadas a exame quando os espectadores desejarem.

Podem ser realizados grandes efeitos de “close-up” e deslumbrar durante quinze minutos com as carta sem suas mãos. As 3 cartas são dispostas formando a palavra “EYE” [olho em inglês].

Abrindo um leque e com os dorsos voltados para cima, se solicita que o espectador retire a letra “Y”, mas o público nunca acertará, retirando sempre a letra “E”.

Explicando que a mão é mais rápida que o “olho”, o mágico mostra claramente que agora tem em suas mãos 3 cartas com a letra “E”.

Mostra novamente as cartas, e se observa que agora as 3 possuem estampada a letra “Y”.

Duas delas se transformam visivelmente em letras “E”, formando como no princípio, a palavra “EYE”. Uma das cartas “E” se separa e se deixa sobre a mesa.

Das duas restantes (“E” e “Y”) se solicita que o espectador retire a letra “Y”, mas falha novamente por que as duas cartas tem estampada a letra “E”, já que carta separada anteriormente era o “Y”!

Mudando a impressão das letras mencionadas (“E”, “Y”, “E”) por outras ou então usando cartas personalizadas, você poderá criar rotinas diferentes com o mesmo princípio.

O preço deste efeito? US$ 1,00!”

-

Na Inglaterra, Ken Brooke comercializou a mágica “E-Y-E” e alguns anos mais tarde apenas foi que a conatgem Elmsley começou a ser conhecida.

Karl Fulves no volume 2 de seu livro “Methods with Cards” também menciona a mágica “E-Y-E” como fonte da contagem.

E esta é a origem da famosa e sempre útil contagem Elmsley ou “quatro como quatro”.

Amplexos!

-

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

http://en.wikipedia.org/wiki/Edward_Victor

http://geniimagazine.com/wiki/index.php?title=Edward_Victor

http://historiaycuriosidadesdelilusionismo.blogspot.com/2009/11/cuenta-elmsley-y-el-credito-para-edward.html

http://magicref.tripod.com/bookssz/victormagichands.htm

http://magicref.tripod.com/bookssz/victormoremagichands.htm

http://magicref.tripod.com/bookssz/victorfurthermagichands.htm


THOMAS DENTON: UM CONTROVERSO

Thomas Denton era uma pessoa controversa. Sua fama não se deve à mágica; mas sim aos mágicos com os quais trabalhou. Por isso, para conhecer Thomas Denton, é preciso falar primeiro destes outros personagens.

_

 

“O ILUSIONISTA DESMASCARADO”

Final do século XVIII. Dois mágicos estão em forte discórdia. De um lado o mágico italiano Pinetti. Do outro um advogado e mágico entusiasta, o francês Henri Decremps. Num golpe baixo e cruel, Decremps publica o livro “La Magie Blanche Devoilée“, algo como “A Magia Branca ao Descoberto”, onde expôs todos os segredos das mágicas de Pinetti.

A esta briga voltaremos em um post futuro. Importa-nos aqui saber que o livro teve um êxito surpreendente. tanto que foi traduzido para vários idiomas. A versão inglesa do livro chamou-se “The Conjurer Unmasked” (O Conjurador Desmascarado), e foi editada e publicada por nosso amigo Thomas Denton.

Thomas foi o tradutor e editor do livro, e ainda escreveu no prefácio do livro que esta edição vinha com vários anexos e comentários de sua autoria e de algumas outras pessoas.

 

Prefácio do livro "The Conjurer Unmasked" por Thomas Denton(Clique na imagem para ampliar)

Thomas publicou as edições de 1785, 1788 e 1790 desta obra, a qual podia ser adquirida na livraria do próprio Thomas.

_

 

 

O LEITO CELESTIAL

Outros personagens “intrigantes” do século XVIII se valeram dos serviços de Thomas Denton.

Gustavus Katterfelto era um conhecido cientista e ocultista, o qual, se denominava “Doutor”. Além disso, andava sempre estava acompanhado por um gato negro. Alguns historiadores classificam Gustavus como um charlatão. Outros o reconhecem como um cientista excêntrico.

Fosse o que fosse, o fato é que Gustavus tinha um rival a altura. Um escocês que também se denominava “Doutor” chamado James Graham, este sim um vigarista de primeira linha.

Dr. Graham era um misto de médico, sexólogo, terapeuta e showman. Seus muito “artifícios” incluiam “O Templo da Saúde”, uma antiga mansão repleta de aparatos elétricos e magnéticos, cujos pacientes eram tratados com musicoterapia, eletrochoques, correntes magnéticas e um sem número de outros aparatos.

Dr. James Graham em uma de suas "apresentações"

Mas o mais curioso era o “Templo de Himen” e o famoso “Leito Celestial”, um aparato destinado a todos os casais que não podiam conceber filhos.

O Dr. escocês assegurava aos seus pacientes que ao deitarem-se na leito e cumprirem com as obrigações do casamento, ao fim de 9 meses conceberiam o bendito herdeiro. E mais, prometia-lhes que a criança nasceria perfeita.

Obviamente um serviço desses não saia de graça. A cada noite em que um casal quisesse usar o Leito Celestial, deveriam desembolsar 100 libras (lembre-se que no século 18 este valor era uma equena fortuna).

O leito em si era uma mobília fantástica. Toda ela trabalhada na madeira e composta por decalques dourados e toda a sorte de ornamentos imagináveis. O Leito era suspendido por 28 pilares de cristal e possuia cortinas de seda em tom carmesin e bordas luxuosamente adornadas. Uma verdadeira obra de arte. Seu custo estimado era de 12.000 libras.

E quem construiu este leito? Thomas Denton. Foi ele quem desenhou e construiu este aparato fantástico e “mágico”.

Esquema de funcionamento do "Leito Celestial"

(Clique na imagem para ampliar)

_

 

OS AUTÔMATOS DE DENTON

Como visto, Thomas Denton, além de livreiro era um exímio artesão. Na verdade, sua habilidade no trabalho com metal, talvez seja sua habilidade mais proeminente, e, ironicamente, foi o que levou-lhe à forca. Mas primeiro os seus bonecos.

Thomas construia atômatos, bonecos capazes de se movimentarem sozinhos. Entre eles um boneco que falava e outro capaz de escrever. Seu primeiro boneco, dizem, nasceu enquanto Denton observava uma figura similar em 1783, criada por um artista de rua, que vendia o segredo do autômato ao preço de 50 guineas (aproximadamente 52 libras e 10 xelins).  Não se sabe se Denton comprou ou não este segredo. E certo é que construiu uma cópia do autômato, o qual utilizou em seu próprio proveito.

A descrição de venda dos autômatos informava que o boneco falante media cerca de 50 cm de altura, que podiam ser feitas perguntas em quaisquer idioma e, além disso, era possível falar com o boneco por sussurros que este responderia.

Para evitar que o público pensasse haver alguma forma de comunicação entre o autômato e o provável operador, o boneco vinha amarrado por cordas as quais podiam ser examinadas. E mais, oferecia-se o autômato a quem quisesse segurá-lo com suas próprias mãos.

Denton e seus autômatos

_

 

OUTRAS ATIVIDADES LUCRATIVAS E A MORTE

Sendo um exímio artesão de metais, Denton acabou tendo outros ofícios. Sabia operar o pantógrafo além de haver se especializado em talhagem de metal para carruagens.

Por seu ofício, Denton acabou conhecendo pessoas dedicadas a atividades “não santas” com metais, mais exatamente a falsificação de dinheiro. Denton logo tornara-se um cunhador “não-oficial” de moedas.

Sua ousadia, e por que não, sua soberba, o levarão a crer que seria capaz de conseguir uma imitação perfeita das moedas reais, e que ninguém seria capaz de distinguir suas falsificações.

Mas algo saiu muito errado, pois Denton foi descoberto e com ele suas ferramentas utilizadas na fabricação das moedas falsas. Sua pena foi dura. Foi condenado à forca. Suas habilidades e contatos, não o puderam livrar de seu terrível fim.

Foi enforcado em frente a prisão de Newgate em 1º de julho de 1789. Como último pedido, requereu papel e caneta, e escreveu a seguinte carta:

Caros Papai e Mamãe:

Quando vocês receberem esta carta eu terei partido para o lugar de onde nenhum viajante volta. Não culpem minha esposa, a melhor das mães e melhor das mulheres; e se alguma mulher foi ao céu, ela irá. Se eu tivesse seguido seu conselho, não estaria nesta situação. Deus abençoe meu pobre Dick [seu filho]. O sino está soando. Adieu!

_

 

FONTES

http://www.exclassics.com/newgate/ng367.htm

http://www.geniimagazine.com/forums/ubbthreads.php/topics/201669/The_Conjurer_Unmasked

http://historiaycuriosidadesdelilusionismo.blogspot.com/2010/01/el-habilidoso-thomas-denton-un.html

http://www.dailymail.co.uk/femail/article-1058583/Doctor-love-A-new-book-tells-tale-Dr-James-Graham-sex-clinic-scandalised-18th-century-society.html

http://en.wikipedia.org/wiki/James_Graham_(sexologist)


MULHERES DE OURO DA MÁGICA

Levante o braço quem já ouviu falar em Adelaide Herrmann. Aposto que você foi um dos que não levantaram o braço.Mas tudo bem, afinal, para a nossa própria desgraça as mulheres raramente são lembradas na mágica, a não ser como partners para serem serradas ao meio.

Mas e o que dizer de Adelaide Herrmann, Victoria Berland, Mercedes Talma, Mrs. Kellar, entre outras?  Houveram muitas mulheres, como essas citadas, que brilharam na era de ouro da mágica (1890-1930), e por isso eu as chamos de “Mulheres de Ouro da Mágica”.

Em uma época onde mulheres ainda não tinham adquirido plenamente o seus direitos, elas brilharam em cima dos palcos. “Nada no mundo da presdigitação foi tão fascinante quanto essa belíssima e talentosa mulher em seus manuseios e entretenimentos” disse o “The Daily News” de Chicago sobre a apresentação de Adelaide Herrmann em fevereiro de 1900.

Mas, voltando ao assunto, ao procurar informações sobre essas mulheres sou obrigado a ver que elas foram condenadas ao ostracismo. Obscurecidas por figuras mais proeminentes da época como Thurston, Houdini, etc. E é por isso que, mesmo depois de 100 anos, proponho aqui um resgate à memória dessas mulheres que, sem sombra de dúvida, embelezaram e contribuiram para nossa arte. No mais elas derrubam um grande mito que é propalado até hoje de que a mágica é uma arte machista e que mulher “só servia para ser serrada ao meio”.

ADELAIDE HERRMANN

Artista: Adelaide Herrmann

Título: Rainha da Mágica

Tamanho: 20 x 40 (polegadas)

Data: 1900

Litógrafo: Strobridge

Conhecida como “A Rainha da Mágica”, Adelaide Scarcez (nome de solteira) era uma dançarina de sucesso, quando aos 22 anos conheceu o mágico Alexander Herrmann em 1875. Após o casamento dos dois, uniram-se em um enorme e vistoso espetáculo. Ela dançava no show de seu marido – algo comum na época (dançarinas em shows de mágica).

Em 1896 Alexander veio a falecer o que deixou Adelaide muito triste. AMs mesmo asism ela continuou com o show. Em 1897 a “Herrmann the Great Company”, pôs-se na estrada estrelando Adelaide e Leon Herrmann, seu sobrinho. Adelaide dançava e executava alguns dos melhores números de Alexander. Ela e Leon tiveram algumas divergências e acabaram se separando em 1899.

Adelaide Herrman agora a “Rainha da Mágica” viajou com seu grande show por inúmeros lugares até se aposentar em 1928 aos 75 anos de idade. E em todos esses anos de viagem ela levava todo os aparatos e partes da cenografia, que, como pode-se ver na figura abaixo, não era pouca coisa.

Título: O Voo da Favorita

Artista: Adelaide Herrmann

Data: Aprox. 1900

TALMA

Título: Moedas nas Pontas dos Dedos

Artista: Talma

Tamanho: 20 x 30 (polegadas)

Data: 1905

Litógrafo: Friedlander

Mercedes Talma era o nome artistico de Mary Ann Ford, nascida na Inglaterra em 1861. Era casada com Servais Le Roy, seu parceiro de shows, junto com Leon Bosco, formando assim o trio “Le Roy, Talma & Bosco” e seu show “The Comedians de Mephisto Co”.

Talma era especialista em manipulações, e em espacial, manipulações de moedas. Ela era considerada a “Rainha das Moedas”, dada a sua extrema habilidade.

Diz-se que o foram os primeiros a executar a “Levitação Asrah” em Londres, isso no ano  de 1914.

VONETTA

Título: Fogo & Espada, Ilusão de Cremação

Artista: Vonetta

Tamanho: 15 x 10 (polegadas)

Data: 1915

Litógrafo: David Allen

Vonetta, nasceu Etta Ion na Inglaterra já no fins do século XIX. Foi uma das mais famosas ilusionistas de seu tempo.

Em 1906, junto de seu marido, ela estreiou no ato de Von-Etta: “O Mistério Indiscrítvel”. Mais tarde no Hipódromo de Londres ela se se auto-proclamaria como sendo “A Única Mulher Ilusionista do Mundo”. Um de seus mais famosos números era caixão flutuante, seguido de uma substituição.

Ela se retirou dos palcos em 1914 com o início da Primeira Grande Guerra, e acabou tornado-se professora de dança. Em 1924, com a fundação da Associação Escocesa dos Conjuradores, ela foi aclamada como membra honorária, e se apreentou várias vezes nos eventos da Associação, incluindo o famoso evento de abril de 1931 “Nossa Noite de Mágica” (Our Night of Magic).

AS DEMAIS DAMAS

Procurei sobre as outras mulheres desta época que também atuavam como ilusionistas, incluindo: Victoria Berland (A Imperatriz dos Presdigitadores); Abigail Price; Mohala; Celia (La Celebre Voyante); Elsa Amadria entre outras. Mas as informações são bastantes incompletas e por vezes até confusas.

Mas em homenagem à esta mulheres, segue abaixo os cartazes de seus shows.

E digo que continuarei a procurar informações sobre elas. E assim que houverem novidade, vocês, caros leitores, serão os primeiros a saber.

É isso, espero que tenham gostado.

Abraços!

Título: A Maravilhosa Mohala

Performer: Mohala (Mary Robinson)

Tamanho: 82 x 42 (polegadas)

Data: aprox. 1915

Título: Abigail Price

Data: aprox. 1905

Litógrafo: Goes Litho

Título: Celia – La Celebre Voyante

Performer: Celia

Tamanho: 31 x 23 (polegadas)

Litógrafo: Girbal

Título: Maravilhoso. Incompreensível.

Performer: Elsa Amadria

Tamanho: 36 x 58 (polegadas)

Título: Mágica & Ilusão

Artista: Miss Marianna de Lahaye

Tamanho: Uma Folha Francesa

Data: aprox. 1898

Litógrafo: Charles Levy – Paris

Artista: Victoria Berland
Título: A Imperatriz da Mágica
Tamanho: Meia-folha
Data: aprox. 1898

FONTES

Imagens :

http://www.magicgallery.com/Women%20images%20page.htm

Textos:

http://www.magicexhibit.org/story/story_adelaide.html

http://en.wikipedia.org/wiki/Talma_(magician)

http://www.geniimagazine.com/wiki/index.php/Vonetta


QUEM FOI ERDNASE? O MAIS PERSISTENTE MISTÉRIO DA CARTOMAGIA

Texto escrito por: Karl Johnson para a American Heritage Magazine - Vol 52 Issue 3.

Traduzido por: Luiz Borges, postado no Fórum Mágico Amador em 06/06/2008 ( http://www.magicoamador.com.br/forum/viewtopic.php?f=18&t=15159 )

Hoje a maioria dos mágicos conhece Dai Vernon apenas através de seus livros e de uma maravilhosa série de vídeos feita em 1982 que o mostra numa “sessão” de mais de 17 horas na mesa de cartas com três estudantes. Quando Steve Freeman, um dos estudantes mais bem sucedidos de Dai Vernon, hesita sobre uma citação de S. W. Erdnase sobre um movimento único chamado S. W. E. Shift, o Professor entra em cena, confiantemente citando a frase praticamente palavra por palavra. Na época, Vernon tinha 88 e citava – de memória – uma passagem que ele leu pela primeira vez quando garoto 80 anos antes no livro “The Expert at the Card Table“.

Embora Vernon tenha solucionado o mistério do center-deal localizando Allen Kennedy, ele nunca determinou a verdadeira identidade do autor de sua bíblia de cartomagia, que expõe em detalhes eloqüentes tantos dos passes fundamentais empregados pelos trapaceiros e mágicos. Ele não estava sozinho. O livro provou ser uma das histórias de maior sucesso das publicações americanas, assim como um dos mais intrigantes mistérios.

Realmente, no século desde que ele publicou pela primeira vez  “The Expert…”, em Chicago em 1902, o autor esquivou-se dos esforços de pesquisadores, escritores, historiadores, ex-detetives, e mágicos em encontrá-lo. “Com a mágica desfrutando de popularidade sem precedentes,” o caçador de Erdnase, David Alexander, escreveu recentemente, “com uma onda de segredos mágicos disponíveis ao público como nunca antes através de convenções, livros, revistas, panfletos, e vídeos, com segredos expostos na Internet e na televisão por malucos mascarados, um segredo permaneceu inviolável: a identidade de S. W. Erdnase.”

E não é como se “The Expert at the Card Table” fosse algum texto perdido empoeirado sobre um vidro num museu. Longe disso. Desde sua aparição pública, “The Expert…” nunca ficou fora de impressão, um recorde surpreendente para qualquer livro, ainda mais para um tratado técnico de prestidigitação com cartas. Há atualmente duas reimpressões padrões à venda, assim como várias edições de baixas tiragens disponíveis através de lojas de mágica – e de jogatina. Em todo tempo que o livro existiu, milhares e milhares de cópias estiveram em circulação, fazendo do “The Expert…” um artigo comum de sebos também. Ele foi traduzido em várias línguas; um site italiano disponibiliza o texto completo (em inglês); e ele inclusive deu origem a duas versões anotadas completas, uma pelo próprio Vernon e outra pelo excelente cartomágico chamado Darwin Ortiz. Erdnase também é citado e referenciado em centenas de outros livros de cartomagia, e os efeitos descritos no livro se tornaram padrões de repertórios modernos. Eu seu brilhante show de cartomagia, “Ricky Jay and His 52 Assistants”, Jay – outro devoto de Vernon – utiliza patter descrito em The Expert at the Card Table.

E ainda assim, que foi seu autor, o misterioso S. W. Erdnase? A teoria mais popular no mundo mágico diz que o nome é um simples anagrama. Na década de 1920, o editor Frederick J. Drake cedeu ao persistente questionamento de ninguém menos que J. C. Sprang, dizendo ao diligente homem das cartas que S. W. Erdnase era de fato E. S. Andrews invertido. Assim como ele havia feito sobre o rumor do center-deal, Sprang passou a dica para Vernon.

Duas décadas depois, parecia que o caminho Andrews tinha realmente levado a solução do mistério. Em 1946, Martin Gardner, um mágico, matemático, escritor, e bom amigo de Vernon, conseguiu localizar o artista de Chicago Marshall D. Smith, que havia feito os desenhos que ilustram as descrições dos passes. Smith se lembrava do autor de uma única reunião 44 anos antes, e pela informação de Smith e outras pistas fornecidas por um antigo jogador-mágico chamado Edgar Pratt, Garner ficou convencido que Erdnase era um trapaceiro de Hartford, Connecticut, chamado Milton Franklin Andrews. O candidato de Gardner tinha morrido em 1905 em San Francisco em um lúgubre assassinato-suícidio justo quando a polícia, que queria questioná-lo sobre um assassinato de uma prostituta no Colorado, estava próxima. Sua morte prematura ajudou a explicar uma dos mais perturbadores quebra-cabeças do mistério de Erdnase: por que o autor nunca se importou em renovar os direitos de sua obra prima.

Agora, com o livro chegando ao seu centenário, a procura por Erdnase se aqueceu de novo, um lote novo de suspeitos proposto por um grupo de caçadores vívido o suficiente para deixar Vernon orgulhoso. Muitos dos que procuram Erdnase sempre ficaram incomodados pelos aparentes furos na teoria “Milton Franklin Andrews” de Gardner. (O próprio Vernon nunca acreditou em Milton Franklin Andrews, mas seu filho Derek Verner disse que isso pode ter sido porque o Professor não quis aceitar a noção de que seu ídolo poderia ter sido tão desprezível.) Os céticos citam discrepâncias na lembrança de Smith da altura (ele se lembrava dele como tendo 1,70 m, enquanto os relatórios da polícia o listam como tendo mais de 1,80 m) e idade de Andrews, junto com distintas diferenças no estilo de escrita do livro e uma carta de 9000 palavras que Milton Franklin Andrews escreveu à polícia. Smith também estava certo de que Erdnase tinha dito a ele que ele era parente de um bem conhecido artista político da virada do século, Louis Dalrymple.

Entra Richard Hatch, um mágico, vendedor de livros, e pesquisador obstinado de Erdnase, que procurou vários suspeitos alternativos. Ele está atualmente focado em um Edwin Summer Andrews, um antigo agente viajante da velha Chicago & Northwestern Railroad, que em seu trabalho teria tido muitas oportunidades de se aplicar ao ofício de trapaceiro. Hatch descobriu que o ferroviário assinou seu nome “E. S. Andrews” em uma licença para casar com Dollie Seely em Illinois. A mãe de Louis Dalrymple era chamada Adelia Seeley (uma escrita diferenciada), ela era do norte de New York, que aparentemente era a terra natal do pai de Dollie, Solomon Seely.

O mais provocativo novo suspeito vem de David Alexander, que vai fundo ao dizer em sua pesquisa com seu parceiro, Richard Kyle, que “nós encontramos Erdnase.” Alexander, que além de mágico, é biógrafo, cortador de silhueta, e ex-detetive particular, fez um perfil investigativo de Erdnase e então desembaralhou o anagrama (e até a página título original) de uma forma diferente. Ele apareceu com Wilbur Edgerton Sanders, um rico e bem educado engenheiro de mineração e autor de um texto de referência em mineração, que era o descendente de uma família politicamente poderosa em Montana. Ele até mesmo encontra significado no S. W. E. Shift, argumentando que isso é na realidade uma dica de Sanders para “shift” [mudar] as iniciais para W. E. S.

Enquanto Alexander ainda precisa revelar se ele conectou Sanders com jogo ou mágica, ele está convencido que ele é quem procura. De sua parte, Gardner com 86 anos desdenha com gargalhadas da teoria de Alexander como “pura bobagem,” enquanto Alexander diz que a fé contínua de Gardner em Milton Franklin Andrews é baseada em “erros fundamentais na pesquisa.”

Independente se a renovada caça finalmente descobriu o autor, ela definitivamente alimentou uma mini onda de Erdnase-mania, e agora o livro teve também um impacto no mundo pontocom. No último verão, quando Garner colocou uma primeira edição de “The Expert…” – assinada por Smith – em leilão no eBay, ela foi para um mágico amador na Califórnia por $10.259. A venda atraiu a atenção do The Wall Street Journal, que colocou a história na sua primeira página, e essa reportagem ajudou a criar uma corrida pelo livro na Amazon.com.

Ainda mais projetos relacionados à Erdnase estão em andamento. O mágico David Ben, que está trabalhando numa compreensiva biografia de Vernon, estará trazendo um livro ainda este ano sobre maneiras de aumentar sua criatividade baseadas na abordagem de Erdnase à sua arte única. Ele tem muito com o que trabalhar. The Expert at the Card Table está cheio de aforismos agradáveis que poderiam sem problemas serem facilmente aplicados a qualquer profissão. “Ser suspeito de uma habilidade é uma golpe mortal para o profissional, “Vaidade excessiva prova a derrocada de muitos especialistas”, e talvez a observação mais celebrada, “O profissional engenhoso não conseguindo melhorar o método altera o momento”.

Vernon certamente assumiu Erdnase como o trabalho supremo de criatividade em sua arte escolhida. “Eu desafio qualquer um,” o Professor disse uma vez a Ricky Jay, “a escrever uma explicação mais clara de como realizar um movimento de baralho do que Erdnase.” Mas e os trapaceiros? Eles também foram fisgados de forma semelhante? Ron Conley, um especialista em poker e prestidigitação com cartas que analisa segurança em um cassino na Califórnia, diz que em 35 anos ao redor do que ele chama “ladrões de cartas”, ele encontrou “muito poucos” deles que já leram Erdnase. Como o center-deal, “The Expert at the Card Table” parece ter exercido uma influência muito maior em mágicos com cartas do que em trapaceiros com cartas.

“Alguns deles ouviram falar dele,” Conley diz sobre o livro. “Mas basicamente eles não o lêem. Eu sinto que eles deveriam tê-lo lido. Eles perderam alguma coisa. Nunca existiu de verdade qualquer coisa feita comparável à Erdnase”.


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.